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Cajuína no Verão

Crítico discorre sobre o segundo álbum da alagoana Lucy Muritiba

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Imagem ilustrativa da imagem Cajuína no Verão
| Foto: Reprodução

As artes, dentre elas a música, são surpreendentes pelo tanto de inusitado que podem proporcionar aos artífices e ao público fruidor. Portanto, admitindo-se a veracidade dessa premissa, o espectro de possibilidades é imenso e, por sua vez, capaz de conceituar determinados artistas. Há os que, uma vez encontrado o rumo de suas criações, permanecem fiéis a ele, não ousam guinadas inesperadas, seguem firmes, ampliando e recapeando a estrada desbravada desde o início. No universo da música, temos inúmeros exemplos de artistas conservadores no que propõem e,mesmo assim, a obra preserva o viço natural, permanece vibrante, por mais que a mesma fórmula seja empregada ao longo da carreira. Nem todos conseguem essa façanha, é bem verdade, só os poucos e bons!

Há, ainda, aqueles que são inquietos, para os quais não basta uma nova proposta usual, pois o risco de ser avaliada como repetitiva os incomoda e os movimenta para novos horizontes. Portanto, mudanças no formato, na sonoridade, na arregimentação, enfim, o experimentalismo será sempre necessário ao seu fazer artístico, e apostam nisso, pouco importando os resultados advindos. Os exemplos dessa prática são mais perceptíveis em artistas de carreiras longevas, que volta e meia tentam se reinventar. Quando observamos esse tipo de comportamento em artistas que estão em começo de carreira, temos duas opções de apreciação que, na verdade, só ao tempo caberá mostrar o tanto de acerto ou não. Assim, existe a possibilidade de que, realmente, são almas irrequietas em suas verves criativas, do contrário, são simplesmente seres perdidos dentro da manada, que atiram para todos os lados, num oportunismo de mercado e tentativa de acertar o pato voador.

BIFURCAÇÃO

O álbum homônimo de Lucy Muritiba, lançado recentemente, é o seu segundo trabalho fonográfico e traz uma guinada, uma mudança de rumo em relação ao que ela tinha apresentado no seu primeiro projeto, Em Cores, lançado em 2016. De propostas tão díspares, não caberia qualquer tipo de comparação. São diferentes a partir da essência de cada um, até a última nota dos arranjos de um e do outro. Não será preciso ressaltar as diferenças entre ambos, pois aspectos do álbum atual, naturalmente, estabelecem o contraditório ao anterior. O que era referência no trabalho de Lucy Muritiba, já não serve como ponto de partida para o álbum atual. É como se agora estivéssemos diante de um caminho bifurcado, onde um segue para o Norte e o outro, para o Sul.

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Tal ponto de vista poderá ser ratificado na entrevista que a própria Lucy Muritiba concedeu ao Dimas Marques, do Alagoas Musical, onde ela afirma que houve um estranhamento seu, a partir da audição dos primeiros arranjos feitos por Dinho Zampiere – que também assina a produção desse novo trabalho. Ela disse: “Eu queria essa modernização mais eletrônica, mas quando ouvi eu estranhei, porque eu não tinha feito ainda dessa forma. E até as três primeiras músicas eu fiquei assim: será isso mesmo?” Suponho que ela tinha absoluta razão para as dúvidas, pois o seu trabalho anterior foi bastante visceral, a partir do fato de ter sido gravado ao vivo, onde não havia espaço para colagens e bits homogeneizados. Como primeiro resultado aparente, esse novo trabalho é um álbum que estará datado por uma sonoridade de época, seus bits e timbres da pasteurização mercadológica.

Um lado bom disso, é que, na prática, é um trabalho que tem todos os ingredientes para, por exemplo, virar hit em qualquer rádio comercial e musicar o próximo verão, sem o apelo popularesco desnecessário ao mínimo de inteligência musical e estética. Isso, se o mercado e os veículos difusores não fossem tão excludentes e escrotos com o que não lhe cacifa de imediato. E quando me refiro a hits, posso ressaltar pelo menos duas músicas com esse perfil e enorme potencial para tanto: o afoxé, Ondas de Amor (Lucy Muritiba), é de dar inveja a qualquer baiano que se ache detentor da fórmula desse gênero. De quebra, ainda tem a participação sempre marcante da Fernanda Guimarães. Aliás, talvez não tenham apostado muito nessa música ou não se deram conta do apelo popular que ela tem, pois no disco ela acaba no melhor da festa, é curtinha, com menos de dois minutos, e termina justo quando o refrão começa a grudar. Por outro lado, deixa um gostinho de quero mais! Vai ver que o propósito foi exatamente esse! A outra é o dancehall Tiro de Língua (Luiz de Assis), que tem a participação do próprio autor, com seu timbre inconfundível e interpretação singular, referências do reggae alagoano e da banda Vibrações. Além dessas duas participações, Vitor Pirralho aparece em Poço Sem Fundo, que originalmente é uma canção do Junior Almeida, mas que aqui, ganhou nova versão, com letra discursiva ao estilo rap, bem aos moldes do Pirralho, mas que o disco físico não esclarece se a letra é dele ou da Lucy. Sobrou essa dúvida!

RELEITURAS

Por falar em dúvida, é incompreensível o porquê do projeto gráfico desse álbum promocional (na verdade, um envelope) ser tão desprovido de informações, que seriam básicas e fundamentais ao formato físico. Nele, não temos qualquer referência à ficha técnica, nem ao menos o nome dos compositores das 10 faixas. Não há como saber quais são os músicos que estão atuando em cada uma delas, nem as participações especiais. E, para ser sincero, a contracapa não sofreria qualquer agressão estética, se essas informações fossem acrescentadas. Pelo contrário, seria de extrema importância para o fruidor mais atento e interessado nos detalhes e atores que compõem esse trabalho.

O álbum começa com duas releituras para canções que originariamente são cocos. Beira D’água (Lucy Muritiba, Arnaud Borges e Jurandir Bozo) e Mundo Diferente (Jurandir Bozo) foram ressignificadas de maneira tal, que o tempo forte do trupé está diluído a ponto de perder as referências embrionárias com o ritmo original. Para tantas releituras contidas nesse trabalho (Estrada, Meu Pé de Carambola, Poço Sem Fundo), essa é a pegada onde Dinho Zampier consegue pleno êxito como arranjador. Outro aspecto interessante é como ele soube adequar bem os arranjos ao canto de Lucy Muritiba e, assim, ressaltar o crescimento da artista como intérprete, o que, certamente, também tem a ver com amadurecimento musical. Enfim, esse trabalho homônimo de Lucy Muritiba é leve, solar e parece ser uma escolha pessoal de novos caminhos a serem trilhados. Fica a impressão de que esse álbum tem o espírito da personagem que, na música Mundo Diferente, diz: “Vê se larga a minha vida e vai tomar… cajuína”.

*É músico e jornalista

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