loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
sexta-feira, 24/07/2026 | Ano | Nº 6274
Maceió, AL
25° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Caderno B

CIDADE HISTÓRICA

Penedo, mas pode chamar de história a céu aberto

Projeto de Cármen Lúcia Dantas e Cíntia Ribeiro lança manual inédito que atualiza potência da cidade histórica alagoana e alia preservação patrimonial a narrativas negras, indígenas e contemporâneas

Ouvir
Compartilhar
Imagem ilustrativa da imagem Penedo, mas pode chamar de história a céu aberto
| Foto: JFERNANDES

Há muito a explorar em uma das mais importantes cidades históricas de Alagoas. Às margens do Rio São Francisco, onde casarões coloniais seguem testemunhando a passagem do tempo, Penedo ganha um novo mapa para decifrar suas contradições, seu labirinto de significados e potências. Lançado em formato digital e acessível, o Manual Prático e Inclusivo de Preservação desdobra a cidade além da arquitetura barroca, reunindo memórias de escravizados, resistência indígena e tradições quilombolas.

Desenvolvido pela museóloga Cármen Lúcia Dantas e a jornalista e doutora em Linguística Cíntia Ribeiro, o projeto — selecionado pelo edital de patrimônio da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa de Alagoas via Lei Paulo Gustavo — propõe um turismo que além de contemplar, questiona.

Imagem ilustrativa da imagem Penedo, mas pode chamar de história a céu aberto
| Foto: Ailton Cruz

“Proteger monumentos e sítios históricos é essencial para manter viva a nossa herança cultural. Com isso em mente, desenvolvemos orientações voltadas para o público interessado, incentivando a responsabilidade coletiva na conservação do patrimônio de Penedo. Essas dicas, além de valorizar o respeito cultural, também ajudam a evitar danos e a garantir a sustentabilidade desses lugares, para que as próximas gerações continuem aprendendo e se inspirando na nossa história”, detalha Cármen, que faz questão de enfatizar que o projeto abarca todos os ângulos da preservação, mas não se sustenta “apenas em histórias bonitas”.

O manual, disponível em PDF compatível com leitores de tela, evita o tom enciclopédico: em linguagem coloquial, convida jovens a explorar ruas que misturam barroco e modernismo, terreiros de candomblé e o Cine Penedo — reaberto em 2023 após quatro décadas fechado.

Shorts Youtube
Play
Joalheiria é alvo de assalto em plena luz do dia em Teotônio Vilela

Joalheiria é alvo de assalto em plena luz do dia em Teotônio Vilela

Play
Prefeitura remove embarcações e objetos abandonados na orla da Pajuçara

Prefeitura remove embarcações e objetos abandonados na orla da Pajuçara

Play
Operação prende suspeito de tráfico de drogas em Arapiraca

Operação prende suspeito de tráfico de drogas em Arapiraca

Play
Polícia inicia 6ª fase da Operação Cerco Fechado

Polícia inicia 6ª fase da Operação Cerco Fechado

Play
Ação da Semsc remove embarcações e objetos abandonados na orla da Pajuçara

Ação da Semsc remove embarcações e objetos abandonados na orla da Pajuçara

“Uma das principais satisfações deste projeto é a oportunidade de retomar textos antigos e atualizá-los à luz das pautas contemporâneas, especialmente no que diz respeito a gênero e raça. Essa adaptação contínua é possível graças à parceria com Cíntia Ribeiro. Ela tem um olhar cuidadoso e atento no trabalho de atualização”, complementa a museóloga.

Imagem ilustrativa da imagem Penedo, mas pode chamar de história a céu aberto
| Foto: Reprodução

Dividido em cinco seções, o guia funciona como uma radiografia social. Uma delas expõe o passado colonial não como evento encerrado, mas como sombra que persiste: 53 terreiros de axé resistem em uma cidade marcada pela arquitetura sacra católica. Outro capítulo destaca o Quilombo do Oiteiro, onde cerca de 700 pessoas mantêm casas de taipa e roças tradicionais, pressionadas pela expansão urbana. “Visitar esses espaços é mergulhar em histórias que os livros didáticos apagaram”, diz Cíntia Ribeiro, que continua.

“A urgência de conversar com as novas gerações veio da necessidade de envolver estudantes na preservação e na inclusão. Usar o termo ‘manual’ é justamente abrir caminhos para olhares diversos e para o reconhecimento de cada uma dessas perspectivas históricas no sítio de Penedo. Formulamos um manual prático de preservação em formato digital para suprir a demanda de educação patrimonial não só entre visitantes, mas principalmente entre quem vive na região”.

Imagem ilustrativa da imagem Penedo, mas pode chamar de história a céu aberto
| Foto: Prefeitura de Penedo

Entre essas orientações práticas estão dicas para não causar danos a monumentos (como evitar toque em pinturas sacras), e alertas a guias turísticos contra piadas preconceituosas. “É preciso acolher diferentes vivências, ainda mais em um lugar tão diverso como Penedo”, explica Cármen.

O manual também documenta tradições vivas, como a cerimônia Águas de Oxalá, realizada em fevereiro. “Ao som de cânticos e rezas, babalorixás e ialorixás conduzem o ritual que purifica e revitaliza”, descreve o texto, acompanhado de fotografias. Já a seção sobre o Theatro Sete de Setembro, primeiro palco alagoano, lembra que a cidade integra a Rede de Cidades Criativas da Unesco.

Para as autoras, repensar a preservação exige diálogo com quem habita o território. “O manual não é um check-list. É um convite para que moradores se vejam como parte da história”, afirma Cíntia. Prova disso é o capítulo que detalha o Mercado Público, espaço secular onde artesãos e agricultores mantêm viva uma economia de raízes africanas e indígenas.

Imagem ilustrativa da imagem Penedo, mas pode chamar de história a céu aberto
| Foto: Reprodução

Com recursos da Lei Paulo Gustavo, o projeto priorizou a gratuidade: qualquer interessado pode solicitar o material por e-mail. “Queremos que estudantes de escolas públicas tenham acesso a essa narrativa”, destaca Cármen. O próximo passo, segundo ela, é ampliar parcerias com instituições de ensino para workshops sobre educação patrimonial.

Enquanto isso, Penedo segue desafiando estereótipos. Entre conventos franciscanos e procissões fluviais, o manual aponta para um futuro onde preservar não significa embalsamar o passado, mas reconhecer que cada pedra da cidade foi tocada por “mãos plurais”, e é assim que ela deve ser lembrada.

O Manual Prático e Inclusivo de Preservação pode ser solicitado gratuitamente pelo e-mail [email protected].

Relacionadas