loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 23/07/2026 | Ano | Nº 6273
Maceió, AL
25° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Caderno B

Caderno B

POESIA LEVA O NOBEL

Academia surpreende e premia americana Louise Glück com o prêmio Nobel de Literatura

Ouvir
Compartilhar
Imagem ilustrativa da imagem POESIA LEVA O NOBEL
| Foto: Divulgação

A Academia Sueca anunciou que poeta americana Louise Glück foi a vencedora do prêmio Nobel de Literatura deste ano, numa escolha surpreendente de um nome pouco cotado nas apostas para o troféu. A escritora de 77 anos, professora da Universidade Yale, nos Estados Unidos, já venceu prêmios importantes em seu país, como o Pulitzer, o National Book Award e a Medalha Nacional de Humanidades. Seus avós eram judeus que emigraram da Hungria, e ela foi a primeira de sua família a nascer no país americano. O comitê do Nobel apontou que Glück levou o prêmio por sua “voz poética inconfundível que, com beleza austera, torna universal a existência individual”. Para especialistas e apostadores no prêmio, era possível que um poeta ganhasse, o que não acontecia desde 2011, quando o laureado foi o sueco Tomas Tranströmer. Porém, era pouco provável que um americano levasse o prêmio mais uma vez, já que o músico Bob Dylan ganhou há apenas quatro anos. São temáticas importantes da obra da poeta a infância, a vida familiar e o confronto entre as ilusões e a realidade. “Mas mesmo que Glück não negue a importância do fundo autobiográfico, ela não pode ser vista como uma poeta confessional”, afirma o comitê sueco. “Ela busca o universal, e para isso procura inspiração nos motivos e mitos clássicos, presentes na maioria de seus trabalhos.” Glück publicou 12 coletâneas de poemas, assim como volumes de ensaios sobre poesia. Entre suas obras mais premiadas, estão “The Triumph of Achilles”, “Ararat” e “The Wild Iris”. Mas não há livros dela disponíveis no Brasil em tradução para o português. A escolha parece sinalizar uma pacificação após os anos mais tumultuados da história da premiação. Em 2017, um escândalo sexual fez tremerem as bases do comitê do Nobel e cancelou a entrega do prêmio no ano seguinte -foi a primeira vez que isso aconteceu por um motivo que não fosse uma guerra. O pivô foi o fotógrafo Jean-Claude Arnault, condenado à prisão pelo crime de estupro após 18 mulheres o acusarem numa reportagem do jornal sueco Dagens Nyheter. Ele administrava com a esposa, a poeta Katarina Frostenson, membro da Academia Sueca, uma fundação cultural que recebia dinheiro da própria instituição. O mesmo jornal fez a denúncia de que Arnault vazara informações sobre o vencedor do Nobel de literatura sete vezes em 20 anos. Vários integrantes da Academia se desligaram da instituição após a crise, incluindo Frostenson, levando à suspensão do prêmio por um ano. Na cerimônia do ano passado, já com a adição de novos membros, o Nobel fez uma escolha que soou como provocação aos críticos. Junto com Olga Tokarczuk, autora polonesa a quem foi concedido o troféu atrasado de 2018, anunciaram o nome de Peter Handke, escritor austríaco acusado de racismo e com notório posicionamento de negação do genocídio na Bósnia. A Academia Sueca, fundada há 232 anos pelo rei da Suécia para proteger o idioma nacional, seleciona o vencedor do Nobel de literatura desde 1901. Outras instituições escandinavas selecionam os outros prêmios Nobel. Dos 117 escritores escolhidos até hoje, apenas 16 foram mulheres, incluindo Glück. A única negra a vencer foi a americana Toni Morrison, morta no ano passado. Os únicos homens negros premiados foram o nigeriano Wole Soyinka, em 1986, e Derek Walcott, da caribenha Santa Lúcia, em 1992. O eurocentrismo também sempre marcou o Nobel de literatura e perdura ainda hoje. A maioria dos premiados da última década veio do continente europeu. A França lidera a lista de nacionalidades, com 11 premiados, seguida pelos Estados Unidos, com dez. O último deles havia sido Bob Dylan, outra das mais polêmicas escolhas do comitê sueco -já que o cantor e compositor é mais conhecido por suas músicas que pela autoria de livros. O diálogo da escritora com um representante da premiação permite vislumbrar o estado de espírito do ganhador do troféu litérario mais cobiçado do planeta. No caso de Glück, um estado com o qual muita gente pode se identificar. Na conversa, ela - que nem café tinha tomado ainda - conta ter medo de perder os amigos, também escritores, por causa da honraria, e que pretende comprar uma casa com o dinheiro recebido. O significado de um Nobel? “Não tenho ideia”, disse. Veja abaixo a transcrição da conversa divulgada pela Academia Sueca Nobel:

Bom dia. Aqui é Adam Smith ligando do Prêmio Nobel... Estou falando com Louise Glück?

Louise Glück: Sim, mas estamos sendo gravados? Porque realmente não estou em condições.

Nobel: Juro que não vai ser nada demais. Você se importaria se gravássemos por dois ou três minutos?

Shorts Youtube
Play
Mãe é presa após filha de 10 anos ser encontrada sozinha em Arapiraca

Mãe é presa após filha de 10 anos ser encontrada sozinha em Arapiraca

Play
Dupla invade residência em Arapiraca; morador reage e consegue imobilizar um dos suspeitos

Dupla invade residência em Arapiraca; morador reage e consegue imobilizar um dos suspeitos

Play
Pet desaparecido: envie uma foto do animal para a TV Gazeta

Pet desaparecido: envie uma foto do animal para a TV Gazeta

Play
Operação Face Dupla: suspeitos de violência sexual contra crianças e adolescentes são presos

Operação Face Dupla: suspeitos de violência sexual contra crianças e adolescentes são presos

Play
Acidente na Fernandes Lima deixa trânsito lento

Acidente na Fernandes Lima deixa trânsito lento

Glück: Não me importo, mas eu realmente preciso tomar um café ou alguma coisa agora. Dois minutos.

Nobel: Você é muito gentil. Muito obrigado. Nesses dois minutos, posso perguntar o que o Nobel significa para você?

Glück: Não tenho ideia. Meu primeiro pensamento foi: não vou ter mais nenhum amigo, porque todos os meus amigos são escritores. Então pensei: não, isso não vai acontecer. É muito recente, você sabe. Não sei o que isso significa, não sei se... Quero dizer, é uma grande honra. E é claro que há laureados que eu não admiro. Depois eu penso naqueles que eu admiro. Alguns deles muito recentes. Acho que, em termos práticos, gostaria de comprar uma casa em Vermont (estado no nordeste americano). Tenho um apartamento em Cambrigde (onde vive, nos Estados Unidos). Pensei: bem, posso comprar uma casa. Mas o que mais me preocupa é preservar o meu dia a dia, com as pessoas que eu amo.

Nobel: Pode ser invasivo.

Glück: Perturbador. O telefone não para de tocar. Está tocando agora mesmo.

Nobel: Para os que não estão familiarizados com o seu trabalho...

Glück: Muitos...

Nobel: Você recomendaria começar por onde?

Glück: Não sei, porque os livros são muito diferentes uns dos outros. Sugeriria que não lessem meu primeiro livro, a não ser que queiram sentir desprezo. Depois desse, acho que todos os outros têm algo de interessante. Gosto dos meus trabalhos recentes. Talvez “Averno” seja um bom começo, ou meu último livro, “Faithful and Virtuous Night”.

Nobel: (Nos seus livros) é dado muito foco no momento, no valor da experiência. O quão importante é a experiência de vida para poder falar sobre determinados eventos?

Glück: Ó, ceus! Essa é muito grande, e é muito cedo aqui. Mal passou das sete da manhã. Há coisas a serem ditas. E tenho certeza de que teria algumas ideias a respeito.

Nobel: É uma característica tão própria do seu trabalho que imaginava que você... Mas podemos falar disso outro hora.

Glück: Os dois minutos já acabaram?

Nobel: Sim. Você já sofreu o suficiente. Desculpe, e parabéns mais uma vez.

Relacionadas