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Caderno B

‘NÃO É O FIM’

Samuel Rosa fala sobre o ‘fim’ do Skank; com ingressos esgotados, grupo mineiro explica motivos de sua separação ‘por tempo indeterminado’ e os planos de cada um

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Imagem ilustrativa da imagem ‘NÃO É O FIM’
| Foto: Divulgação

RIO - Em 5 de junho de 1991, São Paulo e Bragantino fizeram a primeira partida da final do Campeonato Brasileiro, levando 67.759 pessoas ao Morumbi. No mesmo dia e horário, uma banda iniciante de Belo Horizonte se apresentava no Aeroanta para meros 37 pagantes. O São Paulo se tornaria campeão naquele ano, enquanto a banda mineira (e apaixonada por futebol) chamada Skank gravaria seu nome como um dos grupos de maior sucesso da geração anos 1990. Quase 30 anos e mais de 6,5 milhões de discos vendidos depois, Samuel Rosa (guitarra e voz), Henrique Portugal (teclados), Lelo Zaneti (baixo) e Haroldo Ferretti (bateria) encerram mais um ciclo. Foi no emblemático palco do Circo Voador, na Lapa, que, há exatos dois anos, o grupo mineiro gravou ao vivo o DVD e CD duplo “Os três primeiros”. Agora, celebra com dois dias de lotação esgotada a turnê homônima, que ainda passará por Tubarão (SC), Curitiba (PR) e Belo Horizonte (MG). A festa, no entanto, tem gosto de despedida: como anunciado no início do mês, a banda vai parar por tempo indeterminado após os shows comemorativos pelos 30 anos de carreira, em 2020. A notícia, que causou comoção entre os fãs, terminou distorcida, segundo Samuel: “Algumas pessoas resolveram, por conta própria, dizer que é o fim. Eu não acredito nisso”. Na entrevista abaixo, o quarteto comenta a decisão e o que está por vir.

Pergunta: Fãs e críticos fizeram muitas análises sobre essa pausa. Há quem ache que vocês ainda renderiam juntos, e há quem apoie, afirmando que acertam em parar no auge. Chegaram a ler e ouvir o que foi dito?

Samuel: Acompanhamos toda a repercussão. Queremos ouvir as considerações de todo mundo, mas há especulações que são fantasiosas. Existe um despreparo geral para entender como alguém pode abdicar de uma coisa bem-sucedida e bem-feita para tentar caminhos mais difíceis e correr riscos. Se a gente alegasse uma desavença interna ou uma falência, talvez soaria mais razoável e compreensível. Essa parada vai ajudar a perpetuar a importância, a imagem, a música do Skank na cabeça das pessoas.

Henrique: Como disse Dostoiévski em “Os irmãos Karamazov”, “as gaiolas são o lugar onde as certezas moram”. Para voar é preciso enfrentar o terror do vazio. Nós fizemos a nossa escolha.

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Lelo: Surgiu essa deixa para uma parada depois de “Os três primeiros”, turnê incrível, esgotada em lugares enormes, somada a comemoração dos nossos 30 anos.

Haroldo: A maioria dos comentários foi dando apoio e manifestando uma certa melancolia. Acho que em todo o tempo de Skank fomos criativos, fizemos com prazer. Independentemente de qualquer futuro, é legal que a gente consiga manter esse clima até o fim do ano que vem. Não ficou claro se será um afastamento temporário, com possibilidade de volta, ou se é um fim definitivo. Há chance de retorno?

Samuel: A gente trata esse momento como uma parada. Algumas pessoas resolveram, por conta própria, dizer que é o fim. Eu não acredito nisso. A minha disponibilidade de retomar ao Skank no futuro é muito grande. Estou bem certo disso, mas não depende só de mim. Quero crer que o Skank não vai parar de vez, que a gente vai retomar os trabalhos em projetos especiais. A intenção é essa. Definitivamente, não é o fim.

Henrique: Outro dia, escutei do amigo Charles Gavin (ex-baterista dos Titãs, que estava naquele show do Aeroanta): “Nunca diga nunca”. O futuro está aí para ser escrito.

Lelo: “Quien puede saber?”. Temos uma boa relação com a nossa discografia e adoramos tocar ao vivo juntos. Também temos a sensação de missão cumprida. Se depender da afinidade pessoal e musical, ainda teremos coisas ótimas pela frente.

Haroldo: A gente vai parar por tempo indeterminado, o que pode significar “pra sempre” ou “um ou dois anos”. Há quanto tempo esse afastamento vem sendo maturado? Qual foi o fator determinante?

Samuel: Esse intervalo vem sendo tratado pela banda há alguns meses apenas. Há um ditado que diz: “Cuide tão bem do final quanto cuidou do início”. A gente está tentando dar contornos de uma despedida à altura da importância da banda, grandiosa e harmoniosa. Se é que é possível, e eu acredito que sim, a gente quer fazer uma grande festa no ano que vem pra fechar esse ciclo da primeira parte da história de 30 anos.

Lelo: Talvez tenha sido determinante a ideia dos 30 anos comemorativos, com documentário, disco novo, e também buscar algo diferente antes do natural envelhecimento. Acredito que ainda não aconteceu uma maturação completa. Estamos vivendo e aprendendo.

Haroldo: A decisão de parar foi no segundo semestre. A gente tem compromisso com várias pessoas e entre nós mesmos. Daí, tratamos de fazer mais um ano de turnê. O que cada um planeja para o futuro solo?

Samuel: Eu já tenho uma turnê e um disco em mente, mas nada pronto.

Henrique: Acho que é momento de focar neste próximo ano de turnê e viver grandes emoções junto com as pessoas que sempre gostaram do nosso trabalho.

Lelo: Tenho o selo de gravação e produção Q, para cuidar de artistas e bandas novas e experientes, com o parceiro Cris Simões. E o projeto Nie Myer, com Henrique Portugal e DJ Anderson Noise, que mistura eletrônica, dance music, jazz e bossa.

Haroldo: Mais adiante, o que for para se tornar público será. Por hora, não tenho muito a falar sobre planos. O Skank volta ao Circo com o público ainda sob o impacto da notícia da separação. Os shows têm sido mais emocionantes desde então?

Henrique: É uma emoção que nos impacta bastante, mas é uma escolha que fizemos. Temos que comemorar uma história tão bonita. O ambiente do show é de comemoração.

Lelo: Tenho como impressão forte a intenção do “olá” mais positivo. Vamos nos divertir! Acho muito natural, depois de 30 anos, fazermos trabalhos fora do grupo também. O que já está definido sobre a turnê de despedida?

Samuel: O Rio, obviamente, está no roteiro. Ainda não temos nome certo nem sabemos como será o cenário ou se será documentado.

Haroldo: É provável que tenha músicas inéditas, ao menos uma das que a gente está gravando em estúdio.

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