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UM AGENTE DA LIBERDADE NO CENTRO DA CAPITAL

Alagoas se despede de Gesivan Rodrigues Gouveia, dono da mais tradicional banca de revistas de Maceió

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Imagem ilustrativa da imagem UM AGENTE DA LIBERDADE NO CENTRO DA CAPITAL
| Foto: Reprodução

Nos últimos 60 anos, Gesivan Rodrigues Gouveia foi o anfitrião dos maceioenses que procuravam um refúgio para ter boas conversas e adquirir jornais e revistas. Mais do que proprietário da Banca de Revistas Nacional, uma das mais tradicionais bancas da capital alagoana, ele era um defensor da liberdade de imprensa e da democracia, que fez do trabalho de vender jornais uma missão. Gesivan faleceu na madrugada de sábado, 26 de dezembro de 2020, devido a problemas cardíacos.

Sempre bem abastecida, a Banca de Revistas Nacional, que fica na Praça do Montepio, no Centro, sempre foi uma referência para leitores de várias camadas sociais, mas notabilizou-se entre 1970 e 1980 pela especial clientela de intelectuais, artistas e políticos. Além disso, acabou se tornando um ponto de resistência durante os anos de chumbo, quando o regime militar tentou censurar a imprensa em todo o Brasil.

Filho do estivador João Rodrigues Gouveia, Gesivan começou ainda criança a trabalhar e a explorar o Centro de Maceió. Quando o pai se aposentou, ele se viu obrigado a vender angu para contribuir com a renda da família, que residia no bairro Vergel do Lago e era composta por ele, os pais e mais onze irmãos.

Já trabalhando na banca de revistas, Gesivan se destacou pela resistência ao autoritarismo e, claro, pelo excelente serviço de jornaleiro que prestou à sociedade maceioense desde 1960. Durante o regime militar, a Nacional passou a ser o ponto de encontro dos leitores do semanário Pasquim, que sempre estava sujeito a apreensões pela Polícia Federal. Na banca de Gesivan, formavam-se rodas de conversa em que se discutia a censura.

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Em depoimento à Comissão da Verdade dos Jornalistas, Gesivan lembrou que os agentes chegavam, prendiam os jornais e o levavam para a Polícia Federal, que ficava no Mirante de São Gonçalo.

No início dos anos 80, a ditadura já estava enfraquecida, mas continuava a tratar os jornais da chamada imprensa alternativa como inimigos. Bancas de revistas passaram a sofrer atentados em todo o País. A Banca Nacional foi danificada com uma tentativa de incêndio, mas continuou expondo os tabloides de oposição. Graças ao apoio das organizações que lutavam contra a ditadura, manteve-se como um dos poucos que vendeu do primeiro ao último exemplar do Pasquim.

“Houve uma época que houve quebra-quebra de banca. Naquela época houve um movimento muito forte por aqui. O Aldo Rebelo se juntou com o pessoal do PCdoB e fez um movimento aqui, que reuniu muita gente. Era contra a Ditadura, que estava incendiando as bancas. Eu recebi várias ameaças, mas o movimento em apoio a minha banca fez baixar a pressão. Mas tentaram incendiar. Eles também vinham e arrancavam os cartazes que eu colava, mas depois do ato eles não vieram mais aqui”, contou Gesivan.

Aldo Rebelo lembra do movimento e do momento pelo qual o país passava na época. Para ele, a Nacional prestava um serviço aos alagoanos ao distribuir as publicações que alguém não queria que fossem lidas.

“As bancas de revistas que vendiam determinados jornais foram atacadas no Brasil inteiro. Algumas, infelizmente, chegaram a ser incendiadas. Em Alagoas, aliás, em Maceió, a banca do Gesivan era a única que vendia o jornal Movimento e o O Pasquim. Ele sofria ameaças constantes”, relata o ex-ministro.

“Foi aí que organizamos um movimento de protesto contra essas ameaças e de apoio ao Gesivan. Éramos apenas estudantes na época”, lembra Aldo Rebelo. “Edberto Ticianeli, Mário Agra, Renan Calheiros, Tais Normande, todos estudantes. Esse pessoal todo organizou o movimento de apoio ao Gesivan.”

Para Rebelo, Gesivan Rodrigues cravou seu nome na história de Maceió, tanto como personagem da cena urbana do centro da capital, quanto como alguém que viveu em dedicação àquilo que acreditava.

“O Gesivan era um proprietário de banca que tinha convicções políticas. Não era um comerciante. Era movido pela ideia de que vender jornais e revistas era uma causa. A causa da democracia, da liberdade”, diz.

“Por isso ele aceitava correr riscos, se expunha a ser ameaçado, perseguido. Deve ser considerado não apenas um proprietário, mas uma personalidade da luta democrática de Alagoas. Deve ser reverenciado como um homem de convicções em defesa da liberdade e da democracia. Merece nossas homenagens e viver na lembrança daqueles que defendem a liberdade”, conclui Aldo Rebelo.

RELAÇÃO COM A GAZETA DE ALAGOAS

O veterano jornaleiro considerava a Gazeta de Alagoas uma espécie de termômetro, que mede a importância das principais notícias de Alagoas. Segundo ele, sua relação com o jornal era excelente. “Ela é amiga da gente, amiga de todos. Vendo todos os 365 dias do ano, feriado e tudo mais”, declarou na ocasião dos 80 anos do jornal.

Como um exímio dono de banca de jornal, ele disse que lia de tudo, mas atentou que o que mais circula entre os leitores é a Gazeta de Alagoas. “São muitos anos de inúmeras histórias, que passaram e passam por ele.”

Mesmo estando do lado de quem faz os fatos chegarem aos cidadãos, o jornalista e editor-chefe do jornal Gazeta de Alagoas também era um cliente do Gesivan.

“Gesivan era simpatia em pessoa. Recebia todos os clientes com fidalguia, gostava de dialogar sobre os mais diversos temas abordados por suas revistas e jornais, e facilitava na hora do pagamento, aceitando o famoso ‘fiado’, e aceitava encomendas. Meu nome estava na caderneta dele. Pagava o pendura a cada fim de mês. Com muita gente era assim”, recorda.

“Eu costumada passar por lá com meus filhos menores a cada fim de semana. Os meninos levavam revistinhas da Disney e do Maurício de Souza e eu, gibis como Tex e Conan, e revistas de informática e astronomia, as minhas preferidas, além de jornais do Sul, como o Globo e Folha de São Paulo. Era uma delícia ficar dentro de sua banca olhando as novidades. Infelizmente, o avanço da tecnologia da informação abalou um bocado os negócios do Gesivan, mas ele resistia bravamente. Era uma referência. Alagoas perdeu uma pessoa ímpar. Ele merece todas as nossas homenagens”, conclui o experiente jornalista.

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