LUTO NA ARTE
Entre lágrimas e reverências
Arte brasileira perde dois ícones em um só dia: Aldir Blanc morreu em decorrência do novo coronavírus; e o ator Flávio Migliaccio foi encontrado morto em seu sítio
A cultura brasileira soube ontem (4) que perdeu dois monumentais homens da arte: o compositor Aldir Blanc e o ator Flávio Migliaccio. Em tempos em que a arte se revela (mais uma vez) refúgio e lugar de fala para milhões de brasileiros isolados, as perdas que seriam trágicas em qualquer momento ganham dimensões ainda maiores.
Aldir Blanc é um dos mais importantes letristas da música popular brasileira, com canções que, além de se fazerem trilhas sonoras para momentos importantes da história do país, são de uma preciosismo e habilidade inquestionáveis. Migliaccio, embora o rosto fosse mais conhecido que o nome, construiu ao longo dos anos uma carreira brilhante nos palcos de teatro e nas telas. A entrega aos seus muitos personagens memoráveis pode ser comparada às de Grande Otelo e Amácio Mazzaropi.
ALDIR BLANC
Aldir Blanc já não saía de casa. Agora, que ninguém deve mesmo sair, por causa do novo coronavírus, ele foi obrigado a sair. Não voltou mais. A Covid-19 fez mais uma vítima fatal na madrugada dessa segunda-feira (4), no Rio de Janeiro.
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Blanc tinha 73 anos e estava internado desde 15 de abril na UTI do Hospital Universitário Pedro Ernesto, onde um exame confirmou a infecção pelo coronavírus. Foram 24 dias de luta. Sua resistência impressionou médicos. “Ele não quer ir embora”, foi uma das frases que disseram durante o tratamento.
Em mais de cinco décadas de atividade, Blanc construiu uma obra marcada pela capacidade de fundir os contrários -humor e fossa, devaneio e realidade, lirismo e grossura, a aldeia e o mundo. Para ele, a vida não comporta reciclagem de lixo. Tudo se mistura. Dava o mesmo valor à palavra mais bonita e ao palavrão mais chulo. Assim criou mais de 600 letras.
Dor e alegria já estavam embaralhadas na infância de Aldir Blanc Mendes. Ele nasceu em 2 de setembro de 1946, no bairro do Estácio, berço do samba urbano carioca. Sua mãe nunca se recuperou de uma depressão pós-parto, enhquanto seu pai era pouco afetuoso. O filho único foi ser feliz com os avós em Vila Isabel, bairro de um seus ídolos, Noel Rosa -e, triste coincidência, do hospital onde morreu. Ele recordou os tempos de criança no livro “Vila Isabel - Inventário da infância”, de 1996.
As primeiras letras a chamar a atenção apareceram em festivais, nos anos 1960. Enquanto o sucesso veio nos festivais universitários de 1970.
No ano seguinte, um rapaz chamado Pedro Lourenço se impressionou em Ouro Preto, em Minas Gerais, com um estudante de engenharia tocando violão. Ele disse ao rapaz, João Bosco, que tinha um amigo no Rio capaz de pôr palavras naquelas melodias. Nascia um dos encontros mais importantes da música brasileira.
ALDIR BLANC E JOÃO BOSCO
As primeiras parcerias ocorreram por meio de cartas e, em 1972, com Bosco de passagem pelo Rio, mostraram algumas músicas para Elis Regina. Ela escolheu “Bala com Bala” e reservou outras canções. Passou a receber em primeira mão as novidades da dupla. Gravou 20 delas.
A assinatura Bosco e Blanc consta em canções marcantes como “O Mestre-sala dos Mares”, “Dois pra Lá, Dois pra Cá”, “De Frente pro Crime”, “Kid Cavaquinho”, “Incompatibilidade de Gênios”, “O Ronco da Cuíca”, “Transversal do Tempo”, “Corsário”, “Bijuterias”, “Nação” (esta também com outro grande amigo, Paulo Emílio) e, é claro, “O Bêbado e a Equilibrista”.
No Natal de 1977, inspirado na morte de Charlie Chaplin naquele dia, Bosco fez uma melodia citando “Smile”, composição do cineasta. Blanc achou que valeria associar a figura de Carlitos a outros deslocados na história, como os exilados pela ditadura militar. O movimento pela anistia ganhou um hino, gravado por Elis em 1978. O verso inicial, “caía a tarde feito um viaduto”, evocava o desabamento do elevado Paulo de Frontin, no Rio, em 20 de novembro de 1971.
Os dois amigos inseparáveis começaram a se separar em 1982. Foi gradual e, de acordo com eles, sem brigas. As melodias de um e as letras do outro passaram a não se encaixar. O reencontro (imprevisto) aconteceu só em 2002, numa gravação de “O Bêbado e a Equilibrista”. Desde então voltaram a se falar por telefone diariamente, além de compor às vezes, sem a urgência dos anos de juventude. Embora tivesse boa voz, como provou no álbum “Vida Noturna”, de 2005, Blanc não fazia shows.
Desenvolveu uma fobia social que se converteu em reclusão quase permanente. Contribuiu para isso um grave acidente de carro, que lhe dificultou o movimento da perna esquerda. Havia mais de dez anos que, salvo dias de exceção, não fumava nem bebia. Passava a maior parte do tempo em seu escritório cultivando a obsessão por livros. Lia sem parar, de tudo -mitologia grega, Segunda Guerra Mundial, psicanálise, muitos romances policiais etc.
Adorava falar pelo telefone com os amigos. Comentava o noticiário -com humor e indignação- e compartilhava informações sobre a família. Nos dias anteriores à internação, falava sempre da Covid-19, com medo de que alguém amado fosse atingido. Tudo aconteceu muito rápido. Numa quinta-feira estava bem, na sexta foi levado de ambulância para o hospital.
FLÁVIO MIGLIACCIO
Já o ator Flávio Migliaccio foi encontrado morto em seu sítio em Rio Bonito, também no Rio de Janeiro, na manhã dessa lúgubre segunda (4). Ele tinha 85 anos. A morte foi confirmada pela assessoria da Globo, onde ele era contratado.
Migliaccio nasceu no bairro do Brás, em São Paulo, numa família de 17 irmãos -uma delas, Dirce Migliaccio, também atriz. Ele contava ter descoberto os palcos quando, aos 14 anos, foi expulso do colégio católico onde estudava depois de denunciar o assédio que sofria dos padres -a experiência foi descrita no espetáculo autobiográfico “Confissões de um Senhor de Idade”, de 2017. Então, caminhava perto da igreja do Tucuruvi, na região norte, quando ouviu um grupo se apresentando no local.
Entrou, sentou-se e começou a assistir à peça. Gostou tanto do que viu que foi falar com o ator principal, dizendo que era capaz de fazer aquilo. O ator cedeu seu lugar para ele, que passou a desempenhar o papel com destreza. Migliaccio participou da companhia amadora por três anos, onde ainda trabalhou como diretor.
De origem pobre, o ator teve que arrumar outras ocupações, trabalhando como balconista e mecânico para ganhar dinheiro e sobreviver. A profissionalização só aconteceu em 1954, quando ele entrou no Teatro de Arena.
Seu primeiro papel foi o de um cadáver na peça “Julgue Você”, em 1954. Segundo o ator, havia muitas pulgas no espaço, e o figurino praticamente o impedia de respirar.
Ali mesmo, ele participa de algumas das peças mais emblemáticas daquela transição para os anos 1960, como “Chapetuba Futebol Clube”, de Oduvaldo Vianna Filho, “A Revolução na América do Sul”, de Augusto Boal, e “Eles Não Usam Black-Tie”, de Gianfranceso Guarnieri.
Na mesma época, então com 25 anos, ele estreou no cinema em “O Grande Momento”, de Roberto Santos, considerado um dos precursores do Cinema Novo. Participaria ainda de clássicos do cinema brasileiro como “Cinco Vezes Favela”.
Foi nos anos 1970, no entanto, que o ator tornou-se conhecido do grande público, na série da Rede Globo “Shazan, Xerife e Cia.”. Enquanto Paulo José interpretava o Shazan, ele fazia sua dupla Xerife entre 1972 e 1974.
Embora alguns atores odeiem ser marcados por um só papel, com Migliaccio isso não acontecia. Segundo ele, em relação ao personagem Xerife, dizia querer ser “desmoralizado” e ficar com aquele personagem para o resto da vida.
Depois, foi eternizado com outro papel, o do Tio Maneco, da série “As Aventuras do Tio Maneco”, exibida pela TVE entre 1981 e 1985. Sua origem foi o filme homônimo de 1971, dirigido pelo próprio Migliaccio, e que ganhou a sequência “Maneco, o Super Tio”, de 1978.
Nas várias novelas da Rede Globo, ele ficou conhecido por sua atuação, entre outras, em “Rainha da Sucata”, “A Próxima Vítima”, “Vila Madalena”, “Senhora do Destino” e “Passione”.
Um de seus trabalhos mais recentes e marcantes foi no seriado da Rede Globo, exibido entre 2011 e 2015, “Tapas & Beijos”, como “seu Chalita”, dono de um restaurante árabe em Copacabana. Seu última aparição profissional foi, no entanto, no cinema, no longa independente “Jovens Polacas”, lançado no ano passado.