TEATRO
Peça ‘Yerma’, de García Lorca, ganha nova montagem em Maceió
Espetáculo do Centro de Pesquisas Cênicas terá cinco sessões, de hoje até domingo, e propõe uma experiência sensorial inspirada na obra trágica do autor espanhol
Aclamada por sua força simbólica e poética, a peça Yerma, de Federico García Lorca, ganha nova montagem em Maceió com uma abordagem estética e dramatúrgica intensa e contemporânea. A adaptação é do Centro de Pesquisas Cênicas (Cepec) e será apresentada em cinco sessões nos dias 15, 16 e 17 de agosto, como trabalho de conclusão da turma do nível Avançado do curso livre de teatro. O espetáculo acontece no espaço do próprio Cepec, na Pajuçara, com ingressos limitados.
Escrita em 1934 e originalmente ambientada em uma zona rural da Andaluzia, a obra de Lorca permanece atual ao retratar a trajetória de uma mulher dominada pela obsessão de engravidar. Yerma vive em um ambiente patriarcal e repressivo, onde sua identidade como mulher é condicionada à capacidade de gerar filhos. Com o passar dos anos e a ausência de gravidez, a frustração se transforma em desespero e culmina em uma tragédia inescapável.
“Ela se vê presa entre a secura de seu corpo, a indiferença do marido e a pressão social por maternidade, até que sua frustração atinge um ponto irreversível. A peça expõe, em tom íntimo, temas como infertilidade, honra, opressão feminina e o peso da tradição”, explica o diretor Claudemir Santos.
PÚBLICO IMERSO
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A proposta da montagem alagoana é provocar uma experiência imersiva. Em vez de uma encenação convencional em palco italiano, Yerma será apresentada em uma sala fechada e intimista, em que a plateia se posiciona a poucos centímetros dos atores. Cada suspiro, tremor ou lágrima será vivido quase como uma extensão do corpo do espectador.
A cenografia minimalista, composta por dois bancos e um chão de terra, reforça a estética da “seca” que atravessa toda a encenação: a seca da terra, da alma, do ventre, detalha o diretor. “É uma montagem visceral, que fala ao corpo e à emoção, evocando o realismo poético enquanto rompe a quarta parede”, resume Claudemir.
A ENTREGA DO ELENCO
No palco, nove alunos dão vida aos personagens criados por Lorca. A protagonista é vivida por Clara Lima, que mergulha em um processo intenso de composição. “Interpretá-la tem sido um grande desafio. A personagem passa por estados emocionais muito intensos, o desejo, a frustração, a raiva, que exigem o estudo e a compreensão do que a leva a esses sentimentos em cada cena”, relata.
Ahyas, que interpreta João, o marido de Yerma, destaca o desafio de habitar um personagem árido, rígido e emocionalmente ausente. “É um homem bruto, hora agressivo, insensível, gélido, apático, duro, inseguro, desconfiado e seco. Yerma significa ‘seca’, mas a real sequidão dessa história está no coração e mente de seu esposo. Ele ainda carrega um segredo místico de família que deixa todos de boca aberta”, afirma o ator.
O processo de construção da montagem começou há seis meses com um mergulho físico e técnico. O elenco passou por treinamentos de voz, respiração, consciência corporal e dinâmicas inspiradas em técnicas de Stanislavski e Laban. A proposta foi construir uma “física da seca”, um corpo tensionado, fatigado, que carrega o peso simbólico da infertilidade e da repressão.
“Fomos analisando juntos cena por cena e aprofundando o estudo de cada personagem. Esses momentos foram fundamentais para criar uma base sólida de entendimento coletivo sobre a peça e garantir que todos estivéssemos contando a mesma história. Depois disso, partimos para os ensaios práticos, com foco no corpo, na voz e nas relações em cena”, destaca Claudemir.
Embora ambientada nos anos 1930, a tragédia de Yerma tem força no presente. Questões como autonomia do corpo feminino, os papéis de gênero e o silenciamento da mulher continuam a ser urgentes. “Estamos lidando com um público acima de 14 anos, formado por intelectuais, artistas, professores e comunicadores. Eles se conectam com textos densos e interpretações que unem poesia, pensamento e sensorialidade. Yerma foi escolhida por seu apelo universal e pela urgência de ressignificar essa tragédia sob uma lente contemporânea”, afirma o diretor.
Clara Lima antecipa o impacto emocional da peça. “O público pode esperar um espetáculo sensível e forte. Yerma fala sobre o desejo, a angústia, a frustração, a dor e a raiva de uma mulher que se sente inútil diante da sociedade em que vive. A ideia é que aqueles que assistam se sintam tocados e se sensibilizem pela dor da personagem”.
Ahyas complementa: “Impacto, reflexão, fúria, anseio, paixão, cultura, raiva, tristeza e muita arte. Yerma é uma história profunda que nos entrelaça e apaixona por mostrar de forma crua, seca, a opressão às mulheres, as regras ditas ao seu corpo e o quanto a sequidão da moral e dos bons costumes podem envenenar”.
Serviço:
- O quê: Espetáculo “Yerma” — livre adaptação da obra de Federico García Lorca
- Quando: 15 de agosto, às 20h; 16 e 17 de agosto, às 17h e 19h30
- Onde: Espaço Cepec — Rua Basileu Mendes, 165, Pajuçara
- Classificação: 14 anos
- Ingressos: R$ 60 (inteira) / R$ 30 (meia) — todos pagam meia
- Vendas: Com elenco, via Sympla ou na recepção da escola
- Elenco: Ahyas, Anna Cláudia Almeida, Clara Lima, Kevin Vieira, Laís Miranda, Laura Maravilha, Léo Eira, Rob d Lyra e Yasmin Vitória