Cultura afroalagoana
Xangô Rezado Alto celebra identidade do povo de terreiro alagoano
Evento retorna após dois anos e exalta pertencimento e tradição das religiões de matriz africana em Alagoas
Thauane Rodrigues*
|
01/02/2023 às 16h06
Após dois anos sem acontecer, o Xangô Rezado Alto - evento que celebra a memória e resistência do povo de terreiro alagoano - retorna às ruas do Centro de Maceió nesta quarta-feira (1º), quando os religiosos de matriz africana e manifestações culturais festejam a liberdade e diz não à intolerância religiosa.
Tradicionalmente sendo organizado em conjunto com as casas de axé, que fazem parte da Rede Alagoana de Povos Tradicionais de Matriz Africana, o evento é realizado pela Fundação Municipal de Ação Cultural - FMAC e conta com o protagonismo dos povos de terreiro e dos grupos culturais que nascem dentro dessas casas.
Nesta edição, o evento começará às 14h, no Centro de Maceió, onde os religiosos e artistas seguirão em cortejo da Praça da Igreja da Catedral até a Praça Deodoro, onde acontecerão os shows musicais e estará montado estandes de afroempreendedores do Coletivo Nosso Ilê, com artesanato e gastronomia.
Para o assessor técnico da FMAC, Cadu Ávila, o Xangô Rezado Alto é uma forma de valorizar e fomentar a cultura afro alagoana, além de combater a intolerância religiosa contra as casas de axé e os grupos afro que mantêm viva a essência da cultura maceioense.
“A cultura alagoana é muito originaria dos grupos negros, vindo desde o quilombo de Zumbi aos grupos culturais que nasceram dentro dos terreiros. O Quebra de Xangô de 1912 foi um dos atos mais violentos contra a cultura afro no Brasil, e realizar o Xangô Rezado Alto é uma forma de contrapor essa violência, abrindo espaço para que esses grupos possam mostrar sua forma de ver o mundo e evitar que, num futuro, outras formas de violência contra a cultura alagoana aconteçam”, disse ele.
REZANDO ALTO
Celebrando a memória de todos os babalorixás e ialorixás que lutaram para manter vivos os terreiros alagoanos em 1912, quando uma briga política respingou na religiosidade de matriz africana, para os religiosos dos dias atuais o evento reforça a necessidade de cada vez dizer mais alto um “não” à intolerância religiosa.
De acordo com o babalorixá e historiador Célio Rodrigues, além de 1912, o povo alagoano de terreiro sofreu outros quebras, sendo o de 12 o terceiro deles.
“O primeiro quebra acontece com a aniquilação do Quilombo dos Palmares, em 1645. O segundo ocorreu em 1817, com a separação de Alagoas da província de Pernambuco, muita coisa produzida em Alagoas vai para Pernambuco, inclusive o frevo que, de fato, nasceu em Marechal Deodoro. O terceiro quebra é o de 1912, e o quarto ocorre com a Ditadura de Getúlio Vargas, que reprimiu e criminalizou os cultos de matriz africana no Brasil”, explica ele.
O babalorixá ainda ressalta que eventos como o Xangô Rezado Alto, que fortalece e enaltece a autoestima do povo de terreiro, são verdadeiros quebras de paradigmas, pois levam a cultura afro para a rua e desmistificam as religiões de matriz africana.
Fazendo parte da programação do evento, o Samba de Roda K’Posú Betá, da casa da sacerdotisa Mãe Mirian, diz acreditar, por meio de Sônia Costa, vice-presidente da Associação Posú Betá, que esse momento é para comemorar e acreditar na esperança de dias melhores e menos intolerantes. Ela afirma que o grupo está preparando muita coisa boa para o público.
“Estamos em um processo bem interessante da construção de um novo repertório e percussão para o K’Posú, onde nossa maior incentivadora é a nossa sacerdotisa Mãe Mirian. Somos um povo feliz e a cultura do sofrimento não nos pertence!”.
Já o primeiro afoxé de Alagoas, o Afoxé Odô Iyá, que nasceu dentro da Casa de Iemanjá, promete uma apresentação potente e que mostrará o poder do povo de terreiro através do canto, da dança e dos toques ancestrais. O diretor do grupo, Amaurício de Jesus, ainda ressaltou que participar de eventos como esse aumentam o sentimento de pertencimento nos religiosos e nos artistas.
“O público pode esperar expressões artísticas com muita qualidade, onde a cena local será apresentada com muita alegria e maestria”, afirmou.
*Sob supervisão da editoria de Cultura