ALAGOAS BRILHOU
Cinema de Alagoas faz história em Gramado e volta com dois Kikitos
Aline Marta Maia conquista estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante e diretor Luciano Pedro Jr. vence prêmio da crítica com seu curta de estreia


Alagoas desenhou um novo contorno no mapa do audiovisual brasileiro ao voltar do 53° Festival de Cinema de Gramado com dois Kikitos inéditos. O prêmio do júri reconheceu O Mapa em que Estão os Meus Pés, estreia do diretor Luciano Pedro Jr., como Melhor Curta; e consagrou Aline Marta Maia como Melhor Atriz Coadjuvante por sua atuação no longa A natureza das coisas invisíveis, de Rafaela Camelo. Dois caminhos distintos, mas que se encontram no mesmo palco: de um lado, um jovem cineasta que inicia sua trajetória com um prêmio de peso; do outro, uma artista com quase meio século de carreira, que soma mais um capítulo luminoso à sua obra.
Aline Marta Maia interpreta Francisca, bisavó da protagonista Sofia, em um drama que encara a infância sem amenidades. O longa, uma coprodução Brasil-Chile, estreia nos cinemas em 27 de novembro e também recebeu em Gramado os prêmios de Melhor Trilha e o Especial do Júri. Aline acrescenta o Kikito a conquistas recentes, como as vitórias no Festival do Rio.

“Estou muito emocionada. Eu não esperava encontrar tanta gente boa aqui no festival. Agradeço a confiança da minha querida diretora, Rafaela Camelo, por ter me dado esse presente que foi essa bisavó. Quando eu li esse roteiro, mesmo a minha agente dizendo para eu ter calma, porque ainda não tinha certeza, eu tinha certeza de que aquele papel era meu. Aquela bisavó era minha”, disse Aline Marta Maia ao receber o prêmio.
Enquanto isso, o curta de Luciano Pedro Jr., de 27 anos, colocou Alagoas na lista restrita de prêmios da crítica em Gramado. O Mapa em que Estão os Meus Pés foi rodado em película Super-8 entre Barra de Santo Antônio, Porto de Pedras e Maceió, inspirado numa história de família: Sebastião, pescador e agricultor de 84 anos, desapareceu por seis dias até ser encontrado no lugar a que sempre desejara voltar, sua cidade natal.

“Cada um contava uma versão. Eu decidi criar a minha própria, através da ficção. Imaginar que ele tinha deixado filmagens em Super-8 foi minha forma de devolver imagens ao que nunca foi registrado”, conta o diretor, também responsável pela fotografia do filme. “Filmar em película era fundamental. É o material dos álbuns de família, dos arquivos domésticos. Isso já é um comentário em si”, disse Luciano à Gazeta, quando o curta foi selecionado para a mostra gaúcha.
Na cerimônia, o jovem dedicou o prêmio ao bisavô, à avó e à própria mãe. “Antes de eu sair de casa para o festival, minha mãe disse: ‘volte pra casa com esse prêmio’. Como eu sou um filho obediente, ganhei”, contou, arrancando risos da plateia. “Eu acho muito importante que a gente crie e reconstrua a memória das nossas famílias, pra gente entender de onde a gente veio e para onde a gente tá caminhando. Isso é muito importante pra mim. É meu primeiro filme. Meu primeiro festival”.
O reconhecimento veio em meio a uma disputa acirrada: o 53º Festival de Cinema de Gramado recebeu mais de mil curtas inscritos, dos quais apenas doze chegaram à competição.

Luciano Pedro Jr. é ator, diretor e roteirista alagoano, formado em Teatro pela Universidade Federal de Pernambuco. Atua no audiovisual há seis anos. Agora, além de assinar seu primeiro curta, prepara a distribuição de Brincadeira de Criança e já escreve o próximo trabalho, a animação Meu lado esquerdo, sobre uma mulher em processo de recuperação após um AVC.
Aline Marta, por sua vez, iniciou sua trajetória em 1976, em grupos teatrais alagoanos como Comédia Alagoense e Infinito Enquanto Truque. Estreou no cinema nos anos 1980, com o média-metragem Tana’s Take, de Almir Guilhermino, exibido no Festival de Brasília. Desde então, construiu uma carreira sólida, atuando em longas como Casa de Antiguidades (2020), de João Paulo Miranda Maria — selecionado para o Festival de Cannes —, Curral (2018/2021), de Marcelo Brennand, e Serial Kelly, de Renê Guerra. Foi premiada no Festival do Rio (2022), com Carvão, e em 2023, com Pedágio, ambos dirigidos por Carolina Markowicz. Entre os curtas, soma passagens em produções como A Barca, de Nilton Rezende, e títulos de Pedro Rocha, como As Travessuras de Dalvinha (2015) e Desalmada e Atrevida (2007).
Além dos prêmios para Alagoas, o documentário Para Vigo me Voy, de Lírio Ferreira e Karen Harley, recebeu o prêmio de Menção Honrosa no Festival de Gramado. A obra é uma homenagem ao cineasta alagoano Cacá Diegues, que faleceu neste ano.