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Caderno B

VERSOS SOBRE A PESTE

Dos “coronaversos” de Fernando Fiúza aos poemas de uma nova geração de escritores alagoanos, pandemia e isolamento

Por Maylson Honorato | Edição do dia 27/06/2020 - Matéria atualizada em 27/06/2020 às 04h59

Em poema recente, Litrento lembra o assassinato de George Floyd, morto por um policial estadunidense
Em poema recente, Litrento lembra o assassinato de George Floyd, morto por um policial estadunidense -
 

Como e durmo/ Como e durmo/ Como e durmo/ Leio às vezes/ Más notícias…/ Um romance.../ E rabisco/ Tal poesia/ Sem nuance/ Mais cilada/ E alegria/ Que fazer/ Qualquer coisa/ Alivia. - O poema que revela mais um dia de isolamento social do poeta alagoano Fernando Fiúza, também sugere que a pandemia do novo coronavírus deve repercutir na literatura alagoana. Não só agora, mas no almejado depois.

Em casa a mais tempo do que gostaria, o metódico Fernando Fiúza usa o tempo em fartura para escrever e compartilhar seus “coronaversos” com os leitores nas redes sociais. Não é novidade que essas crônicas feitas poesias, com linguagem rápida e sintética, sejam exploradas por ele. “Mas de forma sistemática, como essa série, só agora”.

“A musa resolveu me visitar com mais frequência, o que é raro depois dos cinquenta, desde a primavera do ano passado. Com a chegada do confinamento, desse longo pesadelo, esse impulso se dirigiu para o momento de exceção que vivemos. Desde o primeiro poema sobre o assunto dei o nome à série, porque saquei que não era um poema isolado, de “Coronaversos”. E tenho podido dedicar um bom tempo de meu dia a eles porque as aulas estão suspensas”, conta.

Fernando Fiúza é professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e um dos expoentes da literatura contemporânea no estado. Publicou o primeiro livro (O Vazio e a Rocha) em 1992 e somente 12 anos depois a obra ganhou um sucessor. No entanto, depois do hiato, Fiúza publica um livro quase que anualmente. É autor de seis obras poéticas, entre elas, Outdó (2012) e Sonetos Impuros (2015), sucessos editoriais da Imprensa Oficial Graciliano Ramos.

No final do ano passado, quando lançava Livramento (2019), sua obra mais recente, o escritor disse à Gazeta de Alagoas que escrevia “para viver”. Citando o poeta mineiro Murilo Mendes, Fiúza também disse que “a poesia sopra quando quer”. E a poesia tem lhe soprado “coronaversos” diariamente, mas escrevê-los somente minora a necessidade, segundo ele, mas o versos não devem virar livro.

“Não, isto sei desde o início, pois não haverá um livro físico ‘Coronaversos’. Ele ficará nas minhas páginas virtuais, não vou apagá-lo, porque nunca se sabe da curiosidade dos leitores. Tenho plena consciência de sua temporalidade. É uma forma de ficar ainda mais próximo de meus amigos artistas de palco, por quem tenho a maior admiração.”

Provocado sobre o impacto do isolamento na produção literária, ele afirma ser uma obviedade dizer que a literatura de qualquer lugar do mundo será afetada pela pandemia. Porém, acredita que o produto de um momento tão inédito e trágico pode demorar a reverberar, já que a literatura não é uma arte imediata, como o teatro e a música ao vivo.

“Não tenho lido autores alagoanos escrevendo sobre o assunto. Talvez não esteja a par, mas aqueles que conheço não têm explorado o assunto com frequência. Compreendo-os. Nem sempre o momento presente é um bom motivo de poesia. Sei que sou uma exceção e que esta série é de poemas de circunstância. Talvez jamais sejam publicados em livro de papel. Mas estou curtindo o imediato, a poesia como crônica. É uma experimentação.” 

Fenando Fiúza mira na polarização política durante o período de pandemia
Fenando Fiúza mira na polarização política durante o período de pandemia -
 

VERSOS ATRAVESSADOS

Se não escrevem exatamente sobre a pandemia, poetas alagoanos relatam que o assunto atravessa os versos. Dois nomes da nova geração de escritores de Alagoas, Lucas Litrento e Natasha Tinet, relatam que a influência do isolamento na produção literária é real, mas que eles não foram levados a escrever precisamente sobre pandemia, vírus, etc. Ambos garantem, no entanto, que a produção está em alta.

“O começo da quarentena foi bastante produtivo, comecei um novo livro de poesia, estava indo bem até ver que a quarentena ia além dos 40 dias. A ansiedade bateu e eu não estava conseguindo nem escrever, nem ler, fiquei trabalhando somente com ilustração. O impacto do isolamento na minha rotina não foi tão grande porque trabalho em casa, a falta de perspectiva diante da pandemia foi o que doeu e o que dói, muitos projetos interrompidos por isso. Mas voltei a escrever apesar de tudo. ‘Escrever apesar de’, é quase um lema”, afirma Natasha Tinet, segundo lugar no Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2019, na categoria poesia.

Apesar de considerar mais do que a pandemia na hora de escrever, a poeta acredita que a “peste” irá influenciar por um longo período escritores e escritoras de Alagoas.

“Em Maceió, por exemplo, além da situação da pandemia da Covid-19, há o caso do afundamento do bairro Pinheiro e dos bairros ao redor. Pessoas perdendo suas casas enquanto o isolamento domiciliar é essencial. Esse contexto segura uma ficção que poderia ser literatura fantástica se não fosse tão real”, lamenta.

"No começo do ano resolvi que iria ver todos os filmes que deveria ter visto nos cursos de cinema e não vi. Comecei pelo Bergman (que sempre negligenciei), e não tinha intenção de escrever a partir dos filmes, mas aconteceu."
"No começo do ano resolvi que iria ver todos os filmes que deveria ter visto nos cursos de cinema e não vi. Comecei pelo Bergman (que sempre negligenciei), e não tinha intenção de escrever a partir dos filmes, mas aconteceu." -
 

Para o escritor Lucas Litrento, o isolamento já era uma realidade no dia a dia de muitos artistas. Porém, o momento de medo e tragédia acentuados acaba influenciando de alguma maneira na produção.

“Porque os temas diretos decorrentes da pandemia vão se atravessando na escrita, então existem essas referências e influências”, diz.

Mas acrescenta que outras questões também têm atravessado seus versos.

“Eu ando lendo sobre coisas que também estão acontecendo [além da pandemia], estudando muito sobre negritude, até influenciado pelos acontecimentos. Eu ando escrevendo sobre isso também, colocando em pauta as pautas políticas e antirracistas, que é uma coisa que eu faço desde sempre, não somente agora em que muitas pessoas se dizem antirracistas só porque está na moda ou é a pauta no momento”, finaliza.

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