Caderno B
DEVOTOS DO FORRÓ
Amantes das festas juninas comentam edição sem fogueira ou rala-bucho, na terra em que o pesquisador José Lessa Gama defende que Alagoas criou o forró
Em outros tempos e a essa altura do campeonato, o cheirinho de milho já teria se espalhado pela cidade, tomado esquinas, ruas, casas e arraiais. E o São João - a festa mais nordestina do mundo - já estaria praticamente montado, com palhoções erguidos, os fogos de artifício fazendo desenhos sonoros e luminosos entre bandeirinhas, além, claro, do ritmo frenético da zabumba, da sanfona e do triângulo marcando quadrilhas e arrasta-pés. Em decorrência da pandemia do novo coronavírus, o nordeste experimenta a festa junina mais lúgubre de sua história, sem poder celebrar o ‘ser nordestino’ em meio ao balanço dos saiotes e dos chapéus de palha. Para quem dedica a vida ao período festivo junino, é ainda mais difícil não lamentar ainda mais a pandemia e a necessidade do isolamento social. Não existe rala-bucho sem aglomeração. “É de muita tristeza esse momento, principalmente para nós quadrilheiros, que já estaríamos vivendo o São João e os concursos. Só quem viveu sabe como é a emoção e o trabalho que dá dançar uma quadrilha bem feita”, diz Thamires Gomes, que há quatro anos se dedicava aos figurinos de uma quadrilha alagoana. “Esse ano eu ia só pra ver e dançar, sem me preocupar com nada. Só torcer. Agora teremos que esperar para o São João do ano que vem e, se Deus quiser, vamos comemorar ainda mais”, diz a eterna quadrilheira. Mesmo sem poder aglomerar, alguns alagoanos não pretendem esperar 2020 para celebrar o São João. É o caso do sanfoneiro Anderson Fidellis, que promete levar a festa para dentro das casas alagoanas. Com apenas 30 anos de idade, ele é um dos mais relevante nomes do forró tradicional de Alagoas e participa de uma “laive” - como ele faz questão de escrever - todos os sábados, às 19h, em seu perfil no Instagram (@_fidellis_). Abraçado com sua sanfona, ele lembra que, mesmo com fogueira, milho, bandeirinhas e rojões, São João só existe se tiver forró.
“O forró sempre foi minha paixão. E ela reflete muito aquilo que corre nas nossas veias, nosso sangue, nossa essência nordestina. É um absurdo o que acontece hoje em dia, que as pessoas não valorizem nossa identidade cultural. E eu faço esse reclame…”, comentou o artista, em entrevista ao AL TV 1ª edição, na TV Gazeta. Anderson Fidellis é cantor, sanfoneiro e compositor. O músico maceioense carrega a sanfona para todos os lados e uma bagagem artística de 14 anos. O primeiro contato do forrozeiro com o acordeão aconteceu ainda na escola, durante uma atividade de teatro. De lá pra cá, o amor pela autêntica música nordestina só aumentou, assim como a coleção de experiências do artista, que se declara admirador da música de Luiz Gonzaga. O artista quer exibir toda essa devoção ao forró em um grande show transmitido online, para o qual ele tenta financiamento, por meio de uma vaquinha virtual. A meta é conseguir R$ 1.100,00 para viabilizar o show “Baião Dendicasa”, ainda sem data. Para ajudar, basta acessar o perfil do forrozeiro no instagram ou o endereço: www.vakinha.com.br/vaquinha/baiao-dendicasa. “A minha felicidade me tira da rotina de trancafiamento. O forrozeiro lascou-se mesmo, sem poder trabalhar. Mas o artista é criativo e sempre acha alguma forma. E estamos produzindo uma grande rede de forró. [...] E nós, o artista popular, busca apoio do povo”, conclui o sanfoneiro.
FORRÓ: ORIGINALMENTE ALAGOANO
Em 2016, a antropóloga alagoana Luitgarde Barros disse que “não tem como discutir nenhum assunto brasileiro sem citar Alagoas”. Pois bem. Para o pesquisador e apreciador de forró José Lessa Gama, o forró enquanto gênero musical é originalmente alagoano. Fato que ele fez questão de defender em uma extensa live na última quinta-feira (11). Para ele, que também é presidente da Associação dos Forrozeiros de Alagoas, as primeiras manifestações do forró surgiram em Alagoas, a partir de 1927, com a música ‘Choveu na minha roça’, de Gerson Filho, alagoano que ele considera o precursor do forró e da sanfona de oito baixos. “Eu defendo que o forró nasceu aqui em Alagoas. Há muitos anos venho juntando provas disso. Eu já ouvi diversos artistas, como Joci Batista, Gennaro, Chameguinho, Benício Guimarães, Afrísio Acácio, Sandoval, entre outros, e todos concordam”, afirma. Ele também diz que documentos evidenciam que Gerson Filho introduziu o forró nas quadrilhas, até então ritmadas pela polca, de origem alemã. “Assim como muitas outras coisas, Alagoas exportou o forró para o Brasil. Aos poucos, a história começa a corrigir isso. Foi também um alagoano, João do Pife, o primeiro pifeiro a gravar o instrumento, a utilizar o pife como um instrumento. Catirina, do poeta alagoano Jararaca, foi o primeiro ritmo nordestino a ser apresentado no Teatro Nacional, em 1928, anos antes da aparição de Luiz Gonzaga, que só apareceria no início da década de 40”, complementa. Apesar de defender que o forró é um ritmo originalmente alagoano, o pesquisador concorda que Luiz Gonzaga foi o maior artista do forró no mundo e diz que luta para que a música-símbolo do Nordeste seja reconhecida como patrimônio imaterial. “A valsa era que era tocada nas casas de forrobodó. Os sanfoneiros foram mudando aos poucos, introduzindo outras coisas. A polca era o que a gente chama hoje de arrasta-pé. No século 19, as rodas de São João, que originaram as festas juninas, já existiam em Alagoas. Em 1880 já havia coco tocando com sanfona de oito baixos, zabumba e triângulo em Alagoas. E não sou eu que estou dizendo, temos documentos, está documentado. O nosso coco é possivelmente a primeira música genuinamente brasileira”, diz José Lessa. O pesquisador mantém há 10 anos o site ‘forroalagoano.com’, que possui raridades do forró produzido em Alagoas de séculos passados até a contemporaneidade. Para explicar essa devoção ao forró, José Lessa diz que, quando se afastou das atividades políticas, estava intrigado com o fato de Alagoas não exibir seus artistas Brasil afora, quando esses artistas tinham prestígio no país inteiro. Ao fazer uma pesquisa na internet, ele conta que se deparou com a frase “Alagoas é um estado que sepulta seus artistas vivos”, o que lhe deixou entristecido. “Jackson do Pandeiro dizia que ‘Catirina’ foi a música que lhe formou, que lhe inspirou a ser músico. Luiz Vieira, pesquisador pernambucano, defende que foi Jararaca quem introduziu o baião no Brasil. E a cada dia a gente vai investigando, adentrando nas minúcias e descobrindo grandes compositores, como Zé Fernandes, Durval Vieira, Benedito Nunes, que chegou a disputar com roberto Carlos a mídia carioca”, conta. Apesar de triste com o São João “diferente”, José Lessa diz que acredita que é tempo de repensar a identidade e descobrir o valor dessa festa para os nordestinos e, em especial para os alagoanos.
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“O forró é o grande referencial, é a alma do nordestino. Você ter um São João sem poder ir pra rua, pros arraiais, pro São João do Jaraguá, é muito penoso. Para o artista é constrangedor. É o natal do artista. Está sendo muito difícil”, revela. “É importante que as pessoas percebam que a quadrilha emprega o sanfoneiro, que emprega o zabumbeiro e o tocador de triângulo. Que a festa dá serviço para a cozinheira, para o vendedor… que perceba que essa festa nunca é um gasto. É um investimento. Tanto na questão econômica como para para a identidade do nosso povo. A gente precisa se alicerçar com mais dados, se aproximar mais da universidade, pra que a gente tenha dimensão e apoio para argumentar com a população sobre a importância das festas e da nossa cultura para o desenvolvimento da sociedade”, conclui o pesquisador.