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LITERATURA

IMPULSOS CRIATIVOS

Aprovados em edital com mais de 3 mil inscritos, artistas alagoanos relatam como produziram filmes em pouco tempo e falam de vivência no isolamento

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Com filme feito no último dia de inscrição, Lucas Litrento ganha seu segundo prêmio em edital do Itaú Cultural
Com filme feito no último dia de inscrição, Lucas Litrento ganha seu segundo prêmio em edital do Itaú Cultural | Foto: Cortesia

Visando fomentar arte durante o isolamento social em decorrência da pandemia do novo coronavírus, o Itaú Cultural (IC) lançou múltiplos editais de emergência voltados para diversos segmentos. O resultado mais recente, divulgado na segunda-feira (20), foi para o segmento de artes visuais, nas categorias: Produções Artes Visuais e Série Fotográfica. Entre os selecionados para o sexto edital de incentivo do IC, estão alguns nomes alagoanos, como Lucas Litrento e Maysa Reis.

Foram selecionados pela equipe de audiovisual e literatura até 200 trabalhos de todo o Brasil. Cada um irá receber o valor bruto de R$ 3 mil como remuneração pelo licenciamento dos direitos autorais da obra. É critério exclusivo do Itaú Cultural optar por exibir os trabalhos selecionados, no prazo de até seis meses, em sua grade de programação virtual ou em canais e mídias dos próprios artistas. O prazo pode ser mudado diante do quadro social referente à pandemia do coronavírus ou de necessidade do Itaú Cultural.

O edital de audiovisual recebeu 3.578 inscrições, das quais foram escolhidos 200 trabalhos, dos 23 estados brasileiros. O processo seletivo contou com três etapas, que observaram, além de critérios subjetivos e poéticos, a aderência ao tema proposto, o cumprimento dos requisitos de participação e análise da atuação profissional do proponente na área de audiovisual há no mínimo um ano. Na última fase, os projetos finalistas foram visionados 12 vezes.

Lucas Litrento, um dos nomes alagoanos selecionados no edital de audiovisual, já foi contemplado em outros do IC, como o edital de literatura, no qual passou com um poema. E agora, ele venceu com o filme ‘Círculos’.

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O filme é um curta experimental que foi produzido no último dia de inscrição. Lucas conta que estava desanimado com o edital por estar sem ideias Mas, com o incentivo de amigos e a partir da leitura do livro “Malcolm X: uma vida de reinvenções”, biografia do ativista americano, escrita por Manning Marable.

“A partir da figura do Malcolm, relacionei com o rosto do meu irmão, fazendo um paralelo circular do tempo, bem na linha de filosofias afro-indígenas, como se Malcolm ainda estivesse para nascer, nos dando esperança. Fui pro quintal, filmei partes da casa, meus pais, meu irmão. Foi um processo divertido", conta o realizador.

"E é um filme com um desejo de esperança, embora também tenha essa leitura do círculo como os mesmos problemas ao nosso redor: Malcolm marchando nos anos 60 e o movimento negro aqui no Brasil nos anos 70, clamavam pelas mesmas pautas que nós hoje em dia. É a circularidade da exigência primeira: ficar vivo”, diz Lucas Litrento.

Antes da pandemia, Lucas estava trabalhando em seu primeiro filme, ‘Samuel foi trabalhar’, mas, devido à pandemia, as gravações foram interrompidas, o que levou o escritor a focar mais em seus projetos literários.

“Então, participar desse edital foi uma forma de voltar pro audiovisual de maneira mais ativa, foi interessante, um experimento. Fazendo lives também, declamando uns textos, falando de literatura e cinema, o que dá pra fazer”, comenta Litrento.

“Fui um dos cinco contemplados neste edital, ganhei ao lado de realizadoras e realizadores alagoanos, pessoas do cinema. E isso é muito relevante, estar junto nessas premiações nacionais, juntos de artistas nossos”, completa.

"A história prova que nesses momentos de profundas inquietações, as melhores obras são criadas", comenta a realizadora Maysa Reis
"A história prova que nesses momentos de profundas inquietações, as melhores obras são criadas", comenta a realizadora Maysa Reis | Foto: Amanda Môa

Maysa Reis, outra alagoana selecionada no edital, passa seus dias escrevendo e estudando, pois seu trabalho é exclusivamente presencial e gera aglomerações e, por isso, segue suspenso.

Para quem trabalha no setor cultural, já não é mais segredo as inúmeras dificuldades que se enfrenta durante o isolamento, sendo a financeira uma das mais graves.

“Fiz esse filme num impulso criativo. Estava passando por um momento de muitos sentimentos em casa e comecei a registrar com o celular. Era a forma de representar o que eu estava sentindo naqueles dias. Aí logo depois surgiu este edital e eu resolvi transformar os registros em narrativa e daí surgiu o filme”, explica Maysa.

Apesar de não ser uma tarefa fácil para Maysa, pois segundo ela existe muita insegurança para fazer um filme sozinha, mas a situação deu forças para que ela prosseguisse com o projeto, além do apoio e incentivo dos colegas do audiovisual, que acreditaram em seu projeto. Em relação a situação que os artistas estão passando em meio a pandemia ela fala sobre falta de perspectiva e atuação do governo federal.

“Este cenário é tenebroso. E de uma forma geral mesmo! Não tem um horizonte de esperança diante do governo que vivemos e também dos ataques que sofremos. A história prova que nesses momentos de profundas inquietações, as melhores obras são criadas. Espero que seja as nossas”, conclui Maysa Reis.

*Estagiária sob supervisão da editoria de cultura

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