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Caderno B Marisqueira de Maceió conta a difícil vida despinicando sururu: “É assando e comendo”

MARISQUEIROS SOBREVIVEM COM MENOS DE R$ 100 POR SEMANA

Trabalhadores contam que muitas vezes é preciso trabalhar os sete dias na semana para conseguir comprar o mínimo para a alimentação

Por Clariza Santos | Edição do dia 04/12/2021 - Matéria atualizada em 03/12/2021 às 20h00

Todos os dias, a marisqueira Jelsa Babosa de Oliveira sai do barraco em que mora, no Vergel do Lago, às 5 horas da manhã para despinicar sururu às margens da Lagoa Mundaú. Jelsa conta que luta para ter o que comer diariamente e que, em muitas situações, é preciso trabalhar também aos domingos para levar o pão do dia para dentro de casa. Jelsa divide o barraco com o companheiro, que faz bico de servente, mas a principal renda familiar é o sururu. “Chego cedo e saio 5 da tarde. Em média faço 7 ou 10 latas por dia, a depender da quantidade. Por semana acho que chego a lucrar R$ 70, quando é bom. Vou juntando na mão da pessoa que eu limpo o sururu para receber somente no sábado” Há mais de 20 anos trabalhando com sururu, Jelsa diz que é “assando e comendo”. “O dinheiro dá pra comprar alguma coisa, o que comer naquele momento. Não dá pra comer pra estocar, mas pra comer só naquele momento e tem que adquirir outro. E é por isso que venho todos os dias, às vezes de domingo a domingo, pra poder comer”, conta Jelsa. Com o aumento dos alimentos, Jaelsa diz que acorda pela manhã para lutar pelo pão de cada dia. “A gente já não tem noção do que vai comer no dia. Já tem o básico certo na cabeça. É um arroz, que o feijão nem toda vez tem, um macarrão, um pão, um açúcar. Quando tem uma coisa a outra falta. E nunca tem o básico certo, a gente acorda de manhã pra lutar pelo que não tem”. Questionada sobre o que iria comer, Jaelsa disse: “Por incrível que pareça, só tem pão e só tem pra hoje. Não vai dar para amanhã, mas Deus proverá. Mesmo diante dessa incerteza, eu penso que as coisas vão melhorar”. Eleusa da Silva Herculano Dias, 45 anos, outra marisqueira que trabalha há 23 anos às margens da Lagoa Mundaú, diz que a população da periferia é esquecida. “Sempre sobrevivi do marisco. Agora tá a maior dificuldade, se no começo da pandemia estava, agora é que está pior. A gente fica comprando a lata a R$ 5, transportando a R$ 12, e às vezes só está dando um quilo por lata. Os marisqueiros e pescadores de sururu não têm valor, quem fica com o valor são os importadores”, conta. A marisqueira conta que se trabalha com dez latas, consegue entre R$ 40 e R$ 50 de lucro. “Com esse dinheiro compramos o básico, é o ovo, a salsicha, um arroz. Ninguém anda comendo galinha e carne. O gás a gente paga em duas vezes. Essa semana mesmo ainda não compramos nada, vamos comprar no sábado com o que foi apurado durante a semana”. O marido de Eleusa é pedreiro, mas com a pandemia ele ficou parado e a renda ficou ainda mais comprometida. “O ganha-pão é o sururu. Ele [o marido] vai tirar e eu limpo. Saí de casa, tomei café da manhã. Hoje minha mistura vai ser o famoso ‘bife do oião’, mais conhecido como ovo”.

A marisqueira diz que acha difícil que as coisas melhorem, mas faz um desejo para ter “mesa farta, saúde e alegrias” para os próximos dias. “Eu digo que os governantes não agem pela população de baixa renda e, segundo, a pandemia veio para acabar ainda mais com as coisas que tínhamos. Nós somos esquecidos”.

Na favela do Mundaú vivem 1,4 mil crianças e adolescentes que dependem de 1,8 mil trabalhadores que sobrevivem como pescadores e marisqueiras do sururu.

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