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Nº 0
Caderno B

ACORDA E SAMBA!

Arapiraquenses lançam 'Povo Brasileiro', música que põe o Brasil em perspectiva, do 7x1 ao bolsonarismo

Por Maylson Honorato | Edição do dia 21/11/2020 - Matéria atualizada em 21/11/2020 às 02h40

Clipe da música de Janu Leite e Paulo Franco atualiza a animação "Ícaro: não vai ter copa", de Siloé Oliveira
Clipe da música de Janu Leite e Paulo Franco atualiza a animação "Ícaro: não vai ter copa", de Siloé Oliveira - Foto: Reprodução
 

Enquanto Darcy Ribeiro, no livro “O Povo Brasileiro”, condensa em suas páginas os séculos de intervenções e mecanismos que formaram os Brasis que constituem o Brasil, o artista arapiraquense Janu Leite sintetiza - em faixa recém-lançada e acidentalmente homônima - os últimos cinco anos de um Brasil que mudou - ou se revelou. Segundo ele, esses anos foram cruciais para definir o “brasil” no qual vivemos atualmente. Com a música, o cantor e compositor tenta responder a mesma pergunta que o antropólogo tentou responder anos atrás: por que o Brasil não deu certo?

A música “Povo Brasileiro”, já disponível em todas as plataformas digitais, é uma provocação corajosa e um lamento acerca do “ser brasileiro” em 2020. Janu diz que viu com espanto e incredulidade o país mudar completamente nos últimos cinco ou seis anos, tendo como marco inicial a Copa do Mundo de 2014. De lá para cá, o que ele diz observar é uma subversão dos símbolos e cores nacionais em bandeiras políticas radicais, um diálogo impossível de lideranças políticas com o povo, olhares cada vez mais tristes ou assustados nas ruas e um futuro incerto, mas sempre pendendo para a desigualdade, a exclusão, o medo e o autoritarismo. Por essas observações, Janu pergunta várias vezes durante a música: ei, meu povo brasileiro, vem cá, me diz ligeiro, quando foi que tu parou de sambar?

“Eu tava produzindo músicas mais cabeçudas nos últimos tempos, com duplos sentidos, complexas, mas este ano eu consegui parar e absorver mais a música popular e sua simplicidade, e fui por um caminho mais direto, que se comunica mais com o povo”, conta o artista, que assina a composição ao lado de Paulo Franco, que também produziu a música.

“Indo para um lado mais político, a esquerda falhou muito nesse ponto, de se comunicar com o povo. Enquanto muita gente estava precisando de comida, trabalho e emprego, a esquerda se ocupava mais discutindo como pronunciar ‘todes’ - que é importante, mas não correspondia ao momento”, completa o artista, enquanto explica que seu som não quer fomentar a continuidade de uma disputa entre as torcidas verde e amarelo ou vermelho. Pelo contrário, a canção é sim uma crítica dura às artimanhas da direita brasileira - que, segundo o artista, envenenou a democracia por não aceitar a derrota nas urnas - mas é uma chamada para que todos olhem o que estamos perdendo e promovendo enquanto prolongamos essa guerra de narrativas: fome aumentando, miséria, apagão cultural (e até literal).

“A extrema direita se apossou da nossa bandeira, das cores do Brasil, se apossaram. Perguntaram se o cão no cio que eu menciono na música é o Bolsonaro, mas não é. Para mim, é o pensamento fascista. Mas é claro que o fascismo encontrou muito mais liberdade no representante atual, isso é inegável. Mas a mensagem é para que o povo brasileiro não se entregue a esse discurso, a essa ideia de que ser patriota é cultivar ódio, diferenças e aprofundar as desigualdades que já são tão profundas no nosso país”, diz.

Janu é um músico experiente, com um EP e um disco lançados, parcerias de sucesso com bandas e artistas locais e até de projeção nacional. Dedicado ao ofício de artista, ele conta que foi durante o isolamento, decorrente da pandemia do novo coronavírus, que ele resolveu mudar o rumo da sua carreira e até o jeito de se comunicar com as pessoas em suas composições. O single "Povo Brasileiro”, lançado no dia 12 de novembro, simboliza também essas mudanças pessoais.

“Eu tô trabalhando em um novo álbum durante toda a quarentena, apesar de ter começado ainda no ano passado. Mas a pandemia mudou alguns dos meus conceitos. Eu fui aprendendo sobre produção, fui estudar, misturar sons”, conta Janu sobre o novo álbum, que também é uma investigação antropológica e se chama “Miolo do Oxente”.

UM NOVO BRASIL

Animação que virou clipe discute miséria e paixão brasileira pelo futebol
Animação que virou clipe discute miséria e paixão brasileira pelo futebol - Foto: Reprodução
 

Além da música, o novo trabalho de Janu Leite chegou acompanhado de um clipe, uma reedição da animação “Ícaro: não vai ter copa”, de Siloé Oliveira, lançado no ano em que o Brasil sediou o mundial. De acordo com o músico de Arapiraca, ele encontrou a animação quando buscava referências para um clipe, depois que a faixa já estava pronta. “Casou perfeitamente”, diz.

O curta é uma alegoria que expunha o conflito entre os custos gigantescos da Copa do Mundo e a situação de miséria e exclusão de parcela significativa da população brasileira. Além da provocação pragmática, o filme ainda coloca na roda a paixão dos brasileiros pelo futebol.

“Quando eu estava buscando referências eu me deparei com esse curta e coloquei a música por cima, foi um casamento perfeito, bateu na aorta. Falei com o autor e ele me disse que sentiu a mesma coisa que eu, o filme estava atualizado. Porque os problemas do Brasil podem ter começado naquela época, mas se arrastam até aqui”, diz Janu, que relembra o fatídico 7 a 1 como o saldo da Copa do Mundo de 2014.

“Sendo bem grosso, a gente não precisava da Copa. Em retrospectiva, teve os vinte centavos, teve a Globo inflamando o discurso contra o Lula, mas me parece que o Brasil chegou nessa situação depois do 7 a 1. Parece que depois daquele jogo, daquela frustração, o brasileiro esqueceu do Brasil, do samba, do próprio futebol. O futebol é um símbolo forte demais para o Brasil, então foi um trauma que engatilhou muita raiva, a raiva que a gente ainda hoje vê pelas ruas.”

Além do clipe que resgatou a animação de Siloé Oliveira, Janu prepara um clipe oficial, produzido em Arapiraca. Para gravar, ele vestiu, pela primeira vez desde que o Brasil perdeu a Copa e as cores nacionais se tornaram símbolos políticos, uma camisa verde e amarelo.

“Comprei uma blusa por 10 reais. Senti um certo ranço, um sentimento que não deveria ter. Eles conseguiram subverter até isso. E a gente precisa resgatar esse amor por essa camisa, pela bandeira brasileira, ninguém é dono dessas cores. Conseguiram subverter até a ideia de ser patriota, como se ser patriota fosse ser esse ‘cidadão de bem’ armamentista”, reclama.

“Estamos entrando em uma nova década e temos a chance de ser um novo Brasil. Quem sabe essa derrota do Trump não é o começo da esperança de que os extremistas no mundo logo deixarão o poder. O novo Brasil que eu quero é um país livre desse ódio, livre de extremos à esquerda ou à direita, um Brasil que retome o diálogo”, finaliza Janu.

Confira o clipe de "Povo Brasileiro", de Janu Leite e Paulo Franco:

 

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