ALAGOAS PERDE DIRCEU LINDOSO
Personalidades comentam ausência do historiador
Ao entrar para a eternidade, Dirceu Lindoso deixa o legado de um rebelde e o desafio de olhar Alagoas por perspectivas outras
Hoje Alagoas se despede do intelectual Dirceu Lindoso, historiador, jornalista, tradutor, poeta, romancista, antropólogo e etnólogo alagoano, que faleceu ontem, 15 de outubro, Dia do Professor. Ao entrar para a eternidade, Dirceu Lindoso deixa o legado de um rebelde, o desafio de olhar Alagoas por perspectivas outras; para a formação histórica de Alagoas pela perspectiva dos que a construíram: os negros, os escravizados, os índios, as mulheres. O enterro do emblemático historiador ocorre nesta quarta-feira, 16, às 10 horas, no Cemitério da Piedade, no bairro do Prado, em Maceió.
Dirceu Lindoso nasceu em Maragogi, em 1932, e pode ser considerado um dos maiores historiadores de Alagoas. Imortalizado pela obra A Utopia Armada (2005), em que fez um profundo estudo sobre a Guerra dos Cabanos, Lindoso também contribuiu para os mais diversos e referenciados periódicos do Brasil, incluindo o jornal Gazeta de Alagoas, no qual atuou como colaborador em expressivas oportunidades. Ex-aluno do Colégio Batista, do Recife, e do Colégio Estadual de Alagoas, em 1981, ele escreveu o primeiro livro da sua extensa produção literária, o romance Povoa Mundo, que ganhou o Prêmio Nacional José Lins do Rego.
Dirceu Lindoso morreu aos 87 anos, às 1h55, no Hospital Geral do Estado (HGE), onde estava internado desde o dia 9, quando deu entrada com rebaixamento do nível de consciência e histórico de microangiopatia cerebral.
Em 2011, o alagoano recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), durante as comemorações dos 50 anos da Universidade. Na ocasião, a reitora Ana Dayse Dórea fez uma reparação histórica pelos anos de cárcere que o intelectual enfrentou por sua militância comunista. Nos anos de chumbo, Lindoso foi voz ativa no Partido Comunista do Brasil (PCB) e foi perseguido e torturado pela Ditadura Militar.
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“Em nome do Estado Brasileiro, peço desculpas pelas atrocidades que a Ditadura Militar cometeu contra sua integridade física. Atrocidades e privações que em nada comprometeram sua integridade moral. Por isso o senhor é ainda maior”, destacou a reitora Ana Dayse na época.
A atual reitora da Ufal, a professora Valéria Correia, também enalteceu a produção de Dirceu Lindoso e a relevância para a história de Alagoas ao homenageá-lo na Bienal Internacional do Livro de Alagoas, em 2017. Ontem, a magnífica reitora decretou luto de três dias pela memória de Dirceu Lindoso e disse que Alagoas perdeu um intelectual que lançava luz sobre os homens e mulheres do povo.
“É uma perda irreparável para o povo alagoano. Dirceu Lindoso foi responsável por não deixar que se esquecesse a história daqueles cujas trajetórias são relegadas ao esquecimento. A história do povo alagoano não pode ser contada nem conhecida sem que se leia Dirceu, que foi um importante lutador social e comunista, num tempo em que era ainda mais difícil que hoje ser de esquerda”, destacou.
A reitora também mencionou o fato do historiador ter deixado a existência física, justamente no dia de ontem. “Ter partido no dia do professor nos fará lembrar para sempre seus ensinamentos, seus escritos e sua lição de vida ética e compromissada com as causas do povo alagoano e brasileiro”, disse.
INTELECTUAL REBELDE
Para o historiador Osvaldo Maciel, professor da Universidade Federal de Alagoas, a vida e a obra de Dirceu Lindoso são dignas de registro, entram para a história. Ele é um estudioso do legado de Lindoso e destaca que o historiador foi um intelectual e cientista social totalmente desvinculado do Estado, sem nenhuma aproximação direta com governos ou com o que chamou de “dominantes”.
“Isso é uma característica da importante intervenção do Lindoso, que sempre esteve à margem da estrutura dominante. Sua escrita dialoga com diversas áreas, ele é um pouco historiador, um pouco cientista político, etnógrafo, antropólogo, trabalha com análise do discurso, com filosofia da história, é um teórico social que dialoga e tem uma produção multifacetada”, disse o professor.
Osvaldo Maciel também creditou à Dirceu Lindoso as pontes construídas entre o pensamento crítico do século 20 “de Tomás Espíndola” com os pensadores da contemporaneidade.
“Ele é uma espécie de matriz teórica de todo o pensamento crítico e rebelde que nós temos produzido aqui no Estado, para pensar Alagoas. Ele é referenciado por nos conduzir a pensar uma Alagoas diferente da Alagoas que nós temos. Uma que não seja ‘terra dos marechais’ ou ‘terra da cana’ ou, ainda, uma terra dominada por grupos oligárquicos”, completou.
O corpo do historiador foi velado na Casa Jorge de Lima, em frente à Praça Sinimbú. A despedida deve contar com uma multidão de admiradores e deve ter grande parte da sociedade alagoana representada.
A museóloga Carmem Lúcia Dantas também lamentou a morte de Lindoso.
“Alagoas perde, com a morte de Dirceu Lindoso, um dos maiores intelectuais de sua História. Com vasto conhecimento na área de Ciências Humanas, deixou valiosa contribuição sobre a formação histórica e social de nosso estado, sempre fazendo valer a coerência de seu pensamento crítico e abalizado. Grande perda para Alagoas”, acrescentou.