Caderno B
DO LAMENTO AOS APLAUSOS
Artistas relatam ano de resistência, desmonte de políticas públicas e destacam cooperação como marca de 2019
No começo da década, o documentalista Patricio Guzmán repetiu em entrevistas que a memória é o maior patrimônio de um povo. Entre os argumentos do chileno, a história recente de um Chile sob o jugo de um ditador, dedicado especialmente a apagar a história do próprio país. Para Guzmán, o que Augusto Pinochet tentou fazer ao desmontar a cultura do Chile foi roubar-lhe a alma para tornar o país permanentemente cativo, submisso, conformado. “Acredito que a memória não é um conceito intelectual, não é um conceito universitário, não é um conceito acadêmico. A memória é completamente dinâmica, digamos, está dentro do nosso corpo. Os países que praticam a memória são mais vívidos, mais criativos, fazem melhores negócios, melhor turismo, são mais distintos, são melhores. Os países sem memória são anêmicos, não se movem, são conformistas, e caem numa espécie de cultura de sofá, gente que está sentada no sofá assistindo a televisão… E não se movem. Acredito que a memória é um conceito tão importante quanto a circulação do sangue”, declarou o documentarista, lá em 2012. Para Laís Lira, atriz, cantora e produtora cultural de Alagoas, não é possível relembrar 2019, pelo viés da Cultura, sem considerar os desafios que a classe artística e o setor enfrentaram. Para ela, da extinção do ministério da Cultura a episódios de censura, o ano foi um desafio e um chamado à união e à defesa da memória pelos artistas brasileiros. “Me chamou a atenção o fortalecimento das articulações independentes em Alagoas, o que eu acredito ser consequência do momento político que a gente tá vivendo. Estamos, cada vez mais, nos articulando de forma independente, valorizando projetos que envolvem processos coletivos e colaborativos, como uma forma de se autogerir, com uma autonomia maior. Em tempos como estes, é mais coerente não estar sozinho”, pondera a atriz. Apesar de destacar o Festival de Artes Cênicas de Alagoas (Festal) como exemplo que dessa tentativa de formar uma rede independente de cultura, Laís Lira diz que o mesmo “clima” de cooperação contagiou outras linguagens, como o cinema e a música. Ela considera que essa é a “conquista do ano” para os artistas de Alagoas. “Isso é motivado pelo momento político atual, que nos deixa tensos. Tudo isso está muito instável, são mil e um casos de censura, espetáculos fechados, editais que eram tradicionais cancelando espetáculos que já estavam contratados. Nunca vimos isso antes. Mas reagimos. Observei que, por exemplo, na Mostra Sururu, os premiados tinham um ponto em comum: processos colaborativos por trás das obras. O filme que ganhou como melhor direção, a direção era coletiva”, conta. “Foi um ano muito produtivo, com freios, receios, muita incerteza. Mas a gente não parou de produzir. E para continuar produzindo tivemos que dar as mãos, tivemos que nos unir. A perspectiva é que esse movimento colaborativo continue”, finaliza Laís.
DIVISOR DE ÁGUAS
2019 foi um ano decisivo para o cinema nacional e um divisor de águas para a história do audiovisual alagoano. Além dos prêmios, mostras, festivais, circulação recorde de filmes alagoanos pelo Brasil, seleções internacionais. O cinema de Alagoas viu um edital de cerca de 6 milhões de reais, executado pela Prefeitura de Maceió, ser concretizado. Para a antropóloga e realizadora audiovisual Beatriz Vilela, os frutos do investimento serão colhidos em 2020. “Estamos vivendo um momento muito delicado para a cultura, especialmente para o cinema. Em meio ao cenário em que dois grandes filmes brasileiros são sucesso de bilheteria e nos festivais por onde passam - e me refiro a Bacurau e A Vida Invisível - nesse mesmo cenário estamos recebendo um ataque muito grande do atual governo federal e dos setores ultraconservadores. A gente pode sentir isso a partir das inúmeras tentativas de acabar com a Ancine e o fim que levou o ministério da Cultura”, denuncia a realizadora.
Beatriz Vilela analisa que o ano começou com uma espécie de “sentimento de luto” e que, mesmo num contexto descrito como conturbado o “audiovisual alagoano parece caminhar na contramão do retrocesso”. “Sim, 2019 marca o início de uma nova fase para o cinema alagoano. O ano começou com a viabilização de um edital de 6 milhões, que abriu a possibilidade de investimento em curtas, longas, cineclubes, projetos de capacitação, festivais de cinema. Todos esses projetos aprovados começarão a ser executados a partir de 2020. Tudo isso é fruto do trabalho de Vinícius Palmeira e Felipe Guimarães”, pontua. “Outro importante edital foi publicado pela prefeitura de Arapiraca, que viabiliza produções audiovisuais no interior. Juntos, esses dois editais resultam em um investimento de cerca de 7 milhões, o que vai mobilizar toda uma cadeia de trabalhadores da cultura”, diz. A pesquisadora também ressaltou a importância das mostras e festivais que ocorreram no Estado em 2019, para além da Mostra Sururu de Cinema Alagoano e do Circuito Penedo de Cinema. “O Mirante Cineclube realizou a 1ª Mostra de Cinema Negro. Pela primeira vez se levantou um debate sobre as narrativas feitas por cineastas negros, voltados para essa população que normalmente é sub-representada. Também quero destacar a Mostra Sururu de Cinema Alagoano, porque esse ano ela completou uma década de existência, resistindo. Nessa edição comemorativa, foram homenageados o crítico Elinaldo Barros e o Marcos Sampaio, dois nomes importantes na história do cinema alagoano e para nossa cultura”, avalia. A realizadora enfatiza que a mobilização do audiovisual foi decisiva para que o setor tivesse o que comemorar em 2019. Ela diz que houve um comprometimento dos cineastas, produtores e artistas em resistir ao tempo. A promessa é de que as mãos continuaram unidas em 2020. Entre as demandas ela aponta que durante a última Mostra Sururu, o Fórum Setorial de Cinema alagoano informou que tem questionado ao governo Renan Filho sobre o edital voltado para o audiovisual, previsto para 2019, mas que não saiu do papel. Não houve resposta. “É um edital de 8 milhões de reais e, segundo a classe, até então, não houve resposta da Secult. Eles aguardam que em 2020 a Secult publique este edital”, diz.
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ANO DO AUDIOVISUAL
O reconhecimento que filmes alagoanos tiveram pelo Brasil e pelo mundo formam mais um aspecto de 2019 para lembrar com afeto. “Merecem destaque dois grandes cineastas: o cineasta viçosense Ulisses Arthur, com ‘Ilhas de Calor’. E Wagno Godez, arapiraquense, com o filme Besta-fera. Ilhas de Calor surpreendeu todo mundo porque foi lançado agora em setembro e, desde então, tem circulado pelos principais festivais nacionais, como o Cine Ceará e a Janela Internacional de Cinema (PE). Nesses festivais, o filme de Ulisses tem recebido muitas premiações e vem sendo muito bem avaliado pela crítica. Besta-fera circulou bastante também. Foi para dois festivais em Minas Gerais, o Cine Jabó e a Mostra de Cinema Fama. E representou Alagoas no 9º Festival de Cinema Político da Argentina”, lembra Beatriz Vilela. Segundo a antropóloga e realizadora audiovisual, a potência do cinema alagoano será ainda mais exposta em 2020. “Fechamos esse ano muito felizes, porque além de tudo isso, acabamos de saber que alguns filmes alagoanos foram selecionados para um grande evento do cinema brasileiro, que é a Mostra Tiradentes. Foram selecionados Paulo Silver, com Trincheira; Nilton Resende, com A Barca; e novamente Ulisses Arthur, com Ilhas de Calor. É importante ressaltar que Ulisses acabou de ganhar nesse edital da prefeitura e deve rodar seu primeiro longa em 2020”, diz.
HOMERINHO
Outro destaque de 2019 também se relaciona com a construção coletiva de um sonho e com a necessidade de preservar memórias e ressignificar lugares. A atriz Ivana Iza e o marido, Tainan Costa Canário, anunciaram que estão construindo um teatro no Jaraguá, em Maceió. Apesar de encabeçar uma campanha coletiva e diversas iniciativas durante todo o ano, o casal explicou que se trata de uma iniciativa privada, de interesse coletivo, construída por várias mãos, já que diversos artistas e profissionais se uniram para formar o Instituto de Vivências Artísticas (IVA), que em breve irá gerir o Theatro Homerinho. “Gosto de dizer que o Homerinho será como aquele momento em que você tá correndo da chuva e tem um toldo. Você para e diz - Meu Deus, obrigada! [...] Meu desejo é que os alagoanos busquem a memória e, principalmente, respeitem o que é feito aqui. Que consigam entender que um aparelho cultural não é um bem apenas para o artista. A gente não tá abrindo uma rinha de galo, uma arena, a gente não tá ferindo ninguém. Muito pelo contrário, queremos alimentar a alma das pessoas com cultura. Porque só a cultura há de salvar o mundo. Queremos criar memória. Eu não gosto da palavra resgate, detesto. Ninguém tá morrendo aqui, ninguém é refugiado - coitados, implorando para atracar num porto. Nós já temos um porto, só precisamos alimentar essa cadeia produtiva cultural. Eu convido as pessoas a acreditarem nisso porque nós acreditamos piamente. E nós vamos realizar, faça chuva ou faça sol”, disse a celebrada atriz alagoana, ressaltando que o sonho do Homerinho ainda está em construção e aberto para receber apoios, tanto de pessoas físicas como jurídicas.
MÚSICA
2019 também foi “tempo de ser feliz” na música alagoana. Para além de Hermeto Pascoal arrematando o Grammy Latino com o álbum “Hermeto Pascoal E Sua Visão Original Do Forró”, lançamentos de trabalhos autorais de alagoanos e a ocupação definitiva do segmento nas plataformas de streaming merecem destaque. Rodrigo Avelino, com o seu “Tempo de Ser Feliz”, foi evidenciado pela ousadia de evocar a alegria, mesmo em tempos conturbados. O processo até o lançamento do CD também foi colaborativo e contou, inclusive, com uma campanha de financiamento. O Caderno B convidou o cantor para indicar outros álbuns alagoanos que se destacaram em 2019. Segue as escolhas: LoreB - Etéreo; Mari da Costa - Caminhos; Rodrigo San - Sutil; e Robson Cavalcante - Restinga. Avelino também destacou o single “À Deriva”, lançado recentemente por Luiz de Assis (Vibrações), numa parceria com a banda Unidade Nova Praia. E evidenciou um projeto que incentiva a valorização das composições musicais alagoanas. “Destaco também o projeto “3,4”, do Kemesson Lemos. Ele faz um trabalho muito interessante, levando ao teatro estudantes interpretando músicas de compositores alagoanos. É o momento em que esses jovens têm essa experiência com o teatro e com a música de maneira real”, comemorou.
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