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Caderno B

“Ser mulher é um desafio. Ser mulher e negra é outro desafio”

ENTREVISTA: Mel Nascimento diz que artistas precisam refletir o próprio tempo e dar voz aos silenciados

Por MAYLSON HONORATO | Edição do dia 17/04/2021 - Matéria atualizada em 16/04/2021 às 23h21

É possível que o primeiro artista tenha infligido medo ao primeiro déspota. A arte, como uma expressão humana, carrega nas entrelinhas e até entre um acorde e outro o poder de causar identificação, empatia, medo, ideias, muito além da diversão. É assim que a cantora Mel Nascimento vê sua arte e dispara que “se for para cantar por cantar”, é melhor ficar calada.

Em entrevista ao Caderno B, a cantora, que acaba de lançar o seu “Força de Mulher”, disponível em todas as plataformas digitais, conta como o álbum é carregado de significados e dialoga com suas vivências como uma mulher negra e alagoana.

Além de musicalmente interessante, “Força de Mulher” acaba sendo um manifesto para os dias de hoje e, para Mel, essa é a vocação deste disco e do seu canto: ser arte e, como arte, ser a forma mais bonita de lutar por dias melhores.


“Força de Mulher” está disponível em todas as plataformas digitais
“Força de Mulher” está disponível em todas as plataformas digitais - Foto: Divulgação
 

O que significa Força de Mulher?

Força de Mulher é uma vivência, antes de tudo. Eu iniciei nos quilombos como técnica agrícola, mas a alma de artista foi maior e me fez começar a observar criticamente algumas coisas. Um dia eu fiz um texto, achando que ali estava colocando pra fora alguma ansiedade que eu tinha, minha indignação, admiração, cansaço, mas na verdade era uma música nascendo. Entreguei ao Arnaud Borges e ele transformou na música que dá nome ao CD. 

Foi a partir daí que comecei a entender que um projeto estava tomando corpo, comecei a pesquisar música negra, ritmos e compreender que dentro do que significa força de mulher tem muita coisa. Acho que o CD se comunica com todos os meus projetos anteriores, que todos eles são e representam a força da mulher. Todos vieram dessa força.


Além do próprio Arnaud Borges, temos outros grandes compositores no disco. Como foi selecionar essas canções?

A única que demorou para chegar foi a última faixa. As demais chegaram na hora certa, como se os compositores soubessem que eu estava nesse processo e procurando canções para fechar um disco. As duas músicas da May [Honorato], ela mandou “Grito” primeiro, perguntei se eu podia gravar, ela disse que sim e que tinha outra, a “Por trás das pálpebras”. E eu achei que uma completava a outra, como se ela começasse o raciocínio na primeira e concluísse na segunda.

Com Mirian Monte e com Gustavo Gomes foi a mesma situação. A da Mírian parece que foi a mão e a luva. São letras que têm muito a ver com a minha vivência nos quilombos e como mulher. Porque a minha música não é apenas cantar, ela tem uma bandeira, um cunho político, de resistência. 


E dentro desse contexto, como o álbum se relaciona com o presente? Enfrentamos todos uma série de problemas, mas eles são amplificados quando se é mulher e negra…

Sim. Ser mulher é um desafio. Ser mulher e negra é outro desafio. Ser mulher, negra e alagoana é outro desafio. E é por isso que eu falo que a música é minha ferramenta de luta, a maneira mais doce e singela que a gente tem de lutar. Com o microfone na mão, eu sinto que preciso dar voz a quem não tem voz. E acredito muito que como artistas, não podemos fugir da responsabilidade de dar voz às pessoas, às minorias. O povo preto está numa luta sem fim. É uma responsabilidade. O álbum fala sobre tudo isso.


E como tem sido a recepção do público nesses primeiros dias?

Teve um dia em que eu não consegui dar conta de tantas pessoas marcando, ouvindo o CD, comentando, chamando pra falar sobre o Força de Mulher. Eu confesso que fiquei com medo de o disco ter passado do tempo de maturação, mas em dois dias essa sensação morreu. As pessoas estão colhendo, curtindo, escolhendo suas preferidas. Uma mulher com seu CD lançado não quer guerra com ninguém.


Você fala sobre o tempo devido ao período de produção, já que o disco começou a ser pensado ainda em 2018?

É. E eu acho importante dar um feedback sobre isso, porque esse trabalho foi fruto de um financiamento coletivo. Durante todo esse tempo eu fui fazendo isso, mostrando em qual estágio estava o disco, revelando alguns conteúdos, uns trechos. Trabalhamos muito para lançar esse CD. Entramos em estúdio em 2019, mas em 2020 a pandemia impossibilitou o lançamento. Mas até acho que essa demora foi deixando todo mundo cada vez mais ansioso. Eu fiquei.


Além do CD, vem aí um DVD. São três meses de lançamentos: dia 13 de março veio o site, agora no dia 13 de abril veio o CD e em 13 de maio vem o DVD. Por que essas datas?

São simbólicas, né? Uma coisa meio cabalística. O 13 de maio, apesar de ser considerado o dia da abolição, não é dia de negro. Então é uma forma de ressignificar. De ser um dia para celebrar a força das mulheres negras, um dia em que as nossas histórias estejam no centro das atenções. E sobre o DVD, olha, acho que será emocionante. Agora, para ficar tudo completo, só falta a vacina, pra eu ir pra rua, pro meio do povo, cantar pelo meio do mundo, que é o que eu sei fazer.

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