loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 08/01/2026 | Ano | Nº 6135
Maceió, AL
23° Tempo
Home > Caderno B

CINEMA

‘Marty Supreme’ traz Timothée Chalamet em conto de ambição pós-2ª Guerra

Diretor Josh Safdie fala sobre o longa que é um dos principais cotados ao Oscar 2026 e chega aos cinemas brasileiros a partir de hoje

Ouvir
Compartilhar
Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no Whatsapp
Timothée Chalamet interpreta jogador controverso em 'Marty Supreme'
Timothée Chalamet interpreta jogador controverso em 'Marty Supreme' | Foto: Diamond Films/Divulgação

Em uma das cenas mais memoráveis de Marty Supreme, o talentoso mesa-tenista Marty Mauser, vivido por Timothée Chalamet (Um Completo Desconhecido, Duna), disputa uma partida contra um leão marinho durante a atração de intervalo de um evento dos Harlem Globetrotters, equipe de basquete que viaja o mundo fazendo exibições performáticas.

É apenas um dos vários capítulos extraordinários da jornada frenética e errática de Mauser, um jovem movido por ambição desenfreada e complexo de grandiosidade, elementos que fazem do novo filme de Josh Safdie um espelho da sociedade americana.

Um dos principais cotados ao Oscar 2026, o longa-metragem chega hoje aos cinemas brasileiros, em algumas sessões especiais. A estreia oficial é no dia 22. O orçamento do projeto foi de US$ 70 milhões, superando Guerra Civil (2024) como a empreitada mais cara da história do estúdio A24.

A trama, situada nos anos 1950, é vagamente baseada na vida do pentacampeão mundial Marty Reisman, que escreveu a autobiografia The Money Player, a qual Safdie ganhou de presente de sua mulher anos atrás. O diretor de 41 anos diz que o livro foi importante, porque lhe abriu as portas para o mundo do tênis de mesa, mas deixa claro que Mauser e Reisman são figuras distintas.

“Meu tio jogou muito contra todos os grandes jogadores daquela época, Bobby Gusikoff, Sol Schiff, Dick Miles (que era o melhor de todos). Todos eram jovens sonhadores. Eles acreditavam que esse esporte seria algo grandioso, mas eram desajustados que não se encaixavam na sociedade. Eles não conseguiam manter um emprego e a maior coisa que Deus lhes deu foi o tênis de mesa. Foi essa mentalidade, da promessa de glória, que me inspirou”, contou Safdie ao Estadão, durante visita a São Paulo para participar da CCXP25.

Logo nos primeiros minutos, a produção apresenta Mauser trabalhando como sapateiro na loja de seu tio em Nova York. Dono de um ego inflado e lábia sedutora, ele afirma ser capaz de “vender sapatos para clientes com pés amputados”. Acometido por complexo de grandiosidade, o rapaz judeu se recusa a ser um zé-ninguém, na medida em que o talento com a raquete lhe proporciona disputar um grande torneio na Inglaterra, oportunidade que poderia torná-lo uma superestrela. Em conversa com jornalistas, ele diz ser o “maior pesadelo de Hitler”.

A separação dos irmãos Safdie

Em seus trabalhos anteriores – Bom Comportamento (2017), com Robert Pattinson no papel do ladrão de bancos Connie Nikas, e Joias Brutas (2019), com Adam Sandler na pele do joalheiro golpista Howard Ratner – Josh tinha como parceiro o irmão Benny para investigar esses homens complexos e autossabotadores, assim como Marty Mauser.

Todavia, eles se separaram por diferenças criativas. No ano passado, Benny também fez uma imersão esportiva para seu primeiro filme solo, Coração de Lutador, drama sobre o lutador de MMA Mark Kerr, com The Rock.

“Eu quis explorar este filme e Benny queria explorar o filme dele, que eu adorei. Ele não gosta de tênis de mesa e não queria explorar os temas que explorei, como sonho e ambição. Foi simples assim”, justifica Josh, ao ser questionado sobre a separação.

Tensão, judaísmo e um elenco real

A construção de tensão quase ininterrupta, amparada pela montagem ágil, é uma assinatura do diretor. O aspecto volta a ganhar força em Marty Supreme. “Fizemos muitas tomadas no set. Eu sou um maximalista. Acho que meu desejo de preencher cada momento do filme com vida tem um efeito aditivo que torna a energia bastante intensa”, opina.

Criados nos seio de uma família judaica, os Safdie sempre estiveram interessados em mostrar a experiência dos judeus nos EUA, de forma integrada ao caos urbano, numa espécie de tensão entre tradição e perpetuação da religião no mundo moderno.

“A minha avó tinha 10 anos quando ouviu, em Nova York, as primeiras notícias sobre Hitler. Ela ia para a cama todas as noites com medo de que aquilo [nazismo] estivesse indo para a América”, lembra Safdie. “Creio que a vitória das forças aliadas e o fracasso do Holocausto em exterminar todos os judeus foi como gasolina em cima da pequena chama do orgulho judaico. Então, havia um grande senso de orgulho após a 2ª Guerra entre o povo judeu. Havia muita tristeza pelas pessoas que morreram, mas havia orgulho nessa sobrevivência”.

O realizador também se notabilizou por usar a escalação de elenco como um dos pilares para construir o realismo bruto de seus projetos, selecionando atores não-profissionais para papéis importantes. Ao mesmo tempo, é capaz de convidar nomes famosos para participações memoráveis.

Em Joias Brutas, o rapper The Weeknd e o astro da NBA Kevin Garnett foram destaques. Já em Marty Supreme, o megaempresário Kevin O’Leary, conhecido por sua atuação na versão americana do reality Shark Tank, o veterano cineasta Abel Ferrara (Vício Frenético), e a consagrada atriz Gwyneth Paltrow (Shakespeare Apaixonado) brilham ao emularem traços de suas próprias vidas em cena. Há também a presença do cantor Tyler, the Creator, que faz um amigo de Mauser.

Josh acredita que um ator ruim ou rosto anacrônico podem arruinar um filme inteiro. Para ele, cada escalação evoca a experiência de vida da elegida pessoa, seja ela conhecida ou não, para a tela.

“Se você quer alguém que pareça que não é de Nova York, então você escala alguém que não é de Nova York. No caso da Gwyneth Paltrow, ela é de fato uma estrela de cinema e interpreta uma. Com Kevin O’Leary, eu sabia que precisávamos de um verdadeiro homem de negócios. Já com Abel Ferrara estávamos trazendo a representação dos filmes dele, é o poeta da rua, com certo aspecto de gângster”, analisa.

Relacionadas