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Caderno B

UM HOMEM DE TEATRO

Artistas se despedem de Lauro Gomes, o mineiro que transformou o fazer teatral em Alagoas ao lado de Linda Mascarenhas

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Imagem ilustrativa da imagem UM HOMEM DE TEATRO
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“Ele não era alagoano, era mineiro, era mais para um carioca. Mas também era cidadão honorário de Maceió. O fato é que ele sabia lidar com essa diversidade de uma maneira impressionante. Era uma figura cuja ausência estará presente o tempo todo. Mas, enquanto ele esteve aqui, foi uma presença estimuladora, criativa, que estimulava a convivência, a civilidade, era um reunidor” - é assim que Ronaldo de Andrade, ator, professor de teatro e presidente da Associação Teatral de Alagoas (ATA) lembra de Lauro Gomes, radialista, produtor musical, dramaturgo e diretor de teatro, que faleceu no dia 12 de março, aos 83 anos, no Rio de Janeiro, onde tratava um câncer no cérebro.

A declaração de Andrade vem acompanhada de uma série de lembranças que envolvem Lauro Gomes, memórias preciosas de um tempo em que o teatro em Alagoas, comandado por Linda Mascarenhas, atingia o grande público de maneira singular. Esse mesmo teatro alagoano, conta Ronaldo, não seria o mesmo sem Lauro Gomes.

A relação de Lauro com Alagoas começa em 1971, por meio de Linda Mascarenhas. Os amigos José Márcio Passos e Homero Cavalcante, atores, diretores e dramaturgos, contam como Lauro Gomes chegou ao teatro alagoano.

“Tivemos um ator em Alagoas, que era mais declamador, Lauro Barros, ele frequentava a casa de Linda Mascarenhas, que era uma oficina de teatro. A Linda desejava muito montar a tragédia grega, Fedra, de Racine. O Lauro Barros disse a Linda que tinha um amigo, ia dar o endereço e telefone, era o Lauro Gomes”, revela o viçosense José Márcio Passos.

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“Linda foi ao Rio, telefonou para Lauro e se encontraram. Lauro sugeriu que Linda fizesse Hipólito, de Eurípedes, de onde Racine tirou o texto. Linda montou Fedra, interpretada por sua sobrinha, Sônia Melo. Ela percebeu que Lauro tinha muita competência com o fazer teatral e o convidou para Maceió. Ele trouxe o Aylton Escobar, como grande regente, e foram para a casa de Linda. Até hoje, o Aylton Escobar diz que Hipólito, de Maceió, foi a melhor composição dele, de trilha sonora, para a ATA. Inclusive, tenho um amigo que é músico, participou e disse que foi a maior oficina de direção musical que teve”, continua.

“A montagem de Hipólito foi um grande espetáculo. Tinha músicos da Polícia Militar, harpa, piano, improviso, uma coisa extraordinária. É quando começa a colaboração de Lauro, como diretor, no sentido de modernização e inovação no teatro de Maceió. Trazer um sopro novo, de mudança, dando a continuidade que o próprio teatro se encarrega de fazer, evoluindo. O Lauro fez o que Verdi executou com a ópera, não existia estereofônico e o Verdi espalhava instrumentos e músicos pelo teatro para sentir a música indo e voltando. O Aylton Escobar e o Lauro tiveram a ideia de espalhar o coro do Hipólito pelo Teatro Deodoro. Lauro também mostrou a possibilidade dos artistas entrarem em cena por outros espaços, existia a interatividade entre os artistas e a plateia, que colaborava com falas. Isso é uma marca do Lauro Gomes como diretor”, completa Homero Cavalcante.

Imagem ilustrativa da imagem UM HOMEM DE TEATRO
| Foto: Acervo pessoal

Teatro de participação e vanguarda

De acordo com Ronaldo de Andrade, em ‘Hoje é dia de rock’ o teatro alagoano se aproximava do teatro moderno brasileiro. Entre as novidades estavam: a quebra da quarta parede; mais liberdade para a interação dos atores com o público; coreografias; e uma saída atrasada do chamado teatro de gabinete.

“Na época [1971], eu estava ingressando na ATA. Fui percebendo como a Associação funcionava até a chegada do Lauro e como passou a ser a partir dele. Percebi que a ATA estava terminando um ciclo de ação nos moldes daquilo que se fazia desde a década de 1940. Era um respeito imenso ao texto, seguindo convenções de interpretação e encenação formais. Havia regras muito duras. Até a maneira de impostar a voz era determinada em um congresso”, revela Ronaldo de Andrade.

“Mas aí chega Lauro. Foi um impacto muito grande. Ele quebrou toda essa história da quarta parede aqui, espalhou personagens pelo teatro, foi um grande burburinho na cidade”, conta.

“Com isso, ele começou a implementar, sem falar nada previamente, o que ele teorizava e que depois me ensinaria, que é o ‘Teatro de participação e vanguarda’. A participação faz referência ao estreitamento da relação com o público. E a vanguarda era o princípio de que a linguagem do espetáculo deveria ser sempre moderna ou até à frente do seu tempo”, explica o presidente da ATA.

“Desde então, a gente tem uma definição do fazer teatral da ATA, estimulada pelo Lauro. ‘Hoje é dia de rock’ foi um sucesso absoluto, foram 19 apresentações com a casa cheia, um fenômeno no teatro alagoano. Tinha gente que assistia a peça cinco, seis vezes. Mesmo ocorrendo no Teatro de Arena, que é pequeno, o espetáculo pagou todos os prejuízos que tivemos com a montagem anterior e ainda conseguimos ficar com um saldo significativo”, revela Ronaldo de Andrade.

“A importância de Lauro Gomes para o Teatro de Alagoas também pode ser percebida no repertório dos textos que dirigiu: Hipólito, Hoje é dia de rock, O Inspetor Geral, Pano de Boca, Onde canta o sabiá, A sapateira prodigiosa, O acendedor de estrelas, Fazendo chuva, O Bravo soldado Schweik, A serpente, A reforma e Prometeu Acorrentado. Lauro Gomes transitou com desenvoltura impecável tanto na cena italiana, quanto na cena em arena. Nos limites destas poucas palavras, podemos afirmar: Lauro Gomes deixa para o teatro alagoano um legado constituído por saberes teóricos, por procedimentos criativos, por técnicas para naturalização da interpretação teatral, de altruísmo exemplar para os sócios da ATA e para os participantes do teatro alagoano de hoje. Lauro Gomes aprofunda na arte de interpretar pelos alagoanos o ingrediente vital para o sucesso, que é o amor pelo teatro. E ainda o mais importante: foi com Lauro que na ATA se buscou a prática não do Teatro Regional, mas de um Teatro de significado local estruturado nos signos culturais alagoanos, como o falar, a musicalidade, o imaginário. Mais tarde, em 1995, este fazer foi fundamental para a elaboração do Manifesto Makamadi, através do qual a ATA, no primeiro número de sua Revista Kaiti-tu, se compromete pela construção e criação de um teatro que se proclame alagoano”, conclui.

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