Caderno B
MOSTRA SURURU 2019 FORTALECE MOMENTO DO CINEMA ALAGOANO
Com vários filmes de direção coletiva e presença do interior, 10ª edição termina com saldo positivo
No meio artístico, resistência provavelmente foi a palavra do ano. Até agora andando na contramão da tendência nacional, Alagoas teve um forte apoio público nos últimos anos e resistiu com a garra já conhecida do nosso povo. Aliás, o apoio parece ter culminado com a riqueza e maturidade dos trabalhos que competiram na Mostra Sururu de Cinema Alagoano 2019, finalizada no último domingo (15), no palco do Cine Arte Pajuçara.
A noite foi tomada pela emoção e por homenagens. A apresentação que abriu o encerramento da décima edição foi dos membros da Associação Brasileira de Documentaristas e Curtametragistas (ABD&C/AL), que subiram ao palco para relembrar os encontros e articulações que possibilitaram a criação do evento, em 2009.
Antes das homenagens que deram o tom da noite, a cerimônia reservou também espaço para uma apresentação dos representantes do Fórum Setorial do Audiovisual Alagoano (FSAL), que lotaram o palco evidenciando a atual força da entidade.
Entre os homenageados, foram lembrados o coordenador do Centro Cultural Arte Pajuçara Marcos Sampaio e o crítico de cinema Elinaldo Barros, esse compartilhando suas memórias e contribuindo para a compreensão do momento que o cinema vive hoje.
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VENCEDORES
Analisados por um júri oficial composto por Luciana Oliveira, mestre em cinema e narrativas sociais pela Universidade de Sergipe, cineasta e co-idealizadora do Egba - Mostra de Cinema Negro de Sergipe; por Daniela Fernandes, produtora executiva e co-fundadora do NordesteLab, plataforma de articulação audiovisual que acontece anualmente em Salvador/BA; e por Letícia Santinon, que atua na área de curadoria e programação de cinema, com passagem pela distribuidora Vitrine Filmes, a premiação trouxe fortalecimento para o momento artístico de transformação pelo qual a arte e a sociedade do País passam.
Um exemplo disso foi o prêmio de melhor filme. O grande vencedor foi ‘Ilhas de Calor’, dirigido pelo cineasta Ulisses Arthur. “As premiações, com certeza, são um reconhecimento. É um filme colaborativo, independente, feito sem financiamento público, com elenco de atores não profissionais que são alunos e professores da escola pública, então, pra gente é importantíssimo ganhar um prêmio que é para todo o movimento cultural que a gente tem desenvolvido em Viçosa, para todo o nosso processo que a gente veio desenvolvendo buscando uma construção coletiva, um protagonismo coletivo. Pra gente, é incrível”, destaca o cineasta.
Curiosamente, na mesma noite em que a atriz trans Glamour Garcia era premiada no Troféu Melhores do Ano, da TV Globo, a protagonista de Ilhas de Calor, Vyctoria Tenóryo, também trans, venceu o prêmio de melhor atuação. O diretor Arthur comenta o talento da jovem. “É um prêmio que carrega vários simbolismos, além, de fato, da presença dela em cena ser muito forte, muito pulsante, muito viva. É uma atriz trans num contexto muito patriarcal, que é uma cidade do interior, num estado como Alagoas que tem índices de homofobia altos. Ela é muito criadora do seu próprio personagem, e ela mostrou muita maturidade. A gente filmou em seis dias e, ao longo dos dias, ela ia trazendo mais intensidade, mais consciência de cena, de espaço, da câmera e isso é muito forte, porque isso é o ofício do ator e acho que ela foi muito sensível a conduzir o personagem, a dar o seu próprio tom”, conclui.