Caderno B
POESIA POR MEIO DAS LENTES
Mostra de Fotojornalismo e Vídeos de Alagoas está em cartaz no Complexo Cultural do Deodoro até o fim de janeiro; ideia é humanizar profissão e validar regionalidade
A fotografia é uma arte que mexe com as pessoas. Temos cada vez mais artefatos fazendo alusão à algo que, um dia, foi considerado para poucos. Apesar de ter se tornado acessível, há algo que o tempo não supera: a necessidade da profissão e do olhar fotojornalístico, que possibilita mais que um registro, mas a poesia da realidade retratada numa foto. É esse contemplar real e humanizado, mas acima de tudo poético, que figura nos registros apresentados na 4ª Mostra de Fotojornalismo e Vídeos de Alagoas, montada no Complexo Cultural do Teatro Deodoro e aberta ao público até o dia 30 de janeiro de 2020. A exposição é realizada pela Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos no Estado de Alagoas (Arfoc-AL).
A mostra conta com registros de 19 repórteres fotográficos e 12 repórteres cinematográficos e pretende exibir um lado diferente, mais pessoal, dos profissionais. “A fotografia não é só desgraça, nem só futebol, só as notícias do dia a dia. A fotografia é conhecer e conviver com outras culturas e passar isso que é registrado para o povo. Nessa mostra, a gente traz o André Feijó e um filme que ele fez em Piranhas sobre o Lampião. Tem o Rodrigo Lins com um vídeo sobre o trabalho dos policiais militares, explicando algumas questões internas deles. Tem também um vídeo sobre a sujeira do óleo. Alguns trabalhos foram até exibidos em emissoras como a Globo, a Record, a Band. Rodaram o Brasil”, explica o presidente da Arfoc-AL, Ailton Cruz.
Com curadoria coletiva por parte dos fotojornalistas e organizada por Alice Barros e Robertson Dorta, a ideia é fazer uma retrospectiva dos principais acontecimentos deste ano, enquanto traz também um novo olhar sobre a nossa realidade. “Um dos nossos diferenciais é sempre ter material em vídeo. Outras associações do Brasil realizam uma exposição anual, mas utilizam apenas as fotos. O ex-presidente da Arfoc de São Paulo, por exemplo, me disse certa vez que não sabe como conseguimos reunir tanto material para a exposição. Isso surpreende. Eu digo que é um trabalho conjunto que a gente realiza e que torna tudo isso possível”, destaca Ailton Cruz.
EXPOSITORES
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Jornalista desde 2014, porém atuando na fotografia desde 2012, um dos expositores é Itawi Albuquerque. Conhecido por seu trabalho cobrindo a área de esportes para agências nacionais, além de cobertura de eventos empresariais ou casamentos de artistas, como Mano Walter, Itawi carrega consigo um gosto também por eternizar características muito próprias da cultura alagoana.
“Para a mostra, eu quis levar alguns registros pessoais mesmo. As fotos que fiz e expus foram registradas numa viagem com um grupo de amigos para o interior. Vi na viagem a oportunidade de fazer uma das coisas que eu mais gosto, que é registrar as pessoas em suas realidades, em suas atividades corriqueiras. Coisas e pessoas que parecem ser comuns, mas acabam se tornando ícones dos locais”.
Nessa viagem, duas senhoras despertaram o interesse do fotojornalista. “Teve uma senhora com um capão na mão que chamou minha atenção. Fui conversar com ela, que se chama Maria José, saber um pouco mais da sua história e o que ela estava fazendo com o capão [como um tipo de galo é chamado no interior], se era dela. Descobri que ela estava vendendo para, depois, poder fazer sua feira”.
Itawi continua contando uma história que representa bem as pessoas do interior. “Com uma outra, a senhora Joaquina, a história foi ainda mais curiosa. No começo, ela estava bem ranzinza. Cheguei com calma, fui conversar com ela, dedicar um tempo que nem sempre é possível quando a gente trabalha em redação, por exemplo, e disponibilizar todo um tempo até que ela começasse a se abrir e me contar sua história. Me marcou muito. Tirei uma foto dela sorrindo; não como uma forma de menosprezar, mas de mostrar aquela realidade, a poesia por trás do sorriso sem dentes. As fotografias que selecionei para a mostra trazem um pouquinho do que vi no Sertão”, conta.
Quem também está com seus registros expostos é a repórter fotográfica Pei Fon. Em 2019, ela teve um de seus cliques muito compartilhados nas redes sociais e gerou uma forte discussão entre as mulheres. “Quando tirei a foto, imaginei que podia gerar um debate, mas não com a intensidade que aconteceu. Demorou pra ficha cair. Acho que só me dei conta realmente quando a irmã da assistente de arbitragem republicou a minha foto”, relata.
O Caderno B quis saber a opinião da fotojornalista sobre o assunto e ela prefere não taxar o que houve. “Eu acredito que tem que haver respeito. O episódio trouxe uma coisa que é muito da definição do fotojornalismo que é captar o que as pessoas não veem”, defende.
De uma família que carrega em seus genes a fotografia há muito tempo, desde meados de 1938, e tendo entre parentes as primeiras mulheres fotógrafas do Estado, Pei explica que prefere mostrar um lado mais pessoal quando expõe suas fotos na mostra anual. “Comecei a me envolver com fotografia registrando eventos de heavy metal com a ajuda de um primo. Então, levei também essas fotos que, na minha opinião, exemplificam algo que historicamente é tido como marginal, no sentido de estar à margem mesmo. Nas mostras, eu gosto de mostrar o meu mundo, mostrar que existem profissões, expressões, um recorte para fazer as pessoas lembrarem da existência delas”.
APOIO
A edição deste ano está sendo realizada no Complexo Cultural do Teatro Deodoro, mas o evento não faz parte da agenda da Diteal. “A gente tem tentado, junto à direção do teatro, fazer com que o evento seja parte da agenda anual, por fomentar a nossa cultura, a nossa realidade. Acreditamos na força e representatividade da mostra para a cena e seria de muito bom grado contar com um apoio fixo”, aponta o presidente da Arfoc-AL.
*Sob supervisão da editoria de Cultura.