loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
domingo, 26/07/2026 | Ano | Nº 6275
Maceió, AL
25° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Caderno B

Caderno B

HQ SOBRE CAMPO DE CONCENTRAÇÃO PECA POR FORMALISMO

Do ator George Takei, história em quadrinho é ambientada nos Estados Unidos

Ouvir
Compartilhar
”Eles nos chamavam de inimigo” poderia ser uma obra de impacto, de acordo com crítica
”Eles nos chamavam de inimigo” poderia ser uma obra de impacto, de acordo com crítica | Foto: Reprodução/HQ

O ator George Takei consta na história da TV e do cinema por seus mais de 30 anos como intérprete de Hikaru Sulu, membro da tripulação da USS Enterprise na série “Star Trek” e em seis filmes da mesma franquia. Hoje com 82 anos, Takei é uma das vozes mais ativas do movimento LGBT nos Estados Unidos e da oposição popular ao governo de Donald Trump. Filho de um imigrante japonês e de uma filha de imigrantes do mesmo país, ele viveu parte de sua infância em campos de concentração americanos que abrigaram mais de 120 mil pessoas japonesas durante a Segunda Guerra Mundial. A HQ “Eles Nos Chamavam de Inimigo”, lançada no Brasil pela editora Devir, é centrada no período que Takei e sua família passaram em três desses campos. Em 1942, eles foram forçados a abandonar tudo em Los Angeles e levados para um hipódromo na cidade de Arcadia, na Califórnia. Depois, foram transportados para o Centro de Alocação de Rower, no Arkansas, e terminaram no Campo do Lago Tule, no norte da Califórnia. A obra tem roteiro de Takei e dos escritores Justin Eisinger e Steven Scott e arte em preto e branco da quadrinista Harmony Becker. O livro enfatiza as lembranças do ator no período nos campos. Takei chama atenção para o anglofilismo de seu pai, motivo de seu batismo em homenagem ao Rei George 6º, e lembra da vida tranquila com os pais e os dois irmãos mais novos até o ataque japonês à base de Pearl Harbour, que resultou em quase 2.500 mortos e impulsionou o engajamento dos EUA na Segunda Guerra.

O quadrinho conta como, 74 dias após ao ataque, o então presidente Franklin D. Roosevelt promulga o Decreto Executivo 9.066, autorizando as Forças Armadas a declarar regiões “das quais quaisquer indivíduos podem ser excluídos” e depois fornecer “transporte, alimentação, abrigo e demais instalações”. Os “indivíduos” eram os nipo-americanos e as “instalações” os campos. As memórias de Takei nos campos giram em torno do empenho de seus ocupantes em torná-los minimamente habitáveis. Ele também enfatiza os paralelos entre as posturas xenófobas pós-Pearl Harbour e as atuais políticas anti-imigração do governo Trump. O que falta a “Eles Nos Chamavam de Inimigo” é se justificar como história em quadrinhos. Relatos biográficos já resultaram no cânone “Maus”, sobre a experiência do pai do autor Art Spiegelman como sobrevivente de Auschwitz. Já a trilogia “A Marcha” narra a vida do congressista John Lewis como liderança do Movimento dos Direitos Civis nos EUA e figura-chave no combate à segregação racial. As duas obras vão além de suas tramas espetaculares, são memoráveis pelo uso da narrativa sequencial, em seus designs de páginas e na eficácia do combo imagens mais palavras. “Eles Nos Chamavam de Inimigo” peca por seu formalismo, se sustenta apenas na força da história de vida de Takei, tem um roteiro rígido e pouco inspirado que não exige da arte infantilizada de Becker. Takei é um ícone da cultura pop. Sua vida e seu ativismo fizeram dele uma das figuras mais admiradas de Hollywood. Os campos de concentração para nipo-americanos são um dos pontos mais baixos da história americana e foram pouco explorados pela indústria do entretenimento. “Eles Nos Chamavam de Inimigo” tinha tudo à disposição para ser uma obra de impacto, mas não concilia o peso de seu enredo com o uso burocrático da linguagem das histórias em quadrinhos.

Relacionadas