Caderno B
Livro esmiúça como Hollywood colaborou com o regime nazista
Pesquisador reúne dados que apontam para colaboração de Hollywood com o governo de Hitler
A colaboração entre os manda-chuvas de Hollywood e o governo nazista entre 1933 e a entrada dos EUA na Segunda Guerra não é tão mais coberta de honra que a de Vichy. Pelo contrário, a julgar pela documentação que o pesquisador Ben Urwand reuniu e interpretou em “O Pacto entre Hollywood e o Nazismo”, publicado aqui pela editora Leya.
A palavra “colaboração”, inscrita no título original, desapareceu na edição brasileira e deu lugar ao eloquente subtítulo “como o cinema americano colaborou com a Alemanha de Hitler”.
O que vem no miolo não contradiz a afirmação. Apenas esclarece que a censura alemã aos filmes americanos começa alguns anos antes, mais precisamente em 1930, com a reação ao que os alemães viam como antigermanismo de certas produções, como “Nada de Novo no Front” e “Anjos do Inferno”. Se até ali o sentimento nacional prevalecia, as milícias nazistas já agiam de forma tradicional e ainda atual, promovendo tumultos nos cinemas que exibiam esses filmes.
Com a ascensão do nazismo ao poder, os métodos mudam, mas Hollywood, não. A Alemanha é o país de onde vêm as melhores receitas para seus filmes, tirando os EUA. E, com a notável exceção de Carl Laemmle, dono da Universal, e em parte da Warner, Hollywood inicia um período de estreita colaboração com o novo regime.
Ressalte-se: com raras exceções, os magnatas de Hollywood eram judeus e sabiam perfeitamente que o nazismo tinha os judeus na conta de inimigos do regime (junto com ciganos e, claro, comunistas).
Fred Zinnemann, para não ir longe, deixou a Alemanha assim que os nazistas se instalaram no poder. Laemmle não só tirou seus familiares do país de imediato como financiou a fuga de centenas de judeus para os EUA. É o único gesto de altivez hollywoodiano em meio a um quadro deplorável.
Os nazistas, a começar por Hitler, gostavam do cinema americano. Queriam mesmo imitá-los.
Necessitavam desses filmes para entreter suas plateias. No entanto, é nesse momento que ganha relevo a figura de Georg Gysling, cônsul alemão em Los Angeles e encarregado de vetar roteiros, atores, personagens e diretores judeus, além de negociar cortes com os produtores e com a própria censura americana.
As tentativas de fazer filmes antinazistas foram abortadas, todas, até o início da guerra. E Urwand nota que, durante esse período, não existe sombra de personagem judeu no cinema americano. Quando Chaplin se dispôs a fazer “O Grande Ditador”, relatórios constantes eram enviados ao governo alemão pelo seu cônsul. E mesmo ele pensou em engavetar sua demolidora sátira do hitlerismo.
Em 1939, apenas a Warner lançou seu “Confissões de um Espião Nazista”, apesar da oposição de outros estúdios (mas com a aprovação pessoal do presidente Roosevelt -ah, a velha ladainha de que o cinema americano independe de ação estatal...). Nesse meio tempo, Fox, Metro, Paramount continuavam a colaborar com a Alemanha nazista, de onde United, Warner e Universal estavam banidas.
Para não ir longe, quando Lubitsch lançou “Ser ou Não Ser”, comédia vigorosamente antinazista, com distribuição da United Artists, enfrentou críticas ferozes nos próprios EUA (outra lenda: a de que estúdios não influenciam a crítica nos EUA). Foi com o tempo que o filme se tornou um clássico.