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Caderno B

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APESAR DE ESFORÇO, ‘AVES DE RAPINA’ É PREVISÍVEL

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Não basta um filme ter direção de uma mulher e protagonista feminina para ser feminista. Não basta formar um elenco culturalmente diverso para ser expressão das minorias. Inspirado no universo dos quadrinhos da DC, “Aves de Rapina” é um filme de sedutoras e cativantes super-heroínas. Arlequina (Margot Robbie) é uma psiquiatra que caiu no mundo do crime pelas mãos do companheiro, o Coringa. Agora que os dois terminaram, todos os seus desafetos a ameaçam. No longa, as mulheres ficam com os personagens mais fortes: são mais inteligentes que os homens. No enredo, os pontos altos são situações resolvidas na chave da sororidade. Ainda assim, seria possível dizer que o filme desprende-se de uma lógica masculina e branca? “É um mundo de homens, mas ele não seria nada sem uma mulher ou uma garota.” Esses versos de James Brown, lindamente cantados por Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell), são repetidos três vezes numa cena emblemática de “Aves de Rapina”. Eles sintetizam alguns dos mais importantes –e contraditórios– elementos do filme. Uma lógica musical guia a montagem, ritmando desde sequências de luta até apresentações de personagens. Ainda, a música: não há nada de fortuito na escolha dessa canção ou de sua intérprete. Se a personagem-título tem a pele cor de pó de arroz, como o rosto dos palhaços, há entre suas parceiras uma mulher negra (Canário Negro), uma latina (a detetive Montoya) e uma asiática (Cassandra Cain). O elenco e a escolha musical fazem parte dos esforços do filme para sintonizar-se com a diversidade do mundo contemporâneo, sob o prisma das minorias. Infelizmente, parece muito mais um esforço cosmético do que algo orgânico. Ainda assim, cabe a pergunta: devem os critérios políticos e culturais prevalecerem na avaliação de um filme? Se elegermos parâmetros mais propriamente cinematográficos, “Aves de Rapina” não se sai muito melhor. É um filme muito bem feito, com ritmo eletrizante e enorme sintonia com seu tempo, sobretudo no humor. Apesar disso, é previsível, com personagens caricatos e uma estrutura muito pouco original. Não faltam cenas de perseguição, piadas prontas, exposição do corpo feminino, lutas intermináveis. A ausência, sim, é de uma lógica mais genuinamente feminina e de fato diversa.

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