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Teia de Sentidos
Exposição de Pedro Cabral no Complexo Cultural Teatro Deodoro dá um show com as cores das bandeiras de igualdade, liberdade e fraternidade
Na semana passada, quinta-feira (10), o arquiteto e artista visual Pedro Cabral inaugurou a exposição “Teia de Sentidos”. Confrontando-se com a mediocridade violenta dos dias que correm, a exposição é como uma lufada quente no movimento artístico geral da cidade, buscando relações de igualdade, liberdade e fraternidade. As cores primárias (não por acaso as cores das bandeiras francesa e alagoana: branca, azul e vermelha), entre pinceladas impressionistas e expressionistas, são o forte da mostra. “Cores tropicais”, como Cabral destaca, expressando desejo, afeto, olfato, audição, visão e sentimento.
As cores das escolas de arte que eclodiram na França no final do século 19 até a metade do século 20 – fauvismo, impressionismo, expressionismo –, que são por fim os caminhos modernistas percorridos por Pedro Cabral desde a primeira mostra, “Razões do Coração”, realizada na galeria Fernando Lopes há quatro anos.
O coração, o amor. A beleza e a harmonia: as alegrias e pessoas serenas e felizes que surgem nos quadros cabralianos. Mas há, também, o “Saci”, sangrando... O artista, como todos nós, está impactado pela violência e a cegueira dos dias que vivemos.
“Vi uma matéria na TV sobre o comportamento das pessoas, que é muito frio, em relação ao abraço. Um jovem com um cartaz numa grande cidade pedindo abraço das pessoas. E as pessoas estranhando aquilo. Passavam direto. De 15 pessoas, uma parava e dava um abraço nele. Comecei a trabalhar uma ideia de figurativismo, mas não sou um grande expressionista de figuras humanas... Queria apenas realçar a simbologia da pessoa, me aproximando do abstrato, mas não queria fazer uma obra abstrata.”
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Entre o figurativo, o abstrato, o impressionismo e o expressionista, Cabral mostra-se eclético, não raro nostálgico – num contexto observado por ele mesmo como “preocupante”. “Preocupa a invasão religiosa na política. A justificativa social para se combater a violência com violência. A atitude tendenciosa de certos agentes judiciários. Muita gente na Alemanha, durante o nazismo, se embeveceu com um mito, com um discurso racista. Quando foram derrotados, negaram todo esse horror.”
Ele busca “a convivência dos povos em harmonia”. “Sonhar”, repete, “nunca é demais.”. Em uma palavra a exposição é onírica: uma miragem entre o que fomos e o que vamos ser. Precisamos ser diferentes e nos esforçar para isso. Essas cores diáfanas, tropicais, abstratas, impressionistas, expressionistas tomam conta dos dois andares da galeria, em sequência arrojada (abordando os cinco sentidos e depois o pressentimento) assumindo formas de bailarina, de ciclistas, de namorados voluptuosos e damas elegantes e perfumadas, da violinista, do sanfoneiro popular e a sanfona em si, do saci. São tantas as possibilidades de sentidos – para curtir a vida e estar bem com o outro – que dá vontade de sair dando piruetas pelos salões da galeria.
“As escolas impressionista e fauvista foram as minhas bases. Depois a Escola de Paris”, Pedro explica. “Hoje tento fazer o neoimpressionismo, o neofauvismo. Na verdade pretendo mesclar essas escolas e assim me encontrar. São minhas referências. O fauvismo, por exemplo, me ajudou a ter coragem de usar as cores fortes, as cores tropicais. O impressionismo me ajudou nessa expressão esmaecida. Então de cada escola eu capto um valor, um princípio ou uma regra.”
EXPOSIÇÃO ARROJADA, PÚBLICO A SER CONQUISTADO
Régua e compasso. Na primeira exposição, parecendo buscar equilíbrio entre o inconsciente e o consciente – entre o interior e o exterior –, em telas ora impressionistas ora expressionistas, demonstrava esse anseio de recriar escolas: ao mesmo tempo realizando uma arte autoral, para além dos bailes e dos musicais, por exemplo, em telas voltadas à história canibal alagoana e ao genocídio dos índios.
Em “Teia de Sentidos”, a beleza das cores e as possibilidades de abraços e alegrias concretas somente não superam a profunda mágoa do “Saci”. Mas é mesmo um happening – e você pode dançar e delirar com as 40 grandes telas a óleo mais os cinco pasteis secos sobre papel. “Sinto que amadureci em termos de técnica e no jeito de apresentar uma temática mais consistente. Essas foram minhas evoluções. Posso ainda oferecer mais coisas, no futuro”, concorda Pedro Cabral, buscando a “amplitude” do “objeto bidimensional” que é a tela. “Minha arte ainda tem uma possibilidade imensa para crescer. Tanto pelo desenho como pelos traços geométricos ou abstratos. E também pelas suas cores. Eu gosto de usar as cores como ponto de partida. E há uma infinidade de cores, há uma infinidade de composições com as cores.”
Essa segunda exposição individual trouxe o artista diretamente a esse nosso mercado incipiente – por conta dos custos da produção dos quadros e das exposições de modo geral; de não termos marchand e mais vontade empresarial e governamental e, por último, o público que não reage ou não tem dinheiro. Pedro é bom camarada e pratica um preço bastante razoável (e negociável). “Os valores giram de 1.100 até no máximo 4.600”, informa, calculando. “O preço do meu metro quadrado de tela é de R$ 2 mil a R$ 2.500.”
Junto com Cabral, entre jovens e veteranos, artistas que tornaram a exposição sem dúvida agregadora – como de resto era a proposta. É preciso destacar esse encontro de manequins de silicone, alguns já sendo arrebatados, num espaço do salão térreo (o espelho d’água da galeria), dando mais movimento à exposição e que foi desenvolvida pela equipe expográfica: Chico Simas, Levy Paz, Ranieri Lima e Rafael Almeida.
“Fiquei fascinada por esse projeto e achei que fosse um desafio para mim também”, reconhece a curadora Geisa Brayner. “Essa é a proposta dele: o respeito pelo outro. Foi o que fizemos: trabalhamos de forma coletiva.”
Para Geisa, para além do “afeto que os sentidos proporcionam”, a realidade atual é de “certa banalização da maldade”. “A gente nem se emociona mais, virou um cotidiano da vida dura e infeliz. A proposta da mostra é que, por meio da arte, dos sentidos, sejamos mais humanos, para poder resignificar nossa relação com o outro.”
*Sebage é músico, poeta e jornalista