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Caderno B

MULHERES DA ARTE

Artistas alagoanas falam sobre o feminino nas artes e discutem o lugar das artistas na contemporaneidade

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Imagem ilustrativa da imagem MULHERES DA ARTE
| Foto: Divulgação

Com um protagonismo crescente no campo das artes, o “segundo sexo”, como foi nomeado por Simone de Beauvoir, ainda enfrenta grandes dificuldades para se afirmar e defender seu trabalho no meio criativo. Em Alagoas, esse desafio não é diferente, podendo ser até maior, no estado dos abismos sociais. Bastião da arte no estado, a Academia Alagoana de Letras (AAL) teve em sua história centenária 169 imortais, desses, somente 19 eram mulheres. Número assombroso, ele pode ser interpretado como melhora: desse montante, 14 ocupam seus assentos atualmente. A história da Academia também possui pioneirismos: em 1945 foi imortalizada sua primeira mulher, Eunice Lavenère Reis. Nascida na Bahia em 1917, a escritora foi agraciada com seu assento 32 anos antes de Rachel de Queiroz se tornar a primeira mulher a ser eleita para uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, em 1977. O livro de poemas que a fez ser aceita na Academia jamais foi publicado: tinha sido datilografado. Em sua ficha acadêmica, em diversas vezes foi citada no masculino. Foi jornalista colaborador, sócio de renomadas instituições e poeta. “As mulheres ocupam hoje um espaço que elas sempre fizeram por merecer”, diz Alberto Rostand Lanverly, atual presidente da AAL. Para ele, a Academia vem abrindo espaço para as mulheres nas artes alagoanas. “Temos atualmente 14 mulheres ocupando cadeiras na academia, isso é quase um terço”. A Academia Alagoana tem, ao todo, 40 assentos. Das últimas 6 cadeiras que foram abertas para votação, 4 foram ocupadas por mulheres. Este mês, haverá uma nova votação para a imortalização e a professora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Heloísa Melo pode ser agraciada. Seriam 5 mulheres em 7 nomeações na história recente.,

IMORTALIDADE FEMININA

Vera Romariz entrou na Academia Alagoana de Letras em 2004, parte de uma leva de nomes femininos que passaram a ocupar os assentos no início do século. “Ser artista é algo inerente ao ser humano, independente de gênero”, diz a escritora. Seu tema favorito nos escritos é o tempo e seu efeito no homem e no mundo. “Tenho 69 anos, você pode imaginar daí o como o tempo tem um efeito sobre meu pensamento”, conta. Para ela, existe uma forma de produção artística que é inerente ao feminino, e ela não considera isso algo negativo. “A mulher vivia em casa, e ali no ambiente doméstico se dava sua escrita. No subjetivo, no individual, na emoção e no pensamento”, explica. Com o surgimento da psicanálise, ela relembra, houve uma revolução na percepção tida do subconsciente, que saiu das paredes da mente e do lar e invadiu o social. Autoras como Clarice Lispector tomaram mão dos escritos freudianos para criar personagens femininos complexos, que refletiam, por meio de suas emoções e pensamentos, por vezes provincianos, problemáticas sociais complexos. A alagoana Macabéa é um grande exemplo disso, no livro “A Hora da Estrela”. Hilda Hilst, com um fluxo de consciência de estética incomparável, costurou o feminismo de “A Obscena Senhora D” por meio do emocional e dos pensamentos de sua protagonista, que era vista com o estereótipo da mulher histérica por seus vizinhos. Vera conta que lhe foi oferecida uma coluna feminina aos 12 anos, no Jornal das Alagoas. “Pensavam que eu queria falar de maquiagem”. Dispensou, optou por escrever crônicas, achou mais apropriado. “Conheci algumas excelentes autoras na minha trajetória, mais velhas do que eu, de uma geração anterior”, narra a imortal. “Todas usavam pseudônimos para escrever, nomes masculinos, para serem levadas a sério”. A prática não era tão surpreendente até pouco tempo. A autora que conhecemos como J. K. Rowling, de “Harry Potter”, optou pelas abreviações de suas iniciais por recomendação do editor. Um nome feminino atrapalharia as vendas.

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“Ser uma mulher na arte é tão difícil como é ser mulher em qualquer outro lugar”, diz a produtora cultural, atriz, roteirista, e muito mais, Ivana Iza. Com 25 anos de carreira, ela começou a se aventurar logo cedo em outras zonas da produção das peças que encenava. No seu trabalho mais recente, a peça teatral A Velha (foto), Ivana colocou as mãos em todas as etapas. Escreveu roteiro, cuidou da produção, escolheu o figurino. Quando questionada sobre a ideia de uma feminilidade artística, ela rechaçou. “Tem que parar de colocar a gente nesse lugar”, contesta. Sua visão sobre a ideia é antagônica à da imortal Vera Romariz. “É uma concepção muito machista, essa de que a mulher faz uma arte boazinha, sensível e delicada”, detalha. Para ela, as mulheres têm uma força subestimada em sua arte. Prova da fibra das mulheres no meio artístico, diz, é ela própria. “Enquanto se fecham teatros Brasil afora, eu abro um, aqui em Maceió”. O Teatro Homerinho, projeto que ela toca com outros nomes do teatro alagoano, deve inaugurar ainda este ano. A produção teatral alagoana foi muito afetada com a redução drástica que houve nos últimos anos no número de editais disponibilizados para os artistas. Cortes na destinação cultural de recursos públicos e privados são o principal motivo. “A gente busca dar esse incentivo também [com o Homerinho]”, diz a produtora. Para além: a atriz planeja ofertar no espaço a qualificação e incentivo, para atores e atrizes, que tanto está em falta na cena cultural alagoana. “Mulher não tem só que estar na plateia, assistindo a peça produzida por eles [homens]. Também queremos que as mulheres estejam no Homerinho para produzir e encenar seus trabalhos”, explica. Ela não encerra suas declarações sem antes citar algumas das mulheres que fazem arte em Alagoas, companheiras que ela diz que lhe dão força para continuar: “Waneska Pimentel [Associação Cultural Joana Gajuru]; Laís Lira [Cia do Chapéu]; Sue Chamusca e Silvana Valença; Irina Costa [Filarmônica de Alagoas]; Sophia Molive [produtora independente]; Diva Gonçalves [Cia Nêga Fuló]; Elaine Lima [Clowns de Quinta]; Kel Monalisa [cantora]; Wilma Araújo [cantora]; Fernanda Guimarães [cantora]; Adriana Manolio [produtora autônoma]; Patrícia Mess [produtora autônoma]; Alexya Vieira [produtora autônoma] e Whytna Cavalcante”, nomeia Ivana. “E viva a mulher alagoana!”

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