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Caderno B

ÁFRICA BRASIL

Jorge Ben e impacto de sua guitarra elétrica na cultura brasileira dominam livro que disseca álbum do artista

Por MARINA LOURENÇO/ FOLHAPRESS | Edição do dia 17/11/2020 - Matéria atualizada em 16/11/2020 às 22h21

Foto: : Divulgação
 

Expor detalhes da vida pessoal a jornalistas, ou até mesmo a amigos íntimos, não parece ser o tipo de atividade que interessa muito a Jorge Ben Jor, pelo contrário. Mesmo tendo influenciado de modo direto alguns dos maiores movimentos culturais do Brasil, sobretudo o tropicalismo, o artista carioca tem uma vida reservada e rodeada de mistérios, assim como têm aqueles a que ele se dedica a estudar e a retratar em muitas de suas canções -os alquimistas. A quantidade de entrevistas dadas pelo músico é até bem baixa se comparada a de outros artistas brasileiros com níveis de fama semelhantes. Não é tão simples o convencer a falar sobre sua vida. No entanto, a jornalista Kamille Viola, que pesquisa sobre o músico há mais de uma década, o entrevistou na pandemia para escrever “África Brasil: Um Dia Jorge Ben Voou para Toda a Gente Ver”, livro recém-lançado pela coleção “Discos da Música Brasileira”, do Sesc.

A obra traz a história do álbum “África Brasil”, de 1976, um marco tanto na carreira de Jorge quanto na música brasileira. A autora narra alguns dos principais momentos do músico e traz entrevistas com pesquisadores, artistas e até mesmo craques do futebol. Nomes como Zico, Mano Brown, Gilberto Gil, Marcelo D2, BNegão, Gustavo Schroeter, Lúcio Maia, Jorge Du Peixe e Dadi comentam no livro a importância do artista e do disco no país. Ao lado de “A Tábua de Esmeralda”, de 1974, e “Solta o Pavão”, de 1975, “África Brasil” faz parte da tríade mística do artista, conhecida por retratar o universo da alquimia, uma de suas grandes paixões. A obra é também o seu 14º álbum, vendeu cerca de 60 mil cópias quando lançada e aparece em “1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer”, de Robert Dimery. Mas não é exatamente nenhuma dessas características que torna “África Brasil” um clássico da música brasileira. É neste álbum que Jorge dá adeus ao violão para assumir de vez a guitarra elétrica, instrumento que, aliás, foi alvo de protestos na década anterior. Logo na primeira faixa, “Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)” é possível notar o som rasgado da guitarra acompanhado pelo batuque do samba e por fortes influências do soul e do funk dos Estados Unidos da época. Trazendo uma sonoridade única com cuíca, tambores, instrumentos de percussão cubana e de sopro -além do som eletrificado da guitarra, é claro-, o disco passa por assuntos como futebol, amor, Idade Média, alquimia, diáspora africana, negritude e infância. Viola define a obra como “um bom panorama dos temas mais recorrentes do universo jorgebeniano”. É em “África Brasil” que o artista aumenta sua fama de diversidade musical e talento promissor, que já vinha há anos ganhando destaque. No livro, a autora mostra que Chris Blackwell, fundador da gravadora Island Records -responsável por revelar Bob Marley ao mundo com o disco “Catch a Fire”-, tentou na década de 1970 fazer de Jorge uma grande revelação mundial, mas só não teve o desejo totalmente concretizado porque o próprio artista não demonstrou tanto interesse. O disco “África Brasil” é ainda um dos precursores do cantar falado, que viria futuramente a ser muito usado pelo rap brasileiro, e uma ruptura da ideia de democracia racial no país. Embora Jorge já tenha sido diversas vezes definido como “um músico alienado” por artistas e críticos musicais, o livro mostra que grande parte de sua obra é inteiramente voltada a exaltar a identidade negra e povos africanos. A última faixa de “África Brasil” traz uma versão de “Zumbi” -com uma letra cheia de referências ao período escravocrata brasileiro- marcada por um vocal ravioso que chega a quase convocar os negros a se unirem para uma revanche.

São muitas as canções em que o músico faz referências explícitas à beleza negra, à diáspora africana, à África -sobretudo mulçumana- e a suas musas negras, das quais a mais famosa é, sem dúvida, Tereza. Mas mesmo assim, há quem o critique pela ausência de um embate mais direto. Segundo Viola, essa percepção não passa de racismo. “Muitas vezes as pessoas são racistas até quando o tentam elogiar”, diz ela. “Falam que ele é um gênio e nasceu com um dom divino. E excluem, assim, toda a intelectualidade por trás de suas obras.” “Até hoje há quem o considere despolitizado, é um absurdo. Precisamos reconhecer que ele sempre tocou na questão racial. Foi ele, aliás, quem parou de retratar a mulher negra como um objeto sexual, e a mostrou como alguém digno de ser amado. Isso é bem revolucionário. Ele ajudou a construir um imaginário positivo sobre o negro no Brasil.” O músico, filho de mãe instrumentista e pai compositor e ritmista, teve contato com o universo artístico logo cedo. Quando criança já tocava surdo no Cometas do Bispo, banda que seu pai integrava, e participava de eventos na Salgueiro. Aos 13 anos, aprendeu a tocar pandeiro. E, na adolescência, ingressou num seminário católico, onde teve contato com a música sacra e aulas de canto, órgão e piano. Foi revirando informações sobre o seu passado que Viola encontrou alguns enigmas que reforçam a onda misteriosa por trás de um dos maiores nomes da música brasileira. Um deles é a idade de Jorge. Atualmente, ele afirma ter nascido no dia 22 de março de 1945, contudo em 1963 ele dizia ter 21 anos -assim, teria que ter nascido em 1942. Mas a autora do livro encontrou sua provável certidão de nascimento e a data registrada é 22 de março de 1939, ou seja, ele teria hoje 81 anos.

A questão da idade parece ser muito relevante para o artista, que já chegou até a brigar com Tim Maia, que era um de seus amigos mais próximos, depois de saber que o músico fez piadas com o assunto no antigo programa de Jô Soares, da TV Globo. Viola narra também os bastidores das principais polêmicas nas quais o carioca se envolveu, como o processo que levou pela música “Filho Maravilha” -na época, com o nome “Fio Maravilha”- com uma letra homenageia o então jogador de futebol João Batista de Sales, e as coincidências entre “Da Ya Think I’m Sexy?”, de Rod Stewart, e “Taj Mahal”, que geraram uma série de discussões sobre plágio musical. O livro traça ainda semelhanças entre Jorge e o período medieval, principalmente pela sua relação artística com o trovadorismo. Vocais dramáticos -com melismas árabes-, letras de amor platônico -muitas vezes, por uma musa inatingível- alquimia, príncipes, princesas, reis, rainhas e guerreiros -geralmente, todos negros- são destaques na obra do músico. “O Mano Brown me disse que quando ouvia Jorge na juventude sonhava com tudo, desde Nova York até a Idade Média, enquanto estava no Capão Redondo”, disse a autora. “É isso que o Jorge faz. Ele deixa as pessoas sonharem. E, no livro, tentei mostrar sua importância para os negros, a arte e o Brasil.”

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