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Caderno B

RAINHA DO GUERREIRO

Morre Mestra Zelina do Guerreiro, que dedicou 75 anos ao folguedo mais simbólico de Alagoas

Por MAYLSON HONORATO | Edição do dia 07/04/2021 - Matéria atualizada em 06/04/2021 às 21h52

Dos 82 anos de vida, Mestra Zelina dedicou 75 ao Guerreiro. O folguedo, que entre cores e espelhos confunde a realidade com o imaginário popular, é um dos maiores símbolos da cultura de Alagoas e se despede da sua “rainha” mais antiga. Mestra Zelina Sebastiana dos Santos faleceu nessa terça-feira, 06 de abril, após um infarto.

A mestra era um dos destaques do Guerreiro São Pedro Alagoano, de Maceió, cuja sede fica no Conjunto João Sampaio, no bairro Chã da Jaqueira. Corria em suas veias o sangue indígena dos Xucuru-Kariri, de Palmeira dos Índios, município alagoano onde nasceu.

A estreia no Guerreiro ocorreu na infância, aos sete anos, quando entrou em cena para brincar de rainha, no folguedo comandado pela saudosa Mestra Joana Gajuru. Cresceu cercada por mestres da estirpe de João Beato, Mané Lourenço e José Antônio do Salgado, pelas bandas de Maribondo, outra cidade de Alagoas onde morou. Lembrava, em conversas informais e também em entrevistas, que a brincadeira era a sua vida e que viveu momentos emocionantes entre os trupés.

“Não havia fazenda que a Gajuru não batesse e dançasse. Onde ela chegava se arranchava. Agora, só quem mais brincava com ela era mulher. Havia as apresentações nas fazendas, os fazendeiros mandavam chamar a gente e isso era pra noite toda, época boa porque os guerreiros ganhavam muito dinheiro”, recordou em entrevista ao jornalista e ativista pelos folguedos populares João Lemos, no ano passado.

A história da mestra na capital alagoana começa em 1966, quando também foi rainha das brincadeiras comandadas por nomes como Mestra Maria Vitória, Mestre Juvenal Domingos e Mestre Benon. Com o último, chegou a se apresentar no famoso Guerreiro Treme Terra. Alegrava com seu passo e sua voz o Guerreiro São Pedro, comandado pela Mestra Marlene, há 24 anos.

A vida dedicada ao folguedo e a paixão observada pelo público e que se destacava diante das das vestes e indumentárias, fizeram com que a Mestra Zelina se tornasse um dos maiores símbolos do Guerreiro de Alagoas.


Foto: Reprodução
 

Em entrevista recente, a mestra evidenciou a tristeza pela falta de incentivo ao folguedo.

“Nós nunca vivemos uma época difícil como essa, os jovens não querem brincar, os governantes não dão o apoio que a gente precisa. Hoje não existe mais guerreiro como antes porque não se tem incentivo. A gente crescia dentro da brincadeira, de primeiro era muita brincadeira, agora nas grotas, na rua você não via não, mas dentro do mato tinha muita mesmo. Depois correu pra rua e se espalhou mais, os fazendeiros e prefeitos chamavam muito, não faltava canto pra gente dançar e era gente nova disputando espaço dentro dos grupos, que saudade”, disse a mestra, que em seguida ressaltou sua ligação com a brincadeira.

“Minha vida foi muito difícil, lutei muito! Se hoje cheguei aos oitenta é porque Deus achou que eu merecia viver um pouco mais. Eu sinto muito amor, se me tirarem desse guerreiro eu não sei o que me acontece, quando tem apresentação e eu não posso ir, eu choro. Eu tenho muita emoção! É a coisa na minha vida que me faz viver é o guerreiro. Vou brincar até o dia que Deus quiser”, finalizou.

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