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Caderno B

Confira a programação do cinema (30/11 e 01/12/2019)

FILME CONTA HISTÓRIA DE SANTO MORTO EM AUSCHWITZ

Por INÁCIO ARAUJO/ FOLHAPRESS | Edição do dia 30/11/2019 - Matéria atualizada em 29/11/2019 às 23h13

Longa trata da vida de Maximiliano Kolbe, religioso franciscano elevado a santo
Longa trata da vida de Maximiliano Kolbe, religioso franciscano elevado a santo - Foto: Reprodução
 

SÃO PAULO, SP - Com o filme “Duas Coroas”, a Igreja Católica parece ensaiar um contra-ataque ao avanço mundial dos grupos neopentecostais. E esse é um contra-ataque que começa por mobilizar o meio que os católicos melhor dominam, o cinema. Por algumas razões pode-se presumir que este longa-metragem terá um efeito menor do que “Dois Papas”, reservado ao Netflix. Mas, com certeza, funcionará melhor do que os canais de televisão promovidos pela catolicidade. “Duas Coroas” retoma a vida de um dos santos da Igreja, ora a partir de depoimentos, ora de documentos fotográficos, ora mesmo de representação, o que o torna uma mistura de documentário e cinebiografia, de filme e pregação. Isto é, a vida de Maximiliano Kolbe (Adam Woronowicz), religioso franciscano elevado a santo pelo papa João Paulo 2º, é ao mesmo tempo mostrada, explicada e cultuada. Seria um santo para os nossos dias, segundo a propaganda católica. O que seria um santo para os nossos dias? Talvez uma tentativa de tirar o pó da velha iconografia católica, com seus mártires perfurados por flechas e similares. A morte de Kolbe, no campo de extermínio de Auschwitz, no sul da Polônia, fala bem, efetivamente, do que possa ser um martírio contemporâneo. Mais: Kolbe foi um franciscano, o que significa ter feito um voto rigoroso de pobreza – e o que o aproxima do atual papa Francisco. No entanto, se nunca negligenciou os pobres e a pobreza, sua principal atividade foi na difusão da fé católica, seja na Polônia, onde criou a Milícia da Imaculada, seja no Japão, aonde buscou difundir sua fé em Nagasaki.


PROXIMIDADE COM DOIS PAPAS

Como se vê, Kolbe tem atributos que o aproximam de dois papas recentes. Primeiro, João Paulo 2º pelo lado polonês (provavelmente o catolicismo mais arraigado de todo o mundo) e pela difusão da fé (em que João Paulo 2º se empenhou, embora seu pontificado tenha sido de enorme evasão de fiéis (em favor, novamente, das seitas neopentecostais). Depois, com Francisco, pelo franciscanismo e sua proximidade da pobreza (que tem relação com a opção pelos pobres que João Paulo 2º abandonou), mas também pelo empenho em restituir ao termo “católico” seu significado original, de universal (o que explica o empenho do atual papa em atrair à sua igreja desde homossexuais, até eventualmente sacerdotes casados). Em poucas palavras, “Duas Coroas”, dirigido por Michał Kondrat, com roteiro de Joanna Ficiska e lançado esta semana nos cinemas, interessa seja pelo personagem, que, ao dar sua vida em troca da de outro detento no campo de concentração em Auschwitz aceitou o martírio, como pelas repercussões que tem em sua fé.

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