FENÔMENO
‘Música brasileira pra mim é vivência’, diz João Gomes ao revisitar faixa de alagoano em projeto Dominguinho
Projeto de João Gomes, Mestrinho e Jota Pê encontra tradições do interior nordestino e regrava clássico de Kara Veia. Artistas se apresentam neste sábado (10), em Maceió


O domingo sempre foi o dia em que o tempo desacelera antes do recomeço. Dia de escuta, de conversa longa, de amizade. É desse ritmo que nasce Dominguinho, projeto musical liderado por João Gomes, Mestrinho e Jota Pê. Pensado longe da lógica acelerada do mercado, o trabalho surge como uma proposta intimista e acaba ganhando projeção internacional. O disco, vencedor do Grammy Latino na categoria Melhor Álbum de Música de Raízes em Língua Portuguesa, valoriza uma curadoria que enxerga a música brasileira como território, silêncio e história em cada nota.
Antes de se tornar um álbum premiado, Dominguinho é um retorno. Um retorno às canções que existiam antes das plataformas digitais, antes dos palcos lotados, antes mesmo de serem registradas em estúdio. O projeto revisita uma tradição musical forjada no interior nordestino — a mesma que formou vozes como a do alagoano Kara Veia.
“Aqui em Alagoas tem um rei, se chama Kara Veia.” A frase é dita por João Gomes durante a faixa Flor de Flamboyant, regravada no projeto. Os artistas desembarcam em Maceió para um show gratuito no Verão Massayó, na noite deste sábado (10).
Em entrevista exclusiva, o Caderno B conversou com os três artistas sobre o processo de curadoria, inspirações, desejos e sonoridades do disco, que, inicialmente, seria um EP com quatro faixas. O bate-papo com João, Mestrinho e Jota Pê percorreu memórias, conquistas importantes de suas trajetórias e revelou bastidores do projeto.
A música que já morava neles
A quinta faixa do álbum é uma releitura de Flor de Flamboyant, gravada em 2002, pelo chã-pretense Kara Veia. Segundo João Gomes, cantar o artista alagoano sempre esteve no caminho de Dominguinho.
“Kara é daqueles artistas que a gente cresce ouvindo, aprendendo sem perceber. Quando eu apresento ele pro Jota como um rei, é porque é isso mesmo que ele é pra gente no Nordeste. A música dele corre no sangue do vaqueiro, do interior, das festas simples e verdadeiras. Flor de Flamboyant não entrou no disco por acaso, ela já morava na gente”, disse o cantor.
Pernambucano, natural de Serrita, João Fernando Gomes Valério afirma que a obra de Kara Veia expressa um Nordeste profundo, sensível e orgulhoso de si. “Um Nordeste que não precisa gritar pra ser forte, que emociona pela verdade. Ele fala de amor, de terra, de saudade, de cotidiano… tudo isso entra no disco como sentimento, como raiz. É um Nordeste que acolhe e ensina a ouvir com calma”, compartilha.
Já o paulista João Paulo Gomes da Silva, o Jota Pê, conta que conhecia a força da música de Kara Veia antes mesmo da regravação. “A história dele cruza com a nossa pelo respeito à origem, pelo compromisso com a verdade do que se canta. É uma música que nasce do chão, e isso conversa muito com tudo que Dominguinho é”, afirma.

Jota Pê revela ainda que o álbum chegou a 12 faixas porque a própria música pediu mais espaço. “A ideia de ser um EP vinha da leveza, de não colocar peso demais, mas logo percebemos que aquelas canções tinham fôlego. Existia um universo ali que não cabia em quatro faixas. O disco foi se revelando pra gente enquanto o processo acontecia”, contou.
Segundo ele, a sonoridade foi se desenhando de forma orgânica. “O repertório foi crescendo, e a gente já falava de Dominguinho como um lugar, não como uma ideia. Foi um disco construído na troca, no afeto e na confiança”, relembrou.
Para o sergipano Erivaldo Júnior Alves de Oliveira, o Mestrinho, o projeto pedia simplicidade. “A gente deixou de lado qualquer coisa que soasse grandiosa demais ou arranjada demais. Às vezes, a melhor decisão foi não tocar, não preencher todos os espaços. Deixar a música respirar foi essencial pra ela encontrar o próprio corpo”, disse.
Entre mestres e interiores
Os artistas contam que o forró sempre esteve presente em suas trajetórias. A conversa com o Caderno B assumiu um tom contemplativo ao lembrarem do papel da música em suas vidas.
O sanfoneiro Mestrinho, natural de Itabaiana, já se apresentou ao lado de Dominguinhos (1941–2013). Ele recorda que o mestre o ensinou a ser generoso com a música. “Ele nunca tocou pra mostrar virtuosismo, tocava pra servir a canção. Como pessoa, ensinou humildade, escuta e respeito ao tempo das coisas. Isso atravessa Dominguinho o tempo inteiro: o cuidado com cada nota, o silêncio, o espaço pro outro brilhar”, contou.
Esses ensinamentos nortearam os arranjos de sanfona do álbum. “Pensei a sanfona como um fio condutor emocional. Ela não precisava falar o tempo todo, mas, quando falasse, precisava dizer algo importante. É uma sanfona que escuta antes de responder”, explicou.

Segundo João Gomes, o disco é atravessado por referências afetivas. “Música brasileira pra mim é vivência. Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Djavan, Gil, mas também os sons de casa, da rua, do rádio ligado cedo. Coisas que não aparecem de forma direta, mas moldam a forma da gente cantar, tocar e sentir”, afirmou.
Assim como Kara Veia, muitos meninos do Nordeste veem na sanfona uma promessa de futuro. João Gomes diz desejar um caminho em que essas referências não precisem ser abandonadas para que se sonhe alto. “Que a sanfona, o aboio, a toada não sejam vistos como limite, mas como potência. Se eu puder abrir caminhos pra que outros cheguem sendo quem são, já valeu demais”, afirmou.
Nenhum dos três artistas do projeto nasceu em capitais, assim como Kara Veia, natural de Chã Preta. Para João Gomes, isso ajuda a explicar a força do disco. “O interior brasileiro é um celeiro de histórias e sons que ainda têm muito pra mostrar. A gente vem de lugares onde a música nasce da necessidade de se expressar, não de seguir tendência. Isso cria artistas verdadeiros, com identidade forte. Eu acredito muito nessa força do interior”, disse.
Essas trajetórias não se cruzam por acaso, mas por uma mesma escuta: a música que nasce longe dos grandes centros e carrega o tempo do interior. Em Dominguinho, esse tempo não é apressado nem traduzido para caber no mercado. Ele é respeitado.
