TEATRO
O monólogo que nunca envelhece
A Alma Imoral, que roda os teatros do Brasil há dezoito anos, chega ao Homerinho neste fim de semana, trazendo reflexões e uma interpretação visceral da atriz Clarice Niskier
O monólogo "A Alma Imoral", estrelado pela premiada atriz Clarice Niskier, tem atravessado quase duas décadas de apresentações por todo o Brasil. Baseado na obra homônima do rabino e escritor Nilton Bonder, o espetáculo tem conquistado plateias ao longo de 18 anos. Nos dias 5 e 6 de abril, será a vez de Maceió receber a peça, que será apresentada no Theatro Homerinho, no bairro do Jaraguá.
Responsável por uma interpretação visceral, Clarice Niskier atribui a longevidade do espetáculo à universalidade do texto e ao mistério que envolve a vida. Segundo ela, a confiança entre a equipe e a dedicação extrema à peça também foram fundamentais para que ela permanecesse tanto tempo em cartaz. "É uma felicidade, uma responsabilidade e um compromisso que eu tenho e que eu levo à frente com o maior prazer", afirma.
O tema central do monólogo transita por questões atemporais, como corpo moral e alma imoral, a tradição e a ruptura, a obediência e a desobediência. Esses conceitos, que permeiam não apenas o Velho Testamento, mas também textos sagrados de diversas religiões e correntes filosóficas, são o fio condutor da peça. "São temas que vão perpassar a vida de todos os seres vivos e seres conscientes", destaca a atriz.
Mesmo sendo uma peça fixa e com texto imutável desde a estreia, "A Alma Imoral" se mantém atualizada na percepção de cada espectador. Niskier explica que o público associa aquilo que ouve ao contexto histórico e pessoal que está vivendo, tornando a experiência única para cada plateia. "A atualização é dentro do ser humano", observa.
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O processo de adaptação do livro para o teatro levou dois anos. Clarice conta que estudou profundamente a obra de Nilton Bonder e fez leituras para grupos variados, amadurecendo sua visão sobre o material. “Foi um processo árduo e muito prazeroso. Estudei profundamente a obra do rabino Nilton Bonder e fiz algumas leituras para ele. Depois, fiz diversas leituras para vários grupos de atores, psicólogos, professores, psicanalistas e amigos em geral. O próprio Nilton participou de vários debates, e eu fui amadurecendo o meu ponto de vista em relação ao livro. Ele me deu carta branca e, ao mesmo tempo, ficou próximo. Foi uma experiência muito bonita. E hoje, dezoito anos depois, o texto da peça permanece fiel ao do início, com algumas piadas e alguns comentários acrescentados por mim. O texto é atualizado dentro de nós, no nosso entendimento. Ele é imutável e o entendimento é sem fim”, destaca a atriz.
A encenação minimalista é um dos diferenciais da peça, permitindo que o público complete o espetáculo com sua imaginação. O cenário, assinado por Luiz Martins, é pensado para oferecer uma nova perspectiva ao espectador. "Tanto o meu figurino – um pano preto – quanto o cenário - uma cadeira - colaboram para esse novo olhar sobre o mundo", diz Niskier.
A recepção do público ao longo dos anos tem sido sempre calorosa, ainda que em alguns momentos tenha enfrentado questionamentos. A atriz lembra que, em determinada época, houve quem sugerisse que a peça saísse de cartaz, mas a presença do público nas apresentações e o retorno sempre positivo fizeram com que o espetáculo continuasse em cartaz até hoje. "As mudanças são mais em detalhes, mas, de um modo geral, a recepção é sempre de acolhimento e reflexão", avalia.
Esta não é a primeira vez que "A Alma Imoral" será apresentada em Maceió. Em 2014, a peça foi encenada no Teatro Deodoro, como parte de um projeto patrocinado pela Petrobras. Na ocasião, Niskier conheceu a atriz e produtora alagoana Ivana Iza, com quem desenvolveu uma grande amizade. Hoje, Ivana é a idealizadora e a responsável pelo Theatro Homerinho, que recebe o espetáculo nesse fim de semana. "Estou muito feliz com a notícia de que um novo teatro nasceu no nosso Brasil", diz Clarice.
Além de reflexões profundas sobre a vida, a peça também traz momentos marcantes para a plateia. Algumas frases do espetáculo se tornaram especialmente impactantes para o público, como "Aquele que não faz uso de todo o potencial de sua vida, de alguma maneira, diminui o potencial de todos os demais" e "Haverá pior solidão do que a ausência de si?". Além disso, os temas do cotidiano abordados no espetáculo também chamam atenção, como a saída do filho de casa, para seguir a própria vida.
DISCIPLINA
Manter um monólogo em cartaz por tanto tempo exige disciplina. Clarice enfatiza que o maior desafio é manter a concentração e o cuidado com o corpo e a voz. "Não posso pegar sol porque não posso ter marca de biquíni. Meu corpo está ali simbolizando a alma. Se eu tiver com uma marquinha, já é o corpo moral", brinca.
Além disso, histórias marcantes se acumulam ao longo dos anos de apresentações. Em Salvador, um espectador perguntou se a atriz levava uma vida normal, arrancando risos da plateia. Já a ideia das repetições de trechos do espetáculo surgiu espontaneamente, quando uma espectadora pediu que ela repetisse uma passagem que achou especialmente bonita.
O público brasileiro, segundo a atriz, é extremamente generoso e afetuoso. Ela observa que há diferenças culturais na forma como as plateias se expressam em cada região do país, mas que a conexão entre artista e espectador sempre se mantém. "O público aplaude porque vê a sua entrega, sua autenticidade", reflete.
O que move Clarice Niskier a continuar levando "A Alma Imoral" aos palcos após tantos anos é a vontade de compartilhar a experiência com o público. "A peça segue seu caminho e o entendimento é sem fim", fala.
Para o futuro, Clarice conta ter o desejo de apresentar a peça junto a uma orquestra e a um coral, em uma casa de concerto. “Eu gostaria muito de fazer A Alma Imoral In Concert. Acho que o texto tem essa amplidão. É um sonho que eu cultivo, quem sabe para comemorar os 20 anos de espetáculo. Estou convencendo o maestro José Maria Braga, que é o compositor, para escrever para a orquestra. Seriam duas apresentações somente, numa sala de concerto. E se chamaria de A Alma Imoral In Concert - 20 anos”, conta.
Para quem ainda não assistiu ao espetáculo ao longo desses dezoito anos, as apresentações em Maceió são uma grande oportunidade de se conectar com essa obra que atravessa o tempo e continua impactando plateias por onde passa.
SERVIÇO
A Alma Imoral
Quando: Sábado (5), às 20h, e domingo (6), às 19h
Onde: Theatro Homerinho, no Jaraguá