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Caderno B

PARA SEMPRE QUINO

Morre Quino, criador da Mafalda, estrela das HQs que odeia sopa e autoritarismo

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Imagem ilustrativa da imagem PARA SEMPRE QUINO
| Foto: ADNAEL SILVA

“Morreu Quino e, com isso, todas as pessoas boas deste país e do mundo irão chorar”, disse Daniel Divinsky, seu editor, ao anunciar a morte do artista por meio das redes sociais. Joaquín Salvador Lavado, conhecido como Quino, morreu na quarta-feira (30), aos 88, em Mendoza, sua cidade-natal, na Argentina. Quino é o pai de uma das personagens mais famosas do mundo das tirinhas, a inconformada Mafalda, uma garotinha de classe média, fã dos Beatles, que ama panquecas, mas odeia sopa e autoritarismo. Mafalda possui um senso crítico aguçado para questões relacionadas à causas sociais e até à filosofia. Apesar de ser exaltada por progressistas, a garotinha nunca assumiu nenhum posicionamento explicitamente político. Criada em 1964, foi originalmente publicada em jornais, até 1973. No entanto, ganhou o mundo, ilustra memes e cartazes políticos. Filho de imigrantes espanhóis, Quino se mudou para Buenos Aires, aos 18 anos, para estudar desenho. Começou a publicar charges e quadrinhos em jornais em 1954. Em 1963, lançou seu primeiro livro de humor, “Mundo Quino”, e, no ano seguinte, publicou na revista Primera Plana a primeira história de Mafalda e sua turma, que logo se transformaram em símbolos da efervescente cultura da década de 1960 na Argentina -se tornando famosa também nos demais países da América Latina. Quino recebeu prêmios importantes, como a Ordem Oficial da Legião de Honra, da França, e o prêmio Príncipe de Astúrias, da Espanha. Em 1965, Mafalda começou a ser publicada no jornal argentino El Mundo, um dos principais dessa época. A garotinha de cabelos negros enrolados andava sempre acompanhada de um grupo de amigos, alguns baseados em personagens da vida real do cartunista Quino. Um deles é Manolito, baseado na figura de Anastasio Delgado, um imigrante espanhol dono de uma padaria em Mendoza. Outro é Felipe, baseado em Jorge Timossi, um amigo dentuço que foi um colega de Quino na escola. Também foi criada Susanita, uma típica menina de classe média argentina, mas que é oposta a Mafalda, ou seja, vive com sonhos românticos e tem uma visão idílica do mundo. Na Argentina, até hoje, chamam de Susanita o que no Brasil seria uma “patricinha”, ou seja, alguém bem diferente do estilo questionador de Mafalda. Esta não sonha em casar-se com um príncipe encantado, por exemplo. Muitas das tiras de Mafalda são silenciosas, sem uma única palavra, e Quino sempre trabalhou com mensagens que se podem deduzir a partir do próprio desenho. “O Quino representa para fãs um marco na história política e social de todo o mundo, em especial, da América do Sul. A personagem Mafalda e os demais personagens consagrados pelas mãos e mente dele serão, sem dúvidas, inesquecíveis, pois são atemporais, poderão ser lidos e admirados hoje e daqui a dezenas de anos, sem prejuízo do sentido”, analisa Jayara Oliveira, universitária de Maceió, fã do cartunista. Nos últimos anos, a personagem Mafalda acabou sendo muito usada pelo movimento feminista na Argentina, com o aval de Quino. Mafalda tem aparecido vestida de verde ou usando lenços verdes, na campanha pró-aborto que ocorre no país nos últimos cinco anos. Em 2018, uma edição só com suas reivindicações para a mulher foi editada em “Mafalda: Femenino Singular”, sucesso entre adolescentes argentinas contemporâneas. “Sinto-me bastante representada pela personagem, pois, desde garota, questionei todos esses movimentos que acontecem na sociedade, sem pestanejar”, completa Jayara. “Vejo que a ideia sempre foi estimular o pensamento crítico. Utilizar uma garotinha para isso, num meio, que como quase todos os outros, prevalece a voz do patriarcado, é, para mim, um presente de liberdade. Pena que não pude conhecê-lo, mas guardarei uma lembrança como de um abraço apertado, no qual pude agradecê-lo por toda sua história e pelas histórias da Mafalda”, finaliza a universitária.

REPERCUSSÃO

Além dos fãs, cartunistas e personalidades também lamentaram a morte de Quino. “Acabei de saber que o Quino morreu. Ô coisa triste”, disse a cartunista Laerte. A artista também publicou uma charge sua, feita em 2014, em que homenageia Mafalda e Quino e faz referências a si mesma. “Quino nos deixou hoje, mas sua filha Mafalda segue com a luta”, disse o cartunista Carlos Latuff ao publicar um desenho seu em que a personagem celebra Quino. O cartunista alagoano Léo Villanova conta que teve o primeiro contato com a obra de Quino ainda na infância. Na época, o encantamento era com os personagens da turma da Mafalda, todos crianças. “Desde então eu já desenhava e o traço do cartunista argentino era muito inspirador. Com o passar do tempo é que eu fui tomando consciência da profundidade da obra de Quino. Por trás de suas tirinhas, que aos desavisados parece se basear num universo infantil, ele conseguiu retratar o drama de não apenas seu país, mas toda uma América Latina, que vivia sob opressão política”, pontua Villanova. “Foi uma brava luta de conscientização e suas armas - a arte e a inteligência, são justamente as que mais assombram quem atualmente quer nos levar de volta ao obscurantismo. Apesar da tristeza imensa de sua perda, temos o alento que sua obra fica e irá continuar inspirando muita gente, por gerações”, diz o colega de profissão. O cartunista Adnael Silva lembra que Quino possui as tirinhas mais traduzidas da língua espanhola. Ele homenageou o artista com a caricatura que ilutra esta reportagem. “Sua personagem Mafalda, a mais conhecida, tratava de vários assuntos com temáticas sociais, o que fazia com que não só as crianças, mas também os adultos se interessassem. Despertou nas pessoas a reflexão de vários assuntos e até hoje continua atual. Meu contato com a personagem foi através de tiras de jornais e através da internet”, lembra.

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