Caderno B
BANZOS SIM, COVARDES NUNCA
Fotógrafo de Alagoas vence prêmio nacional com autorretratos inspirados na doméstica que morreu com Covid-19 após ser infectada pela patroa
Banzo, termo africano que foi usado na época da escravidão no Brasil, representa um sentimento de extrema tristeza. O adjetivo também era utilizado quando os escravos sentiam saudades da terra natal, eles diziam estar banzos. A expressão até então pouco conhecida foi escolhida para dar nome à série de autorretratos produzida pelo fotógrafo Roger Silva. O projeto foi premiado pelo jornal El País e foi idealizado a partir da morte por Covid-19 de uma empregada doméstica negra, do Rio de Janeiro, contaminada pela patroa que tinha histórico de viagem recente. A série foi publicada no Instagram de Roger e dividida em 12 partes. E ganhou ainda uma versão com narração e animação das fotos no Youtube, para humanizar o projeto e alcançar mais pessoas. Em todas as fotos, o autor utiliza no rosto máscaras feitas por Gilbef, artista e amigo de Roger, que e aparece despido deitado ou sentado no chão, expondo suas angústias internas através de movimentos e poses. Para reproduzir o sentimento de estar banzo, o fotógrafo preparou também um texto com vivências pessoais para cada legenda nas publicações. Uma vez lembrou da avó que o presenteou com um carrinho de mão quando tinha apenas 10 anos, e outra vez das experiências em sala de aula, quando estava lecionando história.
O HOMEM QUE ESTAVA BANZO
Além de fotógrafo, Silva é historiador formado pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Nascido em Pernambuco e radicado em Alagoas, ele descobriu a paixão pela fotografia aos 12 anos, quando entrou pela primeira vez numa loja de filmes e câmeras no Centro de Maceió e comprou a primeira máquina fotográfica ao lado do pai. Agora, aos 40, o fotógrafo ganha a vida ensinando História e fazendo trabalhos de adesivagem para complementar a renda. Para ele, o mais importante é retratar o que incomoda. Seu trabalho fotográfico está voltado para o ser negro e ele busca resgatar dor e outros sentimentos que se escondem atrás do sorriso do seu modelo que muitas vezes é um retrato da vida na periferia onde mora. “Para mim a beleza negra está na sua força existencial e no seu poder de continuar de pé, mesmo com tantas exclusões e estereótipos impostos ao longo da História do Brasil. A beleza que a gente conhece é uma construção ocidental europeia. O povo preto é maior que isso”, contou ele. Mas foi através do conhecimento em História que veio a ideia do nome que sintetizaria toda a construção do projeto premiado. “Conheci o termo Banzo nas minhas pesquisas, na época em que estava escrevendo meu TCC “O processo fotográfico excludente do negro em Alagoas: composição de uma ideologia sem preto”, mas só na construção do projeto é que fui rememorá-lo. Então resolvi chamar o ensaio assim, porque fui percebendo que os sentimentos e ideias que estava sentido ao fazer as fotos casavam com seu significado. Já era Banzo desde pequeno, só não sabia”, afirmou. A premiação que contemplou Banzo tinha como tema “A Covid-19 nas Periferias do Brasil” e foi desenvolvida pelo jornal El País em parceria com uma editora de livros fotográficos artesanais. Mesmo recebendo uma quantia em dinheiro, Roger menciona que a felicidade e a gratidão está no reconhecimento dos jurados e na oportunidade de ter seus registros publicados em uma editora renomada. Com a série Banzo, ele discute as angústias da população negra periférica em tempos de isolamento social e indignado com a morte da empregada do RJ pensou em sua mãe e em todos que vivem a mesma realidade nas periferias pelo Brasil afora. “Banzo começou com minha indignação com a morte de uma empregada doméstica contaminada pela patroa que veio da Europa. Daí pensei na minha mãe, que é empregada doméstica, tive medo de perdê-la. Fiquei triste com as mortes, as perdas doem muito, se a gente não se solidariza com a dor do outro, então está na hora de repensarmos a vida”, contou, emocionado. Nas áreas menos favorecidas estão os negros que são protagonistas no número de mortes e infectados, segundo pesquisa recente. O fato gerou revolta no fotógrafo que entende as dores de estar entre essas estatísticas. “Os mais pobres, e nesse estrato estão incluídos os negros e negras brasileiras, sempre foram colocados à margem da sociedade. Somos os que mais morrem, seja por doenças, pela violência estatal, seja pela fome, a lista é imensa”, disse o autor. “Somos reflexos de políticas públicas excludentes ao longo da História do Brasil. Não podemos esquecer que nossos antepassados foram escravizados por mais de trezentos anos no Brasil. A Pandemia e sua flexibilização só escancara o descaso do sistema político com nosso povo. O medo é diário, com ou sem pandemia, a flexibilização possivelmente vai nos deixar ainda mais expostos ao vírus e à morte”, completou. O fotógrafo produziu a série cumprindo quarentena em casa e sozinho. Apesar das dificuldades, ele relata que recebeu muitos feedbacks ao longo das postagens. “O isolamento mexeu com milhares de pessoas, comigo não foi diferente. Não é à toa que Banzo tem alguns relatos pessoais que me fizeram entender o que é ser Banzo. Ao logo das postagens no meu instagram, vi várias pessoas se identificarem e se emocionarem com Banzo. Acredito que quando passamos por situações eminentes de doença e morte, a gente olha para dentro e começa a refletir. Banzo é uma reflexão sobre esses medos, anseios e angústias que não são novas”, disse. Além das dificuldades que a pandemia trouxe, as pessoas que Roger luta para retratar e representar ainda têm outros problemas para lidar. “Convivemos com isso o tempo todo. O povo preto sabe muito bem disso. Às vezes usamos uma máscara de alegria, mas no fundo nossa alma está cansada, triste, dilacerada. Mas a gente se levanta e vai. Porque não podemos desistir. Não temos do que desistir. Ainda temos muito que conquistar. Banzos sim, covardes nunca!”.