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Ilhas de Calor
Filme viçosense gravado em escola pública ganha projeção nacional em festivais de cinema
O amor explodiu / Dentro de uma das Torres Gêmeas / E agora voa no ar como poeira. / Procurar por ele é o mesmo que procurar piolho em cabeça de cobra / Ou cabelo em casca de ovo / O que sinto agora / Já não sei o nome.
A poesia que abre o filme o guia. Mas, na verdade, é como se todo o ‘Ilhas de Calor’ fosse constituído de poemas e poéticas. O curta-metragem de Ulisses Arthur - promissor diretor viçosense - estreou no mês passado na tela do 29º Cine Ceará e está com uma agenda repleta de seleções para festivais em todo o Brasil.
O filme foi gravado em Viçosa e aborda as demandas juvenis por autoexpressão e descoberta. A ideia surgiu depois de o diretor reencontrar uma poesia escrita anos atrás, quando ele ainda era estudante do ensino fundamental.
O processo de produção, definido como “intenso e arriscado”, envolveu jovens da Escola Municipal Pedro Carnaúba, também da cidadezinha do Vale do Paraíba, localizada a 86 quilômetros de Maceió. O diretor e colaboradores ministraram oficinas artísticas enquanto selecionavam os atores estreantes.
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Com um baixíssimo orçamento, o alagoano contou com a colaboração dos conterrâneos e com contribuições, inclusive artísticas, dos professores da escola municipal que acolheu a produção e virou o cenário para a trama. 19 estudantes e dois professores integram o elenco do curta, que acaba por narrar o dia a dia escolar sob a perspectiva de Fabrício, aluno da 8ª série e que está descobrindo sentimentos e a si mesmo - como todo adolescente.
Para Anny Santos, estudante da Escola Pedro Carnaúba, participar do filme foi importante para a autoestima dos estudantes, que experimentaram o trabalho com a sétima arte e descobriram o que existe por trás dos filmes que eles adoram: “Muito trabalho”.
Segundo a estudante, o diretor do filme se esforçou para deixá-los livres para criar, porém manteve o clima de set de filmagens, que apesar de um ambiente acolhedor e criativo é de muita pressão.
“Tem muitos jovens que gostariam de ter uma oportunidade como essa. Foi surreal. Eu fazia aulas de teatro e parei porque desanimei, não tinha sede de descobrir as coisas. Mas agora eu tô muito interessada e, depois dessa experiência, se tiver mais oportunidades eu entro de cabeça”, disse a adolescente.
No Cine Ceará, festival ibero-americano que ocorreu em Fortaleza no mês passado, a disputa foi acirrada e somente 12 projetos foram selecionados. O filme viçosense saiu com o principal troféu da categoria que concorria e acumulou críticas positivas. Na próxima semana, Ilhas de Calor começa a circular pelo Brasil, em festivais no Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Brasília. O diretor pretende exibir o filme em Maceió no dia 22 de novembro e tenta viabilizar a vinda do elenco e dos colaboradores viçosenses.
No elenco estão: Vyctoria Tenóryo, Vitor Santos, Anny Santos, Fernanda Monalisa, Edilene da Silva, Adriana da Silva, Carleane Alves, Alyston dos Santos, Antônio Vitor, Claudiane Clemente, Claudio Henrique, Gisele Henrique, Jackysson Santos, Kennedy Honório, Lucas Siqueira, Mary Correia, Robert Moura, Ronyzinho D’Ávila, Weverton Lima, Professora Janete Bomfim e Professor Zé da Silva.
APOSTA ALAGOANA
Formado pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Ulisses Arthur já filmou outros dois curtas e ambos conseguiram circular por mostras e festivais nacionais e internacionais. Gravado em Maceió, “As Melhores Noites de Veroni” contou com o apoio da Fundação Municipal de Ação Cultural. Já CorpoStyleDanceMachine, uma homenagem a Tikal, importante ícone LGBT+ do Recôncavo, seguiu uma lógica diferente: custou R$ 30 reais e foi filmado na sala de uma casa em Cachoeira.
Ilhas de Calor foi mais uma aventura cinematográfica e encontrou relevância, segundo o artista, pelo processo de colaboração para a realização do filme.
O curta é dedicado à professora Eliza Magna, que lecionava artes no Instituto Federal de Ciência, Educação e Tecnologia de Alagoas (IFAL) e faleceu no ano passado.
Na última quarta-feira (23), Ulisses Arthur foi anunciado como um dos vencedores do Edital Audiovisual da Prefeitura de Maceió, que financiará o primeiro longa do jovem cineasta. O filme “Não estamos sonhando” receberá o montante de R$ 95 mil.
O diretor conversou com a Gazeta de Alagoas sobre o processo que resultou em Ilhas de Calor e sobre a carreira no cinema.
Como você foi recebido em Viçosa?
Fomos muito bem recebidos. Por todos, pela escola, pelas pessoas que ajudaram, pelos professores. E os meninos foram muito receptivos no processo. Eles começaram sem entender muito e, de fato, é complexo compreender o funcionamento de um set de filmagens. Mas, aos poucos, a galera foi levando muito a sério. Eles pensavam na continuidade, nas cenas que se conectavam. Foram seis diárias, em três dias já existia uma energia entre eles, já sentiam a presença da câmera, entendiam como se posicionar. Eles foram recebendo, sabe? Acolhendo a equipe. Não houve nenhum grande estresse em relação à cidade, à escola ou as pessoas.
Você fez esse filme completamente sem dinheiro. Como foi isso?
Olha, foi uma loucura. Sabe quando você fica amargamente arrependido? Foi assim no segundo dia de filmagens. Você nem é religioso, mas pergunta “Deus, por que eu fiz isso?” Cara, foi assim, eu tinha feito dois curtas que circularam super bem nacionalmente, e as opções eram esperar um edital, ganhar e fazer um curta; ou fazer um curta naquele momento, para não perder o ritmo. Porque você tem que estar produzindo. O que aconteceu foi que a gente usou prêmios que a gente tinha ganhado e os apoios que tínhamos recebido lá em Viçosa. E todo mundo que foi trabalhar levou alguma coisa para ajudar. A gente barganhou muita coisa também e quem topou foi porque gostou do roteiro. Foi uma aposta coletiva.
Como a experiência se difere dos seus outros curtas?
Foi um amadurecimento muito grande, porque você tem que pensar outras estratégias de produção. Fazer assim, sem grana, é muito visceral. Você está limitado, precisa ser criativo para lidar com tudo aquilo. Eu acho que se fosse feito com grana seria completamente diferente. Não romantizando, sabe, é importante não romantizar trabalhar de graça, porque é duro. Também tem outra coisa, eu queria experimentar filmar dez pessoas num mesmo quadro, porque eu estou com um projeto de longa, então foi uma oportunidade para fazer isso.
Assim que concluiu a graduação você voltou para Alagoas e engatou produções. Foi planejado?
É um mix de tudo. Depois da repercussão das ‘Melhores Noites de Veroni’ entramos num radar. E nacionalmente comecei a ser conhecido como “um realizador de Alagoas”. De algum modo, o que eu fiz começou a ser associado ao estado. E isso foi massa. As pessoas falavam “tem aquele curta, aquela atriz ali”, e foi uma maneira de observar que existe uma lacuna no cinema nacional de filmes de outros estados. Então, eu tô vivendo aqui, não foi pensado, mas está sendo muito bom. Até porque estamos vivendo um momento muito bonito aqui. A Mostra Sururu, por exemplo, teve 59 inscritos, em um estado que não tem nem curso superior de cinema. 12 cidades produziram filmes. Ou seja, tem 11 cidades do interior fazendo cinema. É um momento especial. Então eu tô muito feliz de estar aqui.
O seu primeiro longa foi selecionado para o “BrLaB”, que é o único laboratório de desenvolvimento de projetos audiovisuais do Brasil. Como foi essa experiência?
Mal acabou eu já queria voltar. De algum modo você precisa amadurecer os projetos e o pessoal costuma falar que o BrLab é um laboratório 360º, ou seja, você desenvolve o projeto sob diversas perspectivas: direção, produção e roteiro. São oito dias em São Paulo com especialistas dando consultoria sobre o seu projeto. Você aprende com os outros que estão lá e também dialoga com pessoas do mercado nacional e internacional, como Globo Filmes, Vitrine e produtoras da França, da Noruega, tanto para financiamento quanto para relacionamento profissional. É um espaço singelo, de muita troca, mas também de business. E está cada vez mais disputado, foram 430 inscritos e somente 12 pessoas selecionadas.
O cinema está no centro de polêmicas ultimamente, como você lida com isso, com o nosso tempo?
É claro que existe um clima forte de desânimo. O cinema está sendo atacado e isso, obviamente, mexe com nossa autoestima. Meus projetos falam de várias minorias que o atual governo tem atacado, estamos na mira, mas o medo desmobiliza muito a gente. Claro que as coisas mudaram, mas eu sou muito otimista. Tá rolando essa Frente Bacural, de parlamentares pelo cinema. Tem profissionais tentando explicar para parlamentares como o cinema dá lucro, como é a operação do cinema brasileiro. Saindo do campo da cultura, de maneira geral, o que está acontecendo com o país é fruto de muita ignorância. Mas este momento precisa incentivar diálogos. Apesar do medo e dos ataques tem uma união acontecendo, os filmes estão potentes, respondendo, maduros, tem muitos profissionais capacitados. Então eu sou otimista. Nada está 100% ceifado. Seguimos acreditando. E precisamos acreditar que a justiça vai acontecer. Por exemplo, o presidente embargou um edital recentemente e a justiça mandou retomar. Então, acredito que tem mais pessoas boas que ruins e, se a gente teve um baque, foi para todo mundo se ligar.