O CIRCO OCUPA A CIDADE
Festival Alagoas de Circo resgata tradição e fortalece a cena artística no Estado
Com espetáculos, rodas de conversa e oficinas, evento gratuito articula artistas, políticas públicas e instituições para manter viva uma das expressões mais tradicionais da cultura popular


Desde o dia 1º de agosto e até este domingo (10), entre palcos improvisados e corpos suspensos em lonas, Alagoas centra os holofotes em uma arte ancestral que sempre esteve presente na vivência local: o circo. Com apresentações gratuitas em Maceió e Arapiraca, o inédito Festival Alagoas de Circo propõe mais ir além do espetáculo. Oferece o resgate da memória circense e a articulação de uma cena artística que pulsa no estado, ainda que, por vezes, à margem.
Quem ajuda a desenhar esse mapa é Williams Sant’Anna, curador do festival, artista, pesquisador e mestre em Cultura e Sociedade, com mais de quatro décadas dedicadas ao teatro e ao circo. Pernambucano de nascimento, alagoano por herança afetiva, Sant’Anna fala com familiaridade de uma cultura que ele vê crescer “com potência e diversidade”.
“Alagoas tem circo itinerante rodando o estado, artistas nas ruas, espaços formativos, trupes e coletivos atuantes. Há um pulsar circense aqui. O desafio agora é costurar esse tecido e fazer dele um movimento, com voz política e articulação institucional”, afirma o artista.

A primeira edição do Festival pode até ser vista como modesta em tamanho, mas já nasce com vocação de continuidade. A entrada simbólica de 1 kg de alimento não perecível reforça o compromisso com o acesso e com a partilha de saberes. Oficinas, exibições de filmes, rodas de conversa e espetáculos compõem a programação, realizada por meio da Associação Enlevo, com apoio da Secretaria de Estado da Cultura, via Política Nacional Aldir Blanc (PNAB).
De acordo com o idealizador do projeto, Ricardo Ramires, o festival tem projeção para uma próxima edição ainda mais engajante e, atualmente, busca recursos para sua realização em 2026.
O circo, presença marcante na cultura nordestina desde o século 19, segue vivo. A chegada do Festival Alagoas de Circo à capital não apenas confirma essa vitalidade, como também revela um movimento em curso: o de reivindicar políticas públicas que reconheçam e sustentem os artistas que, por gerações, viveram entre a lona e a rua, muitas vezes sem o amparo institucional.

Sant’Anna vê no festival um gesto de aproximação: “Acredito que o Festival pode provocar essa aglutinação de artistas e coletivos, fazendo elo entre o poder público e o movimento circense, além da articulação com instituições como o Sesc e a Ufal. É uma semente plantada que se espera gerar muitos frutos”.
Entre os exemplos desse diálogo possível, Sant’Anna destaca o trabalho do Núcleo Brincantuar, da Universidade Federal de Alagoas, coordenado pelo professor Ivanildo Picolli, que há anos investe em reflexão crítica e experimentação nas artes circenses. Para ele, o festival tem o poder de ampliar essas conexões e fortalecer a construção de um movimento organizado no estado, com presença ativa e voz nas esferas públicas e culturais.

Para Mellina Freitas, secretária de Estado da Cultura, o apoio ao festival reafirma o compromisso com a preservação e difusão das expressões populares que moldam a identidade alagoana:
“O circo é uma das manifestações mais antigas e encantadoras da nossa cultura popular. Apoiar iniciativas como o Festival Alagoas de Circo é uma forma de preservar essa tradição, valorizar os artistas e, principalmente, garantir que as novas gerações tenham acesso a essa arte. O Governador Paulo Dantas tem compromisso com a cultura itinerante e com todas as expressões que fortalecem nossa identidade e diversidade cultural.”
Todos esses desdobramentos e visões para o futuro da cena circense alagoana são recebidos com entusiasmo e esperança, tanto por representantes do poder público quanto pelos artistas que, dia após dia, sustentam esse bloco vivo de cultura em movimento.
O Festival Alagoas de Circo, ainda em sua primeira edição, já se desenha como um ponto de encontro, uma arena simbólica onde o passado se reconhece no presente e aponta caminhos para o porvir.
Programação:
7/08 – QUINTA – Às 19h - Museu Zezito Guedes - Arapiraca
Roda de Diálogo – Arapiraca – Formação para as Artes Circenses – Caminhos e Desafios
8/08 – SEXTA – Às 16h - ETA/UFAL - Maceió
Espetáculo AS PALAVRAS D’GRAUS – Joseph Malabares (Garanhuns - PE/Maceió - AL)
9/08 – SÁBADO – Às 20h - Circo Novo Horizonte
Espetáculo: A MULHER DA CAPA PRETA – Circo Alteza (Maceió – AL), e CIRCO NOVO HORIZONTE (Maceió – AL)
10/08 – DOMINGO – Às 16h - Praça do Centenário - Maceió
Espetáculos: NOITE DE FOGO E O MALABARISMO ENCANTADO - Magnus Evandro (Maceió-AL), e O GAROTO MOTOCROSS - Coletivo No Vermelho (Maceió -AL)
*Estagiário sob supervisão da editoria de Cultura