Caderno B
RUINDO EM SILÊNCIO
Após parte do telhado do Museu Pierre Chalita desabar, personalidades discutem falta de apoio
Sob o olhar do Palácio do Governo de Alagoas, parte do telhado do Museu de Arte Sacra Pierre Chalita desabou na semana passada, no último dia de fevereiro. O estrondo que assustou transeuntes se dissipou, mas, depois da derrocada, foi o silêncio que reinou absoluto, expondo um cenário de abandono - não somente à Fundação Pierre Chalita, mas à memória alagoana e às instituições que se dedicam a salvaguardar o maior patrimônio de uma sociedade: sua história. Nenhuma hashtag, nenhum lamento das principais autoridades, nenhuma mobilização - nem mesmo da classe artística ou dos intelectuais. “Não podia ser diferente. Surpreendente seria se alguém se importasse. Você ainda se espanta?”, provoca o sociólogo e artista Edson Bezerra. Ele chamou o desabamento de tragédia e atribuiu o “silêncio absurdo” a uma não compreensão da população acerca da importância do acervo do Museu Pierre Chalita. “A elite alagoana é de baixo nível cultural. Existe parte dela que até possui um nível cultural, mas só consome o que vem de fora de Alagoas. E a pequena parte que é voltada para as coisas de Alagoas não tem força para mudar o quadro.” O Museu Pierre Chalita está localizado no Centro de Maceió, ao lado da Secretaria de Estado da Fazenda de Alagoas e quase defronte à Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas, à margem da Praça dos Martírios. Trata-se de uma instituição privada, mantida pela Fundação Pierre Chalita. O acervo do museu, fundado em 1980, conta com quase 2.300 peças, entre pinturas, esculturas, desenhos, gravuras, objetos decorativos, além de um substancial núcleo de arte sacra, com obras dos séculos XVII e XX, originárias do Brasil e de outros países. A coleção é uma das mais importantes do Brasil. Após o desabamento, a Fundação Pierre Chalita informou que as obras danificadas serão restauradas e que em 20 dias devem reerguer o telhado do palacete, que faz parte do conjunto arquitetônico dos Martírios, tombado como patrimônio estadual de Alagoas em 2000. “Depois dessa lamentável ocorrência, a Fundação Pierre Chalita está decidida a concentrar seu acervo museológico no Armazém Pierre Chalita, em Jaraguá, e solicita desde já parcerias e apoios à União, ao Governo do Estado de Alagoas e à Prefeitura de Maceió, assim como à iniciativa privada, para que esse projeto tenha sucesso”, diz trecho da nota. Para o professor Edson Bezerra, o silêncio acerca do desabamento têm significados profundos e doloridos. Ele alega, inclusive, que não existem espaços de discussão democráticos na mídia. “O Xangô Rezado Alto foi tirado à força do Centro este ano, alguém falou alguma coisa? Você viu alguém se mobilizar pela fonte da Praça dos Martírios, que está lá abandonada? E a mídia? Disse alguma coisa? A queda do telhado ocorre como um alerta, o nosso patrimônio está ruindo”, diz o sociólogo. “A questão é que Maceió não consome cultura, consome praia. Temos uma cultura riquíssima, muito forte, mas sem consumo”, completa. Para o jovem curador e designer Rafael Almeida, o cenário de abandono às artes é nacional e está sendo incorporado aos governos, patrocinado pelo governo federal. Ele também pontua que o museu possui uma importância ímpar para a cultura alagoana, com obras importantes, como cópias de Rafael e até mesmo uma atribuída ao ateliê de Leonardo Da Vinci.
“A Solange [Chalita] cuida de tudo sozinha. Mas, esses equipamentos culturais precisam de uma manutenção, das obras e da estrutura, que tem custos muito altos. A Fundação precisa de melhor estrutura, melhor divulgação, precisa de uma equipe para cuidar das questões burocráticas, do museu em si. E, repito, a Solange cuida de tudo sozinha, não dá”, afirma. Almeida defende uma mobilização da sociedade em torno da recuperação do museu, mas também em torno da estruturação dos demais equipamentos culturais de Alagoas. “A conjuntura dos nossos governos não contempla a cultura. As coisas estão começando a ruir por conta desse desprezo. Precisa acontecer uma tragédia para acordar as pessoas? Acredito que as pessoas deveriam ter um olhar mais aprofundado para as nossas raízes, para a nossa cultura, para os nossos equipamentos culturais, porque são eles que guardam nossa história. Infelizmente, nem todas as pessoas têm essa sensibilidade”, lamenta. “Nossos equipamentos culturais pedem socorro e isso é geral. Como eu já trabalhei em outras instituições e galerias, posso afirmar que essa escassez e falta de infraestrutura é comum. As pessoas que trabalham gerindo esses equipamentos estão lutando para fazer acontecer, muitas vezes sem nenhum tipo de recurso. A gente que trabalha nesse contexto das artes, museus e galerias, muitas vezes a gente tira do próprio bolso para fazer acontecer. Eu acredito que nada é por acaso e, se essa situação aconteceu, que sirva de alerta para que a gente cuide mais da nossa cultura, da nossa arte”, finaliza o curador.