loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
sexta-feira, 24/07/2026 | Ano | Nº 6274
Maceió, AL
25° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Caderno B

Caderno B

No STF, Artistas dizem que governo criou nova forma de censura

Caetano Veloso e outros artistas, além de políticos, compareceram a audiência no STF

Ouvir
Compartilhar
Caetano Veloso disse que em todas as vezes que governos tentaram alinhar artistas para propagar ideias o desfecho foi trágico
Caetano Veloso disse que em todas as vezes que governos tentaram alinhar artistas para propagar ideias o desfecho foi trágico -

Artistas como o cantor Caetano Veloso, o cineasta Luiz Carlos Barreto e os atores Caio Blat, Caco Ciocler e Dira Paes participaram, nessa segunda-feira (4), de uma audiência pública no STF (Supremo Tribunal Federal) para discutir medidas do governo Jair Bolsonaro que, segundo eles, impõem nova forma de censura às artes audiovisuais. A audiência foi presidida pela ministra Cármen Lúcia, relatora de uma ação ajuizada pela Rede Sustentabilidade contra um decreto do governo que transferiu o Conselho Superior do Cinema para a Casa Civil, ligada à Presidência, e contra uma portaria do Ministério da Cidadania, de agosto, que suspendeu um edital de obras que seriam exibidas em TVs públicas. Entre as obras havia séries que tratavam de diversidade sexual. Segundo os artistas, um novo tipo de censura está se consolidando por meio da criação de filtros ideológicos para que o poder público financie produtos culturais, e parte da categoria já atua com medo. Ao abrir a audiência, Cármen Lúcia destacou que o evento não tinha a intenção de debater censura. “Censura não se debate, censura se combate, porque censura é manifestação da ausência de liberdades, e a democracia não a tolera. Por isso a Constituição do Brasil é expressa ao vedar qualquer forma de censura”, afirmou. A Rede pediu ao Supremo que reconheça que as medidas do governo atentam contra as liberdades de expressão artística, cultural e de comunicação previstas na Constituição. A audiência pública serve para fornecer informações aos ministros que os auxiliem no julgamento da ação. Além dos artistas, membros do governo também participaram. Ao todo foram 15 exposições. A audiência continua nesta terça (5), com as falas de sindicatos do setor e entidades ligadas à cultura e à liberdade de expressão. Não há data para que a ação seja julgada no plenário do Supremo. “[A preocupação com a liberdade de expressão] É grande, porque [há] essa ameaça, meio vaga, mas muito repetida, de não aceitação, através da retirada de subsídios ou de possibilidades de realização de projetos”, disse Caetano Veloso. “É uma censura que se dá através do boicote à produção, seja a montagem de um espetáculo que eles não consideram de acordo com o que eles pensam, seja a produção de um filme que eles acham que ofende o tipo de moral que eles supõem defender. É muito confuso, mas, que há uma movimentação do tipo censor, há”, afirmou.

Em sua exposição, Caetano destacou que essa nova censura é diferente da da ditadura militar (1964-1985), quando havia profissionais dedicados a proibir expressamente a exibição de obras ou suprimir trechos delas –como aconteceu com canções de sua autoria. “Por mais que exista uma Constituição que garanta a não censura, não é à toa que estamos aqui reunidos. É porque algum lugar estamos sentindo a censura na prática”, disse Caco Ciocler. Para ele, há uma “sensação real, concreta, da classe artística de que existe um movimento muito ligado a uma questão de valores cristãos”. “A mim preocupa muito, tenho ouvido histórias bastante assustadoras. [O alinhamento dos artistas, supostamente buscado pelo governo] É um indício extremamente preocupante, porque em todos os exemplos da história, sempre que o governo enxergou a cultura e a arte como uma maneira de propagar ideias que lhe fossem caras, o desfecho foi trágico. A arte não é um instrumento de propaganda de ideias, e eu estou ouvindo discursos com esta tentativa.”

Caio Blat, que esteve no elenco da peça “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, emocionou parte da plateia ao recitar trecho do livro no qual o cangaceiro Riobaldo fala de seu amor por outro cangaceiro, Diadorim –que, no final, revela-se uma mulher travestida de homem. “Noventa e nove por cento de ‘Grande Sertão: Veredas’ é um romance homoafetivo. Guimarães Rosa talvez não poderia desenvolver a maior obra-prima da literatura brasileira se ele dependesse desse edital [do governo] hoje.” “A censura já está instalada neste país. De forma velada, de forma imunda, agora o que se está fazendo é uma limpeza ideológica velada, tentando excluir os mais fracos, excluir a diversidade. Como é que um edital pode ser recolhido para excluir as minorias dele?”, questionou.

Relacionadas