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Caderno B

CONTRA MIM

Valter Hugo Mãe escreve na pandemia sobre infância, racismo e democracia

Por Editoria de Cultura com Folhapress | Edição do dia 12/01/2021 - Matéria atualizada em 11/01/2021 às 23h21

Valter Hugo Mãe pedia há anos por um milagre que o deixasse ficar mais tempo em casa. Mas nem a imaginação deste escritor português nascido em Angola e que já ganhou os prêmios Saramago e Portugal Telecom –atual Oceanos– poderia prever que seu pedido fosse atendido por uma tragédia “tão grande e universal”.

Pois que, obrigado a ficar em Portugal o ano todo de 2020, Hugo Mãe se pôs a trabalhar recolhendo, unindo e reescrevendo retalhos de memórias já escritas para compor o livro “Contra Mim”, que chegou às livrarias brasileiras dias antes do Natal.

O romance, o mais pessoal do autor de “A Máquina de Fazer Espanhóis”, conta histórias de sua infância e adolescência. Hugo Mãe diz que encarou o livro como um espelho, “para olhar dentro e entender se encontro ainda o sentido ou não”.

“Estivemos, e seguimos estando, desafiados na pura sobrevivência, e isso impõe resistência que, no caso específico, passa pela força mental e identitária”, diz o escritor sobre a pandemia e sobre ter sentido que era um convite a uma introspecção profunda. “Vamos querer sobreviver sem perdermos a lucidez.”

Ele, que completa 50 anos em 2021, conta que o ano passado foi a terapia mais importante de sua vida. O milagre que solicitava, para ficar em casa, era para que desse conta de uma espécie de crise, pela qual se encontrava fisicamente debilitado, sofrendo de ansiedade, com rejeições alimentares e enxaquecas frequentes.


***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 16.06.2019: Entrevista com o escritor português Valter Hugo Mãe, em São Paulo (Foto: Karime Xavier/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 16.06.2019: Entrevista com o escritor português Valter Hugo Mãe, em São Paulo (Foto: Karime Xavier/Folhapress) - Foto: Karime Xavier/Folhapress
 

Os relatos dos pequenos lances de memória que tem de Angola, de onde saiu ainda muito criança, e de uma infância no interior de Portugal logo após a Revolução dos Cravos misturam humor com reflexões poderosas sobre racismo e o fim da ditadura.

Há parentes mais ou menos estranhos ou misteriosos, como a avó que teve 21 filhos e que nunca falava com Hugo Mãe criança, e há uma violência na escola, palmadas, ameaças, reguadas, que pode chocar o leitor acostumado à pedagogia que hoje viceja.

“O que conto no meu livro faz parte daquelas verdades históricas que custa crer venham ainda de há tão pouco tempo”, diz o escritor. “Somos facilmente acostumados com as mudanças, sobretudo as que nos trazem maior liberdade e bem-estar, e tendemos a esquecer rápido e achar que certas coisas são de uma qualquer pré-história.”

Ele diz ser importante lembrar que há poucas décadas a escola era assim, “não porque as pessoas vivam hoje marcadas por isso, mas porque, esquecidas disso, tomam decisões que arriscam voltar às consciências persecutórias e torpes de antigamente”.

Segundo Hugo Mãe, consciências ultraconservadoras e puritanas, que nasceram na ditadura, ainda acreditavam em sociedades essencialmente punitivas e discriminatórias. “Haverei sempre de vociferar contra saudades de qualquer ditadura, à esquerda ou à direita”, diz ele.

“Não tolero senão a democracia, com todas as suas deficiências. Populistas extremistas, imbecis e bobões, que nem sequer sabem articular, não respeito. Nem que a maioria vote.”

Segundo Hugo Mãe, maiorias já foram capazes de votar nas maiores atrocidades da humanidade e a agressão à democracia é sempre atrocidade. “Maioria não cura isso.”

As palavras mais ternas de “Contra Mim”, porém, são usadas para falar da mãe do escritor e para descrever a descoberta da escrita e da literatura. Numa das passagens, quando o personagem-autor estava na idade de começar a escola, ele conta que sua mãe adorava cantar e que, num retrato de juventude, lembrava Elis Regina.

Hugo Mãe conta que seu contato com a música brasileira se deu, primeiro, com clássicos da MPB e, depois, com o rock dos anos 1980. Graças a um amigo que chegou do Brasil quando o escritor tinha 17 anos, ele ficou “entre Legião Urbana e Titãs insistentemente”.

Ele cita vários músicos brasileiros que ouve, entre os quais Caetano Veloso, Chico Buarque, Maria Bethânia, Ney Matogrosso, Chico César, Marisa Monte, e “deusa Elza e deus Cartola”.

“É infinita a música brasileira de tão incrível. Sabe que me comove como se ouve música brasileira em países como o Japão?”, diz ele. “No Japão, se você quiser ser muito chique, você toca o maravilhoso Gilberto Gil e toda a gente fica com mais dez centímetros. Fica tudo mais perto do sol.”

Relutante, com medo de ir à escola, Hugo Mãe criança se esconde no mato nos primeiros dias de aula. Aceita, porém, enfrentar as ofensas e petelecos generalizados dos bancos da educação em troca de aprender a escrever, oportunidade que já vislumbrava ser determinante em sua vida.

“Ainda vivo nessa maravilhada expectativa de transformar a palavra na coisa que significa”, diz ele sobre sua relação com a palavra. “Quero que o texto não diga simplesmente, mas seja. Quero que seja o que diz. É minha loucura de doente pelas palavras.”

Hugo Mãe participa nesta terça (12), às 19h de Brasília, do Encontro de Leituras, do jornal Folha de S. Paulo, no qual conversa com leitores sobre “Contra Mim”. O evento é gratuito e livre, via Zoom.


CONTRA MIM

Preço: R$ 54, 90 (256 págs.)

Autor: Valter Hugo Mãe

Editora: Biblioteca Azul

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