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Caderno B

NO CALOR DA HORA

Maceió recebe exposição de arte em outdoor; projeto nacional já passou por 16 capitais e faz reflexão sobre caos político-social no Brasil

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Imagem ilustrativa da imagem NO CALOR DA HORA
| Foto: Divulgação

Em tempos mais amenos e em outro contexto de mundo, o filósofo Friedrich Nietzsche escreveu que “temos a arte para não morrer perante a verdade”. E agora, no século 21 e durante uma pandemia mundial, sua frase continua fazendo sentido. Já que museus e galerias de arte estão temporariamente fechados para visitação, em decorrência da pandemia do novo coronavírus, o projeto “M.A.P.A.: Modos de Ação para Propagar Arte” decidiu levar um pouco dos artistas para as vias públicas. Em Maceió, obra da artista Mabe Bethônico está instalada na Avenida Josefa de Melo.

Essa é a primeira edição da mostra ‘No Calor da Hora’, que apresenta 27 artistas brasileiros e que tem em comum, a reflexão que trazem sobre o caos político-social do país. As peças estão espalhadas em outdoors, nas 27 capitais brasileiras, de maneira descentralizada. Uma verdadeira mostra de arte no espaço público feita como resposta ao momento atual, que exige resistência e abertura para o diálogo. Essa foi a ideia da curadora Patrícia Wagner, mestre em Poéticas Visuais pela ECA-USP que, ao lado de Camilla Barella e Cecilia Tanure, da VIVA Projects, desenvolveu o projeto M.A.P.A. A ideia inicial era trabalhar nas capitais, mas a Lei Cidade Limpa impediu que São Paulo participasse. Desse modo, a cidade de Osasco recebe o outdoor do artista Éder Oliveira. Em circulação desde o dia 31 de agosto nas cidades de Rio Branco, Vitória, Curitiba, Cuiabá, Salvador e Brasília, o M.A.P.A proporciona que cada artista selecionado estimule, através da sua arte, um debate sobre o atual contexto político. Para isso, a mostra traz realizadores de diferentes manifestações artísticas, da música à pintura. A seleção convidou artistas como o músico e compositor Arnaldo Antunes, que ficou com a cidade de Aracaju, e a dupla premiada de cineastas Bárbara Wagner & Benjamin de Burca. Segundo Patrícia Wagner, a inspiração para o M.A.P.A veio de um questionamento de Walter Benjamin. O autor indagou sobre o pensar e agir no “Calor da Hora” e sobre tomar partido no meio de situações que nos atingem e não podemos desviar, daí a proposta do projeto. “No centro de uma pandemia que acirra as piores mazelas de nossa condição social e de nossa possibilidade de conviver coletivamente em princípios de igualdade, invocamos Walter Benjamin. Pretendemos com isso provocar reflexão acerca do fluxo dos acontecimentos devastadores dos últimos meses e o papel da arte em meio a esse caos social e político. Apostar na arte como potência capaz de traduzir o dilema atual pretende afirmar a imagem como um traçado visual no tempo e no espaço. Interação que se dá no presente e avança em camadas sucessivas de transmissão, toca a realidade, ou como dizia Rilke, ‘arde’ em contato com o real”, diz. Ela ainda afirma que é impossível separar o contexto atual do passado e que com as revoluções, as manifestações se adaptam cada vez mais à realidade. A escolha dos outdoors também não é novidade, a curadora do projeto relembra uma exposição de quase quarenta anos atrás, que aconteceu da mesma forma. “No domínio das relações entre o conceito que propomos e seus antecedentes históricos da arte brasileira, é impossível pensar essa mostra sem evocar a lembrança das produções que se colocaram em embate direto com o público, muitas vezes na ausência de instituições capazes de enquadrá-las em suas coleções. Por isso, a mostra se apresenta na esteira dessas variadas práticas, impossíveis de nomear individualmente, mas que incluem as intervenções urbanas do grupo 3Nós3 nos anos 70 e 80, a exposição Artdoor de Paulo Bruscky e os acontecimentos poéticos urbanos de Hélio Oiticica que o levaram a proclamar que ‘o museu é o mundo’.” Patrícia Wagner defende que o projeto é uma resposta imediata ao que vem acontecendo nos últimos anos no Brasil. Partindo da indagação de Benjamin, ela se dispõe a responder “No Calor da Hora” a importância de haver mais e mais manifestações deste tipo. “Ocupando um lugar usual e nada neutro da publicidade, a proposta abre-se às contradições inerentes ao meio, incorporando a alta voltagem de sua frequência. De certo, o caráter marginal e profano do outdoor como suporte artístico, permite o embate com um público pouco familiarizado com exposições de arte, comprometendo-o pela própria dinâmica da vida cotidiana. E nesse sentido, confronta- se com uma situação de total heterogeneidade de interesses, hábitos e possibilidades. E mais do que ser configurada em acordo com a ideia de um ambiente democrático, entendimento universal e frequente relacionado ao domínio da rua, a aposta reafirma a diferença, os desejos e as crenças para promover a força que a arte tem de colidir, resistir e ampliar o campo de pensamento. E assim responder No Calor da Hora, ao que não pode mais esperar”, finaliza. As cidades foram divididas em quatros ciclos para facilitar a organização, em que cada capital, o outdoor permanece por 15 dias. Além da exposição nas ruas, as obras também poderão ser vistas exibidas no site da VIVA Projects, vivaprojects.org, juntamente com as datas e a lista completa de artistas e capitais.

A VEZ DE MACEIÓ

Desde o dia 28 de setembro, a Avenida Josefa de Melo, sentido Farol - Cruz das Almas, está com a arte de Mabe Bethônico instalada em um grande outdoor. A artista de Belo Horizonte emprestou sua manifestação para a capital alagoana por manter um grande apreço pela arte em meios como jornais, posters, internet e palestras, onde pode ser visto e debatido com muita amplitude. Mabe também é pesquisadora e lida com os limites da documentação e construção, o que leva a mineira a participar ativamente de tudo que se propõe a fazer. Mabe Bethônico possui mestrado e doutorado em artes plásticas pelo Royal College of Art em Londres e mais de 20 trabalhos em exposições no mundo inteiro. Seu outdoor em Maceió traz a frase “Silêncio possibilita violência” e três fotos de cartazes retirados de protestos com as palavras: protestar, gritar e revoltar. Instalada há oito dias, a arte já rendeu assunto nas redes sociais. Ontem, a responsável pelo outdoor esteve numa live falando sobre a dificuldade que sentiu ao realizar o projeto. Segundo ela, eram tantas coisas para falar que foi difícil resumir uma série de questões que o Brasil vivencia. Apesar disso, ela contou que ficou muito feliz com o convite e ressaltou a importância do M.A.P.A. “Adorei o projeto. Achei de uma força e de uma relevância utilizar o espaço público nesse momento em que a gente está com dificuldade para acessar os espaços culturais coletivamente e nesse momento em que a gente está vivendo tantas crises em tantos níveis diferentes”, disse.

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*Sob supervisão da editoria de Cultura

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