loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
sexta-feira, 24/07/2026 | Ano | Nº 6274
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Caderno B

‘Uma faca sem cabo nem bainha’

Escritor Thalles Gomes lança 'Ladrões de Cabrito' em Maceió

Romance liga Brasil e Haiti por suas feridas, com espaço para discutir colonialismo moderno e soberania; evento gratuito será nesta quinta-feira (10), às 19h, na Livraria Novo Jardim

Ouvir
Compartilhar
Thalles Gomes participa de bate-papo nesta quinta-feira (10), na Livraria Novo Jardim, no Centro Cultural Arte Pajuçara
Thalles Gomes participa de bate-papo nesta quinta-feira (10), na Livraria Novo Jardim, no Centro Cultural Arte Pajuçara | Foto: Reprodução

O escritor alagoano Thalles Gomes retorna a Maceió nesta quinta-feira (10), às 19h, para lançar o seu novo romance, Ladrões de Cabrito, na Livraria Novo Jardim, localizada no Centro Cultural Arte Pajuçara. A obra, publicada pela Expressão Popular, é uma narrativa ficcional ambientada entre Alagoas e o Haiti, mas construída com os escombros da história recente.

Após estrear oficialmente em São Paulo, em evento com participação do ator Eron Cordeiro, também alagoano, o autor agora apresenta ao público de sua terra natal uma novela que se vale da estrutura do thriller para conduzir o leitor por uma trama de assassinatos, silêncios e sobrevivências. No entanto, o suspense serve aqui mais como artifício do que como destino: o que há, no fundo, é um livro de denúncia, de rastros históricos e de combate. Uma marca do olhar de Thalles Gomes.

A protagonista da história é Judeline, médica haitiana que, após o terremoto de 2010, migra para o Brasil e se estabelece em Alagoas. Em seu cotidiano com a elite local, ela reconhece velhas semelhanças entre os dois países: traumas coloniais não resolvidos, violência disfarçada de ordem, estruturas de exploração com novos rostos e novos nomes. “Na trama, há uma série de mortes na elite de Maceió. A partir disso, Judeline vai desvelando camadas dessa realidade brasileira, que muito se assemelha à haitiana”, explica o autor.

Capa do novo romance do autor alagoano Thalles Gomes
Capa do novo romance do autor alagoano Thalles Gomes | Foto: Reprodução

Thalles sabe do que fala. Em 2010, ele integrou uma brigada de solidariedade internacionalista da Via Campesina ao Haiti, pouco depois da tragédia sísmica que agravou a crise humanitária no país caribenho. A experiência o confrontou diretamente com os rastros da missão da ONU liderada pelo Exército brasileiro, a Minustah — um fracasso, diz ele, que reverbera até hoje. “Aquela missão acabou sendo um laboratório para que muitos dos generais brasileiros do Exército pudessem se rearticular, se organizar e aplicar muito do que eles fizeram lá nas missões de pacificação nas favelas do Rio de Janeiro, e depois no governo Bolsonaro. Nós estamos sentindo até agora”, afirmou o autor em entrevista ao Brasil de Fato.

Shorts Youtube
Play
Joalheiria é alvo de assalto em plena luz do dia em Teotônio Vilela

Joalheiria é alvo de assalto em plena luz do dia em Teotônio Vilela

Play
Prefeitura remove embarcações e objetos abandonados na orla da Pajuçara

Prefeitura remove embarcações e objetos abandonados na orla da Pajuçara

Play
Operação prende suspeito de tráfico de drogas em Arapiraca

Operação prende suspeito de tráfico de drogas em Arapiraca

Play
Polícia inicia 6ª fase da Operação Cerco Fechado

Polícia inicia 6ª fase da Operação Cerco Fechado

Play
Ação da Semsc remove embarcações e objetos abandonados na orla da Pajuçara

Ação da Semsc remove embarcações e objetos abandonados na orla da Pajuçara

O nome do livro vem de uma expressão usada no Haiti durante os anos da ocupação. “Era muito comum a gente passar por alguma comunidade e ouvir o som de alguém imitando um cabrito, porque era muito recente a experiência de alguns soldados terem roubado cabritos. E o cabrito era muito importante, quase como uma poupança do camponês”, relembra.

Embora ele e seus companheiros não fizessem parte da missão militar, mas sim de um grupo civil solidário, carregavam nos corpos a marca da presença estrangeira, do invasor, do ladrão de cabrito.

Ver essa foto no Instagram

Uma publicação compartilhada por Editora Expressão Popular (@editoraexpressaopopular)

O romance, no entanto, não se limita à crítica direta e tampouco cai no didatismo, pelo contrário. O autor recusa estereótipos fáceis sobre o Haiti e se propõe a investigar a genealogia da pobreza imposta. “Foi cobrado um preço muito caro para o Haiti pós-independência. Essas nações se juntaram para fazer com que o Haiti nunca mais pudesse ter uma soberania, uma autonomia”, observa Thalles. O resultado, segundo ele, é um país que ainda hoje sofre com os juros de uma dívida de independência que nunca deveria ter existido.

Judeline, a personagem central, é um fio condutor da trama, a lente pela qual se cruzam duas realidades que parecem distantes, mas são parte de um mesmo continente amputado. Como apontou o sociólogo Lúcio Verçoza em resenha publicada no jornal A Voz do Povo (leia aqui), o livro é “uma faca que só tivesse lâmina — faca só lâmina. É um livro de combate ao punhal verde e amarelo, assim como a tudo o que ele representa”.

Além de Ladrões de Cabrito, Thalles Gomes também é autor do infantil Madá e o jegue cantador, da coletânea de crônicas Dediquem-se à rasteira e do romance Martelo alagoano, em que flertava com o realismo fantástico. Aqui, o tom é outro: a fúria é contida, mas não anestesiada. E o combate, embora em forma de ficção, é claro e direto. Para não dizer, claro, apropriado para estes tempos. Para hoje.

O evento de lançamento, nesta quinta-feira (10), é aberto ao público. O autor participa de um bate-papo, a partir das 19h, na Livraria Novo Jardim, localizada no Centro Cultural Arte Pajuçara (Av. Dr. Antônio Gouveia, 1113 - Pajuçara, Maceió). A obra também pode ser adquirida pelo site da editora Expressão Popular (expressaopopular.com.br).

Relacionadas