CULTURA POPULAR
Na pisada delas
Coletivo Cocada: Substantivo Feminino promove oficinas de coco e mantém manifestação cultural pulsando em Alagoas; primeiro encontro ocorre neste domingo
Doce de coco ralado, calda de açúcar, outros ingredientes (leite condensado, gema etc.); cortado em formatos variados, como losango e quadrado. Segundo o dicionário, este é o significado de “cocada”. Em Alagoas, Cocada é um grupo de mulheres que resistem e fazem o coco de roda estar presente entre o público feminino. E para levar essa tradição nordestina para ainda mais pessoas, o coletivo Cocada: Substantivo Feminino organizou um evento, convocando mulheres de todas as idades a prestigiar essa arte que envolve batuque, dança e canto, além de participar de diversas oficinas com o tema. O evento será realizado em três encontros, sendo o primeiro neste domingo, 1º de junho, no Bartucasa, e os outros dois nos dias 19 e 20 de julho.
Há quem diga que o coco de roda é uma arte em que tanto seus agentes artísticos quanto seu público são majoritariamente masculinos, e que a aparição de grupos como o Cocada é uma forma de trazer de volta as mulheres para essa arte. No entanto, Day Lua, idealizadora e coordenadora do projeto, discorda completamente.
“Não diria ‘retomar’, porque o coco de roda sempre resistiu. A manifestação do coco, em suas variadas vertentes, sempre teve a mulher como uma presença ativa, seja no papel de liderança de algum grupo ou encontro festivo, de compositora de músicas, ou também assumindo o papel de brincante”, afirma Day.
O papel do brincante é crucial nesta arte, pois os brincantes se entregam de corpo e alma a essa manifestação popular, dando vida a cada batuque, movimento e acorde na cantoria. Brincar enquanto pratica a arte é simplesmente viver a arte, dedicar tudo o que tem ao breve momento em que a cultura popular se prolifera entre todo o público.
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De acordo com Íris Verdelinho, uma brincante, “é aquele que vibra com alegria e faz acontecer e repassar o saber popular”. Day Lua completa esse pensamento: “Essas mulheres, mestras/artistas/brincantes, levam juntas adiante as formas de cantar, os trupés e as poéticas mais tradicionais dessa manifestação, enquanto reinventam novos caminhos de interpretação e composição”, diz.
O surgimento de grupos como o Cocada vem de uma continuidade de iniciativas anteriores voltadas à valorização da cultura popular, através de rodas de coco e oficinas artísticas, como destaca Day Lua. A artista, que idealizou o projeto, contou também com a pesquisa e direção de produção de Juliana Barretto, além das ilustrações de Synara Holanda e de várias outras mulheres comprometidas com a causa do coco e a presença feminina na cultura popular.
“O ciclo de oficinas Cocada – Substantivo Feminino nasceu da necessidade de fortalecer os vínculos entre os saberes ancestrais das mestras do coco e a crescente presença das mulheres na cena contemporânea do coco alagoano”.
Apesar de culturalmente relevante, até por ser uma cultura popular, eventualmente o público não comparece aos eventos. Entre outros, este foi um dos maiores desafios do projeto, segundo a coordenadora. “O primeiro desafio do ciclo de oficinas do Cocada foi ter saído do papel e ser transformado em projeto cultural aprovado em edital. O segundo desafio foi pensar em temas que realmente se aproximassem do interesse de aprendizado do público”, conta.
O local, assim como todo o contexto e a programação, também foi pensado e debatido entre as participantes do grupo. De acordo com Day, inicialmente o plano era executar o evento na Casa de Taipa dos Verdelinhos, localizada no bairro da Chã da Jaqueira, além do Bar do Marival, na Garça Torta, por serem locais de construção cultural alagoana que, hoje, se encontram em resistência devido às ameaças socioambientais.
“Com as fortes chuvas e a impossibilidade de as atividades serem executadas nesses locais, os encontros foram transferidos para a BatuCasa, espaço que abriga eventos culturais, rodas de conversa, cineclube, vivências artísticas, trocas e intercâmbios culturais, como as batucadas que fazem do lugar um tambor pulsante”, explica Day Lua.
Neste dia 1º de junho, quando acontece o primeiro dos três encontros, haverá oficinas para todos os interesses. Apesar de o coletivo ser exclusivamente feminino, a boa atuação e compactuação com o grupo abriu uma vaga nas oficinas para Victor Viana, artista cinematográfico. O nome da oficina é Doc de Bolso, na qual o público terá uma verdadeira aula de audiovisual com o celular.
A segunda oficina tem como ministrante uma componente do grupo de Coco Os Verdelinhos: Íris Verdelinho. Brincante, cantadora, artesã e dançadora de coco e guerreiro: esses são os títulos que a artista carrega e que direcionarão a oficina Na Pisada Delas, ensinando as mulheres o coco dançado.
“Eu me sinto honrada, sabe, de ter chegado para a família Verdelinho. O meu olhar é voltado para a questão da preservação da memória, sabe, em relação ao coco, ao coco de raiz, que eu acho de grande importância”, comenta a brincante.
Com aprofundado conhecimento e rica experiência no ramo, a terceira oficina será ministrada pela artista e dançarina Telma César, que vive a arte desde sua adolescência. “Comecei a dançar coco aos 16 anos, no grupo de tradições folclóricas Professor Théo Brandão, da Ufal. Depois, já dançando profissionalmente em São Paulo, retomei essa experiência e, no mestrado, investiguei a criação em dança contemporânea a partir de uma dança da tradição popular, que era o coco alagoano”, conta Telma.
Já na vibe de mulheres na dança cultural popular, Telma, com outras quatro mulheres, fundou a banda Comadre Florzinha. O grupo gravou diversos cocos aprendidos por Telma com o Mestre Verdelinho, a Mestra Virgínia e a Mestra Hilda. Inclusive, segundo a artista, na época os mestres se encontravam apagados da cena cultural, e ela acredita que o grupo colaborou para que seus nomes surgissem no cenário.
“Acho que a Comadre Florzinha colaborou para a mudança de perspectiva sobre o modo como esses artistas eram vistos. Éramos uma banda só de mulheres que tocavam percussão. Naquele tempo, mulheres tocando tambores, pandeiros, e mesmo uma banda só de mulheres com aquela formação — sanfona e percussão — era algo peculiar”, disse.
Complementando o raciocínio, Telma reflete acerca do protagonismo feminino no coco e afirma que essa manifestação cultural popular possui diversas mestras, citando, nome por nome, algumas delas.
“Os caminhos vêm sendo desbravados há muito tempo já, isso não é de agora não. Terezinha e Lindalva que o digam! Hilda Maria da Silva, Virgínia Moraes, Rosália Gomes, Zeza do Coco e todas as outras que vieram antes e cujos nomes nem chegamos a conhecer”, pontua.
Duas dessas mestras estão, inclusive, com encontro marcado nos dois eventos que ocorrerão nos dias 19 e 20 de julho, o “Encontro com as Mestras”. Dando nome aos bois, Zeza do Coco e Rosália Gomes irão presentear o público, compartilhando a cultura ancestral que possuem acerca do Coco, das mulheres e de como uma coisa tem a ver com a outra.
Desse modo, é impossível não marcar presença no evento do Cocada, sem esquecer, é claro, de fazer a inscrição — que é completamente gratuita — nas oficinas. As informações estão no Instagram do projeto: @cocadafeminina.
Íris Verdelinho faz o convite: “Meu conselho é: venha, venha brincar o coco, levar essa oficina de trupé na leveza de uma brincadeira, porque cultura popular, digo por mim, é onde eu boto meu ‘eu criança’ pra brincar e esqueço por uns instantes da vida adulta”.