FLIMAR
Gilberto Gil e as disposições amoráveis
Cantor e compositor baiano refletiu sobre questões contemporâneas em palestra e faz show gratuito nesta sexta-feira
Ainda com o sol a pino uma multidão modificava a paisagem da pacata cidade de Marechal Deodoro, nessa quinta-feira, 31. As pessoas que buscavam abrigo à sombra dos prédios históricos da primeira capital alagoana tinham olhos atentos e se perguntavam: onde está Gilberto Gil? Homenageado da 10ª Festa Literária de Marechal Deodoro, Gil movimentou o primeiro dia do evento, que vai até o dia 2 de novembro. O show gratuito de Gilberto Gil ocorre nesta sexta-feira (1), em Marechal Deodoro, às 20h. A abertura é da cantora Fernanda Guimarães.
O cantor esteve na cidade acompanhado da escritora Ana de Oliveira e proferiu uma palestra sobre o livro que assinam juntos, o “Disposições Amoráveis”, lançado pela editora Yia Omin, ainda em 2015. O livro é importante divisor de águas na carreira de Gil, que é um dos mais profícuos artistas brasileiros a se envolver em projetos instigantes e que vão além da própria produção musical. No livro, o cantor propõe uma conversação, mediada por Ana de Oliveira, e compartilha um baiano pensador do mundo, um artista que reflete o seu tempo - passado, presente e futuro - sem medo de polêmicas e tabus. A obra revê a obra de Gil, discute ideias, analisa temas contemporâneos e rememora o passado em narrativas amorosas. “‘Disposições Amoráveis’ é uma expressão que ela (a co-autora) pinçou de um dos trechos da nossa conversa”, explicou Gilberto Gil.
Aos 77 anos, o cantor e compositor fala com calma e precisão do contemporâneo, afirmando, no entanto, que seu futuro é urgente. Com um brilho estranho nos olhos, Gilberto Gil leva, segundo ele mesmo, a vida assim: com mais afeto do que antes, com os sonhos que traz desde menino, com música o cercando, com fé, com disposições amoráveis. Antes da palestra, o artista assistiu apresentações de crianças da rede municipal de ensino de Marechal Deodoro, que cantaram e tocaram canções de Gil, sob a regência de Victor Moura. Entre os “capítulos” da palestra, os alagoanos Júnior Almeida, Almir Medeiros, Toni Augusto e Bruno Palagani apresentaram músicas do baiano que se relacionavam com os temas discutidos, que foram de religião ao Brasil atual.
“Como um dos inventores do tropicalismo ele é da geração que melhor sonhou o Brasil”, introduziu Ana de Oliveira, que foi seguida por Gil.
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“É uma alegria muito grande ver essa juventude participando da vida da significativa comunidade de Alagoas. É a segunda vez que visito a cidade, a vez anterior foi no papel de gestor público. Essa cidade tem sentido profundo de patrimônio. Ela tem quase a idade do País e essa memória precisa estar presente na vida brasileira. Estamos cada vez mais necessitados de ter uma noção desse papel cultural e social”, afirmou o cantor.
Quando ministro do extinto ministério da Cultura, Gilberto Gil propôs tombar o conjunto arquitetônico de Marechal Deodoro como Patrimônio Histórico Nacional. O ato de assinatura foi na cidade, que o recebeu pela primeira vez em 2006. A homenagem da 10ª Flimar chega, então, como um “muito obrigado Gil”, como explicou o prefeito Cláudio Filho, o Cacau, na solenidade de abertura. “Tudo isso só foi possível porque lá atrás, ministro Gilberto Gil, o senhor assinou o ato que protegeu nossa cidade e fez dela um patrimônio histórico. Saiba que hoje está sendo um dia marcante na minha vida, por poder receber o senhor”, disse.
O SHOW DE GIL
Antes de lançar seu álbum mais recente “OK OK OK”, do qual se originou o show que os alagoanos poderão assistir na noite de hoje, Gilberto Gil atravessou diversas internações hospitalares. As notícias eram de problemas renais e cardíacos, mas quando menos se esperava Gil surgia com seu cancioneiro afinado com o álbum mais afetivo de sua carreira, como ele mesmo defendeu e explicou, dizendo que uma rede de afeto foi criada ao seu redor quando adoeceu. “Foi uma fluência. As canções foram saindo em função muito de uma carência afetiva que eu tinha à época, porque eu estava com dificuldade de saúde, precisava mesmo de muita atenção e carinho de parentes, amigos, médicos. É isso tudo que aparece no disco. Algumas dessas pessoas são exemplos desse mundo afetivo que se tornou compulsório naquele momento”, afirmou. Além dos clássicos, como o sucesso “Andar com fé”, as afetivas canções de OK OK OK estarão presentes no show desta noite. O disco está disponível em todas as plataformas digitais e à venda em formato físico também.
Falando em andar com fé, crença foi um dos assuntos abordados na palestra do artista, que defende a diversidade como premissa da evolução.
“A negação da divindade dá suporte a afirmação da fé. No mundo moderno, a partir de 500,600 anos atrás, quando o autointitulado iluminismo chegou ao mundo, a bifurcação do pensamento de Deus ficou mais definida. Essa determinação de que tudo está travado por uma entidade suprema é que dá início a vida do mundo”, disse Gil ao ser perguntado sobre a crença e a não-crença.
Ainda discutindo questões contemporâneas, Gil foi provocado sobre a situação atual do Brasil e limitou-se a criticar visões autoritárias de país, além de condenar a extinção do ministério da Cultura, proposta e executada pelo governo Bolsonaro.
“Hoje, no Brasil, nós temos uma tentativa de reduzir tudo numa única visão. Seja política, religiosa, filosófica, científica, temos essa tentativa de dominação de uma determinada forma de pensar e entender o mundo, o presente, o futuro. Isso é um entendimento equivocado da humanidade, do país”, afirmou.
Sobre o fim do Minc, o ex-ministro também disse que prefere não avaliar a situação, mas, mesmo assim, comentou. “Isso é uma coisa que é autoexplicativa. A visão que esse governo tem da vida cultural é manifestada nesse menosprezo. É uma mensagem de desimportância à cultura. É o modus operandi, pertence à natureza desse governo”, finalizou.
O jovem Gilberto Gil olhava para o futuro com excitação. Em “Expresso 222”, por exemplo, existia a ânsia de chegar ao “novo século”, repleto de promessas futurísticas, inclusive de paz. Ao ser provocado sobre a passagem do tempo, Gil disse que tem muito passado e que vive como nunca, sem arrependimentos.
“Todos os outros pontos me trouxeram a este ponto aqui. Se as músicas não tivessem feito sucesso, se a personalidade não tivesse sido acolhida pela afeição do povo, se tudo isso, todos os êxitos que formaram minha caminhada até aqui não tivessem acontecido como acontecerem, eu não estava aqui hoje. E é esse o lugar, é o aqui, é o agora. Isso é importante e é onde eu deveria estar, numa cidadezinha, que não é nenhuma Nova York, nem Paris, nenhuma Tokyo, mas que é onde eu deveria estar”, refletiu o cantor.