loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 23/07/2026 | Ano | Nº 6273
Maceió, AL
25° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Caderno B

Caderno B

ANO PANDÊMICO

Opinião: Pandemia mescla desigualdade social e bestas raivosas, diz Fernanda Torres

Ouvir
Compartilhar
Imagem ilustrativa da imagem ANO PANDÊMICO
-

Criança, visitei uma amiga de escola, cuja família havia vendido a antiga casa em que morava, em Copacabana, para construir uma nova, no Horto.

Enquanto esperavam a conclusão da obra, pai, mãe, irmãos, a avó e os cachorros se atocharam num pequeno apartamento de dois quartos, vizinho à futura residência.

Da visita, restou-me uma lembrança vívida de infância, fixada graças a um instante de terror.

Era noite, eu bebia água na cozinha, quando minha colega, não sei se por sadismo ou inconsequência, abriu a porta da área de serviço.

Shorts Youtube
Play
Mãe é presa após filha de 10 anos ser encontrada sozinha em Arapiraca

Mãe é presa após filha de 10 anos ser encontrada sozinha em Arapiraca

Play
Dupla invade residência em Arapiraca; morador reage e consegue imobilizar um dos suspeitos

Dupla invade residência em Arapiraca; morador reage e consegue imobilizar um dos suspeitos

Play
Pet desaparecido: envie uma foto do animal para a TV Gazeta

Pet desaparecido: envie uma foto do animal para a TV Gazeta

Play
Operação Face Dupla: suspeitos de violência sexual contra crianças e adolescentes são presos

Operação Face Dupla: suspeitos de violência sexual contra crianças e adolescentes são presos

Play
Acidente na Fernandes Lima deixa trânsito lento

Acidente na Fernandes Lima deixa trânsito lento

Do buraco escuro, surgiram as cabeças de quatro dobermans enfurecidos. Na falta de metros quadrados, haviam socado os monstros lá. As bocarras pareciam pertencer a um só corpo. Cérbero enclausurado na antessala do inferno. Acabou para mim, pensei.

Fui salva pela cozinheira, que me puxou para trás e, a duras penas, empurrou os demônios de volta para a jaula. Num primeiro lampejo de consciência social, me dei conta de que a pobre dormia no quartinho de empregada em meio às feras.

O pânico dos temíveis cães de guerra manteve viva a recordação. E ela tem me servido de tradução para este ano pandêmico, pela mescla de confinamento forçado, endividamento familiar, desigualdade social e bestas raivosas.

Os jornais acompanham a curva da Covid, o mapa do Brasil todo em vermelho. E parece reprise, não fosse a angulação que impulsiona a linha da contagem de mortes para o infinito e além.

Na rua, meu filho de 13 anos foi assaltado por um menino pouco mais velho do que ele.

Durante a peste, o número de garotos sem horizonte e escola quintuplicou nas esquinas do Rio.

A situação da minha amiga era transitória. Ela e os seus enfrentaram o aperto e as dívidas, certos de que um futuro melhor os aguardava. O mesmo não se pode dizer do Brasil.

Fechado para o resto do mundo, o país se transformou numa panela de pressão social, política, econômica e sanitária. E nem a vastidão do território tem conseguido aplacar a sensação de clausura de se viver aqui.

A aventada substituição do ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, pela cardiologista Ludhmila Hajjar surgiu como uma lufada de ar fresco no ambiente viciado.

Em entrevista, ela descreveu as medidas que planejava implementar, caso assumisse: urgência na vacinação, unificação de um protocolo de internação e intubação de pacientes, aprovação de novos fármacos e formação de comitês de crise para melhorar a comunicação entre União, estados e municípios. O espinhoso debate sobre a restrição de circulação de pessoas foi evitado.

Imagem ilustrativa da imagem ANO PANDÊMICO
| Foto: Marta Mello/Folhapress

O encontro com o presidente, no entanto, culminou não só na recusa ao cargo, como em ameaças à integridade moral e física da doutora. Soltaram os cachorros em cima dela.

Hajjar foi difamada nas redes, importunada no celular e ameaçada de morte, sem que o governo proferisse nenhuma palavra de repúdio às agressões. Enquanto isso, Felipe Neto era intimado a depor com base na Lei de Segurança Nacional, por usar a palavra genocida.

E ficam as perguntas: Qual lei nos protege da fixação anal, da saraivada de hemorroidas, trosobas e rabos de todo dia? Qual portaria proíbe o riso de escárnio, a indiferença diante da morte, o desprezo pelo uso da máscara, a falta de vacina e a homofobia que considera maricas quem teme o vírus? Quem nos defende de uma política externa que se orgulha de transformar a nação em pária?

Nunca desejei morar fora do Brasil, minha profissão tem relação intrínseca com a língua e a cultura do meu país, mas a angústia busca saídas e confesso que a possibilidade da fuga tem me martelado a testa. Em meio ao milagre da multiplicação de cepas, cheguei a planejar uma louca escapada via Uruguai, México, Afeganistão, Albânia e Iraque, a magra lista de países que ainda aceitam cidadãos daqui.

Abandonei a ideia infeliz depois de ler o artigo de Marilene Felinto “Passaporte português”, na Folha. Concordo com ela. É horrível imigrar.

Seremos sudacas na Espanha e chicanos na América.

Qualquer brasileiro, por mais louro de olho azul que pretenda ser, carrega a tragédia nacional nas costas. O jeito é encarar.

Esquece direita e esquerda, capitalismo e comunismo, Estado e iniciativa privada. É civilização ou barbárie.

No sufoco desse apartamento apinhado do que resta das tantas repúblicas, Cérbero precisa voltar ao canil do Tártaro.

Relacionadas