Memórias do Quebra
Iphan estuda reconhecimento da Coleção Perseverança
Pesquisador Fernando Gomes, que cataloga e contextualiza as peças em seu livro, defende tombamento do acervo do IHGAL
Com o passar dos anos, os desdobramentos do maior massacre do povo de terreiro que já ocorreu no Brasil chegam nos dias atuais como sinônimos de respeito e homenagem. Após 111 anos do episódio sangrento e intolerante que foi o Quebra de Xangô de 1912, religiosos e estudiosos se unem para manter viva a história e celebrar a resistência do povo negro e de terreiro alagoanos.
Além das ações de homenagem que existem há anos, um dos novos aspectos positivos e necessários é o processo de tombamento nacional da Coleção Perseverança, que vem sendo estudado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN. A coleção que fica exposta no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas - IHGAL, carrega consigo a história dos terreiros atacados na madrugada do dia 1º de fevereiro de 1912.
Desde 2022, o IPHAN - AL vem promovendo debates com religiosos de matriz africana e intelectuais que estudam a Coleção Perseverança, além disso, uma exposição fotográfica de algumas peças foi organizada e atualmente está exposta na Casa do Patrimônio de Maceió. As ações integram o cronograma de instrução de tombamento da Coleção Perseverança e almejam a elaboração do material que será posteriormente submetido ao Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, instância responsável pelo exame, apreciação e decisão sobre o tombamento de bens culturais de natureza material em nível federal.
Para Maicon Marcante, historiador do IPHAN, um tombamento dessa magnitude é importante para evidenciar ainda mais a relevância do patrimônio cultural de Alagoas em âmbito nacional, principalmente a riqueza e diversidade das manifestações culturais de matriz africana do povo alagoano.
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“O tombamento da Coleção Perseverança vai ao encontro do direito à memória dos Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiros de Alagoas, o qual integra seus direitos culturais garantidos pela Constituição Federal. É importante também para a própria Coleção Perseverança, na medida em que o IPHAN passa a ter uma série de responsabilidades acerca de sua preservação e conservação, bem como do desenvolvimento de ações de educação patrimonial relacionadas ao bem e voltadas ao combate ao racismo e à intolerância religiosa”, afirmou.
O médico, membro do IHGAL, da Academia Alagoana de Letras e autor do livro “Legba - A Guerra Contra o Xangô em 1912”, Fernando Gomes, é um dos estudiosos que conta esse capítulo da história de Alagoas e dá todo apoio para o tombamento nacional da Coleção Perseverança.
“É muito importante esse tombamento nacional realizado pelo IPHAN e é fundamental o olhar dos religiosos para esse momento, é crucial. Quem estuda o saber precisa conhecer para reconhecer, por isso o religioso deve ser entendido com o sentimento de pertencimento”, disse Fernando Gomes.
LEGBA
Contando a história e a simbologia da Coleção Perseverança, do quebra-quebra da soberania e embarcando nas raízes africanas alagoanas, o livro “Legba - A Guerra Contra o Xangô em 1912”, de Fernando Gomes, em 325 páginas traz para o leitor os mais diversos aspectos da época.
Sendo um dos marcos da vida do autor, Fernando Gomes revela que o livro é um momento muito peculiar de sua trajetória, pois o problema do negro no Brasil sempre esteve presente no seu dia a dia.
“O professor Alberto da Costa e Silva, quando prefaciou o meu livro, ele expressou a minha intimidade. Minha avó paterna, dona Tereza Davino, era líder de um terreiro, conhecido como candomblé de caboclo, no bairro da Pajuçara. Lá não tinha toque, as cerimônias eram sem os instrumentos, acredito eu que por resquício do momento do Quebra”, contou ele.
Contando com a apresentação de Jayme de Altavila, Rachel Rocha de Almeida Barros, Luiz Sávio de Almeida e prefácio de Alberto da Costa e Silva, Fernando Gomes revela que bebeu de muitas fontes antigas durante o processo de produção do livro, principalmente de Arthur Ramos.
“Arthur Ramos foi muito importante em toda minha pesquisa. Ele é, sem dúvida alguma, uma figura ímpar quando se fala da história do negro dentro do nosso país. Ele conseguiu apresentar o negro como um povo constitutivo do povo brasileiro, considerou o peso das teorias raciais, era médico, mas eu o denomino como grande antropólogo brasileiro”, revela.
A COLEÇÃO
Um dos pontos altos do livro é, sem dúvida alguma, o detalhamento trazido para cada peça catalogada da Coleção Perseverança. Entre imagens e descrições, estão as indumentárias sagradas, esculturas e instrumentos utilizados pelos terreiros. Ao todo, são mostradas 208 peças catalogadas pelo Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas.
“Para ir até a coleção, eu tive que estudar a presença africana em Alagoas. Observei que nós temos uma antologia do negro muito profunda. Meu livro é uma história cheia de fragmentos, de portas abertas, sobre a luta de duas correntes políticas, liderada por Euclides Malta e Fernandes de Barros Lima”, lembra o autor.
“O quebra-quebra da soberania contou com pessoas que moravam perto dos terreiros, eles sabiam onde os religiosos estavam e o que estavam fazendo. Aproveitaram a festa de Oxum e da Imaculada Conceição, que acontecia tradicionalmente na época, para entrar nos terreiros. Foi uma perda muito grande”, completou.
*Sob supervisão da editoria de Cultura