Caderno B
MEMÓRIAS DO PALCO
Em alusão ao Dia Alagoano do Teatro, artistas de Alagoas participam de vídeo que aborda celebração sem aglomeração e persistência do setor em Alagoas
Não fosse a pandemia, certamente a semana que finda teria contado com uma programação especial para celebrar o Dia Alagoano do Teatro, comorado no dia 14 de maio. O blecaute provisório nos palcos de Alagoas, no entanto, não deixou que a data passasse despercebida. Atores, atrizes e técnicos de Alagoas participaram de um vídeo de 30 minutos, em que compartilham memórias e o desejo de voltar à cena. Este ano desponta como um dos mais desafiadores para os artistas que vivem das aglomerações. Projetos importantes, por exemplo, como o Teatro Deodoro é o Maior Barato e Quintas no Arena, não puderam ser realizados. E partiu justamente da equipe da Diretoria de Teatros de Alagoas (Diteal), responsável pelos projeto mencionados, a ideia de produzir um vídeo especial que, com simplicidade dissesse: o teatro está vivo! O vídeo traz um trecho do ator Mauro Braga, em Zelodaro Come Pano, do Grupo Cena Livre, que tem 40 anos de existência. A peça estreou nos 44 anos do Teatro de Arena Sérgio Cardoso. “É uma grande satisfação participar dessa comemoração ao teatro alagoano, sempre remetendo à nossa primeira dama Linda Mascarenhas, quem começou tudo isso. É muito importante essa união, esse convite que a Diteal sempre faz aos artistas, dando oportunidade para mostrar os seus trabalhos e, claro, ao público, porque teatro sem plateia não existe”, comentou Mauro Braga. Logo após, é feita uma linha do tempo com episódios que marcaram a data em anos anteriores, como as presenças de Amir Haddad e Clarice Niskier, além de espetáculos como A Velha, de Ivana Iza. Em 2020, estava prevista a estreia de “O Homem ao Vento”, do dramaturgo Marcos Damaceno, espetáculo vencedor do Prêmio Shell e considerado um dos textos teatrais mais importantes da atualidade. Para a formação do elenco, foi feita a Oficina Teatro Contemporâneo, nas comemorações dos 109 anos do Teatro Deodoro. Depois , foram realizadas Leituras Dramatizadas, das quais as atrizes e atores passaram por uma seleção para Homem ao Vento. O segundo momento seria composto pelos ensaios, preparação corporal e vocal, que não chegou a acontecer por causa da pandemia, para então ocorrer a estreia, que seria ontem, 14 de maio. “Falar do teatro alagoano sempre traz felicidade, lembranças de ótimos espetáculos que assistimos e peças que fizemos e apresentamos sempre com plateias cheias e vibrantes, lembranças de grandes profissionais que conhecemos, alguns dos quais viemos a nos tornar bons amigos, e traz também uma certa tristeza porque era pra gente estar agora em Maceió, no Teatro Deodoro, que é um dos mais importantes teatros do país, estreando nova montagem do espetáculo Homem ao Vento”, disse Marcos Damaceno. Complementando, Rosana Stavis pontuou: “Um projeto importante na sua coragem, no seu ineditismo, seu pioneirismo. É um projeto lindo, sonhado, buscado e materializado pela Diteal”. Damaceno continua: “Esse texto Homem ao Vento foi escrito originalmente a convite da PUC do Paraná com a ideia de lançar novos olhares, novas percepções, sobre o que é o ser humano nos nossos dias, na contemporaneidade, o ser humano de hoje pelo viés da arte. Rosana segue: “A estreia não pôde ser agora por conta de tudo isso que infelizmente estamos passando, agora é hora de cuidarmos uns dos outros, mas será já já. Numa grande celebração à vida, como são todas as peças de teatro e será lindo, com certeza”. O vídeo traz, ainda, os depoimentos da atriz Diva Gonçalves, que participou das oficinas e compõe o elenco de Homem ao Vento. “Gostaria de falar sobre a necessidade de manter vivo o amor à essência do teatro. Uma pena não podermos apresentar, mas em breve estaremos de volta. Peço a vocês paciência, fé e foco. Espero que o teatro sobreviva a tudo, nosso amor está acima de qualquer dificuldade. Vamos ficar juntos”, declarou. [ Da nova geração, a atriz Dália Monteiro, mais uma integrante de Homem ao Vento, também contribuiu. “Dia Alagoano do Teatro e eu não poderia deixar de parabenizar de coração os meus colegas amantes da arte, amantes da profissão e meus colegas que estariam apresentando o espetáculo Homem ao Vento, resultado das oficinas. Foi uma troca incrível, a gente pôde aprender com o texto ganhador do Prêmio Shell - um dos mais tradicionais da cena teatral brasileira, um texto extremamente detalhado, como se ele tivesse várias cores e várias formas”, comentou. Representando a Diteal, Alexandre Holanda, gerente artístico e cultural da diretoria, grande entusiasta do teatro alagoano, deu o seu depoimento. “A arte existe porque a vida não basta - Ferreira Gullar. O teatro é uma sublime criação artística da humanidade para se reconhecer, discutir, refletir, perceber e perpetuar a sua identidade enquanto humanidade com alma. Nós celebramos o Dia Alagoano do Teatro em 14 de maio, é uma homenagem a um grande nome do cenário local, Linda Mascarenhas, que em 1944, quando fazia 30 anos sem registro do teatro amador em Alagoas, retoma esse movimento. Em 1955, ela funda a Associação Teatral das Alagoas (ATA), que até hoje atua no nosso estado”, destacou. Alexandre segue sua fala: “O ator, a atriz, o diretor, o dramaturgo, o maquiador, o contrarregra, o sonorizador, o cenotécnico, o cenógrafo, o produtor... tem toda uma cadeia produtiva muito relevante na economia criativa do nosso estado. [...] Nós vivemos tempos difíceis, estamos com essa pandemia, é um momento que traz uma certa frustração, mas a gente não pode desistir, tem que acreditar e levantar todos os dias com a certeza de que vai passar. Certamente, o teatro vai contar, através da tragédia e da comédia, tudo isso que estamos vivenciando. Viva o teatro alagoano!”, concluiu. Como mais uma forma de celebrar a arte, o ator, diretor e dramaturgo, José Márcio Passos faz uma leitura do texto “Tamborilando”, do ator, diretor e dramaturgo alagoano, Homero Cavalcante. “Faço teatro há 52 anos, é muito tempo, mas de muitas alegrias, porque, da mesma maneira que as pessoas cuidam de suas casas, comprando sofá novo, TV nova, ajeitando o banheiro, o teatro é a casa do artista, do ator e da atriz, e por eles tem que ser muito bem cuidado, com amor, colocando de melhor o que você tem, porque dele (do teatro) você recebe inúmeras alegrias. É um prazer estar aqui, cooperando com este evento, nesta promoção fantástica, onde as pessoas jogam os seus corações para emocionar os seus iguais, os artistas. Amo todos vocês”, declarou. O vídeo encerra em silêncio, relembrando a passagem de Edivaldo Oliveira da Silva, carinhosamente conhecido como Dinho, assessor técnico de sonoplastia desde 1982, que faleceu em abril deste ano, deixando muita saudade e admiração. A produção está disponível nas redes sociais da Diteal.