Caderno B
BOCA DE OURO
Atualizado por Daniel Filho, filme é Nelson Rodrigues mais pop e menos dramático
“Boca de Ouro”, pelas mãos do diretor Daniel Filho, que começou ator, tem muito do que Nelson Rodrigues pedia nas encenações e nos filmes baseados em suas peças. Antes de mais nada, procura seguir o texto. Mais importante, o dramaturgo identificava no seu teatro alguns componentes que sempre cobrava, como o patético, o humor e até o mau gosto. A nova adaptação tem todos, explora os diálogos do dramaturgo nas três frentes. Não é teatro filmado, que voltou a interessar nesta pandemia, mas não está longe. Daniel Filho, sempre mais relacionado às novelas com suposto padrão de qualidade, cresceu nas coxias da praça Tiradentes e estava no elenco do primeiro filme de “Boca de Ouro”, como Leleco, contracenando com Jece Valadão. Sua arte de origem é aquela mais popular. Este não é o Nelson Rodrigues do diretor Antunes Filho, que buscava a essência mítica –e o mínimo de texto– nas peças, mas não é menos efetivo no apuro da interpretação, ainda que em vertente mais cômica. O melhor está na interação imediata dos atores, por exemplo, no contraste entre a ameaça intermitente de violência e o disparo do riso. Algumas das tiradas, das “one-liners” mais memoráveis do dramaturgo-jornalista são cuidadosamente preparadas e lançadas, com grande efeito. Marcos Palmeira (Boca), Lorena Comparato (Celeste) e outros abordam seus personagens sem constrangimento com os excessos folhetinescos ou as contradições, nas três diferentes narrativas. Guilherme Fontes (Agenor) e Malu Mader (Guigui), em especial, ressurgem como comediantes, histriônicos, de amplitude bem maior do que se supunha. É um Nelson Rodrigues carioca, praça Tiradentes, como aqueles espetáculos que o autor assistia na juventude, antes de começar a ler Eugene O’Neill ou Ibsen. O pano de fundo é, como próprio do dramaturgo, o adultério, em meio a figuras do subúrbio e da Zona Sul, do jogo do bicho e do jornalismo policial. Quando sai do embate direto entre os atores, em ambientes fechados ou quase, este novo “Boca” carrega nas referências, dos planos-sequência “noir” à violência estetizada, com jatos de sangue vermelho. Torna-se mais acessível, pop, mas perde envolvimento dramático e mesmo cômico. Cenas inteiras se tornam intervalos de ação hollywoodiana, sem integração adequada. Palmeira compõem um Boca de Ouro um pouco diferente do que se costuma ver, mais pegajoso do que sedutor, mas seu domínio cruel e irreverente sobre os demais personagens, a cada cena, é das melhores coisas do filme. Prepara a tragédia.
SINOPSE
Anos 1960. Boca de Ouro (Marcos Palmeira) é um criminoso que, ainda bebê, foi abandonado pela mãe, a líder de uma quadrilha de tráfico de drogas, no banheiro de uma gafieira. Ao crescer ele manda arrancar todos os seus dentes e colocar no lugar outros feitos de ouro. Ele também cultiva o sonho de ser enterrado num caixão de ouro. Designado para descobrir a verdadeira história do marginal, o repórter Caveirinha decide entrevistar sua ex-amante, que conta diferentes versões da vida do bicheiro.