DESPEDIDA
Manoel Carlos, autor que marcou a história das novelas, morre aos 92 anos
Títulos como 'Por Amor' e 'Laços de Família' marcaram época


Morreu, no último sábado (10), o dramaturgo, produtor e diretor Manoel Carlos, no Rio de Janeiro, aos 92 anos. Autor de novelas como "Por Amor", "História de Amor", "Mulheres Apaixonadas" e "Páginas da Vida", ele foi um dos nomes mais importantes da teledramaturgia nacional.
A causa da morte não foi divulgada, mas Maneco —como era conhecido— lidava com a doença de Parkinson havia mais de uma década. Ele enfrentava pioras no seu quadro nos últimos anos, com agravamento motor e cognitivo.
Sua última novela foi "Em Família", de 2014, em que abordou a doença da qual sofria por meio de um personagem interpretado por Paulo José, que também tinha Parkinson.
Manoel Carlos foi uma espécie de versão masculina das Helenas, as protagonistas de suas novelas, a maioria delas mulheres ricas que vivem tragédias diante das quais o dinheiro nada importa. A sequência de fatalidades que enfrentou atrás das telas contrasta com a de glórias na frente delas. Enquanto sua vida pessoal parece uma novela, a profissional é um verdadeiro documentário da história da televisão brasileira.
No roteiro do que seria uma novela sobre Maneco estão os dramas da morte precoce e trágica da primeira mulher e dos três filhos. Maria de Lourdes, aos 37 anos, tropeçou no salto alto e morreu ao cair da escada de casa. Eles tinham dois filhos, que também morreriam prematuramente. O mais novo, Ricardo, portador de HIV, com 32, em 1988, e o primogênito, Manoel Carlos Jr., de infarto, aos 58, em 2012.
Traumatizado, Maneco falava da alegria inesperada de ter tido, já aos 60 anos, um filho caçula, Pedro, do terceiro casamento, com Betty —eles tiveram também uma filha, a atriz Júlia Almeida. Era uma espécie de pai-avô e tinha 81 anos quando o garoto, aos 22, morreu de mal súbito, em 2014, menos de dois anos após o primogênito.
Quando criança e adolescente, Maneco era "da pá virada", saía de um castigo para entrar em outro, até que os pais o mandaram para um colégio interno, de padres, em Bragança Paulista, no interior de São Paulo. Lá, repetiu de ano e abandonou a escola antes de se formar no então ginasial, hoje ensino fundamental. Nunca recebeu um diploma. Formou-se fora das escolas, devorando músicas, livros, peças de teatro.
Conectou-se desde pequeno ao teatro amador, ainda no ambiente escolar, e, posteriormente, fez parte de grupos ligados a igrejas e a sindicatos. Escrevia, produzia e interpretava os textos. Foi por aí que chegou à televisão, em um programa da Tupi de teleteatros, dirigido por Antunes Filho.
Foi do alto dos 19 anos que Manoel Carlos, após a passagem pela Tupi, foi contratado como ator, autor, produtor e diretor da TV Paulista, inaugurada naquele ano de 1952. Em um estúdio pequeno e com condições técnicas precárias, ele comandava apresentações de adaptações de textos de Shakespeare ao vivo, como tudo o que era feito na TV. Logo rumou para outra emissora recém-inaugurada, a Record, em 1953, no mesmo ano em que se casou com Maria de Lourdes. Mantinha em paralelo a sua carreira no teatro, àquela altura já profissional, e foi no ambiente dos palcos e das coxias que conheceu grande parte dos profissionais com quem trabalharia na TV.
Mas era como autor que mais se destacava e, em 1960, elaborou o roteiro do musical de inauguração da TV Excelsior. Na nova emissora, criou o "Brasil 60", programa de variedades apresentado por Bibi Ferreira. Em 1963, encerrou sua passagem pela Excelsior dirigindo um show de Ray Charles e se mudou para o Rio. Era, então, casado com a radialista Cidinha Campos, com quem teve uma filha, Maria Carolina.
Foi roteirista do programa de Chico Anysio na TV Rio. Estava na sede da emissora, quando assistiu, pela janela, ao lado do diretor Walter Clark e do apresentador Flávio Cavalcanti, a tomada do Forte de Copacabana no golpe militar de 1964. Assustado, retornou com a família para São Paulo. Voltou, então, a trabalhar na TV Record, para onde também se transferiu Chico Anysio, que o chamou para dirigir o seu programa.
Foi nessa época que participou de uma reunião na qual o diretor artístico da Record, Paulo Machado de Carvalho, disse que a emissora deveria investir em musicais porque a teledramaturgia, grande aposta da Tupi e da Excelsior, não teria futuro no Brasil. A previsão equivocada teve um lado bom: deu início à era de ouro dos musicais na TV.
Com a experiência do "Brasil 60", Maneco entrou com tudo nessa estratégia da Record. Criou e dirigiu "O Fino da Bossa", apresentado por Jair Rodrigues e Elis Regina, que ele selecionou em um concurso de cantoras. Foi Maneco também que assinou, em nome da Record, o contrato com Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa para o programa "Jovem Guarda". Ele foi um dos mais atuantes na formação de um elenco que incorporou novos talentos como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil.
Além dos musicais, participou da elaboração de uma série de programas memoráveis de variedades e de humor, como a "A Família Trapo". Dirigiu em 1971 o histórico show Construção, de Chico Buarque, no Canecão, no Rio. Em 1973, foi diretor do memorável festival Phono 73, no Anhembi, em São Paulo, que teve nomes como Raul Seixas, Rita Lee, Chico Buarque, Gal Costa, Caetano Veloso e Elis.
Nesse mesmo ano de 1973, Maneco começou a trabalhar na Globo, convidado por um velho amigo, Jô Soares, que à ocasião apresentava um programa de entrevistas, o "Globo Gente". Com tantos musicais no currículo, foi chamado por Boni, o diretor da emissora, para participar da criação de um programa de variedades dominical, o "Fantástico", no qual a música teria destaque. A ideia inicial era de que todo o conteúdo –musicais, humor, jornalismo– fosse costurado em uma narrativa com o tom da esperança. Maneco foi encarregado de escrever os roteiros de forma a amarrar as atrações com esse sentido e logo se tornou diretor-geral do "Fantástico".
Enquanto isso, as novelas da Globo, contrariando por completo a previsão do diretor da Record sobre o fim da teledramaturgia, consolidavam-se como o principal produto da indústria cultural brasileira. Eram o programa preferido do público, a maior fonte de faturamento da TV. Mas havia poucos autores além dos principais, Janete Clair e Dias Gomes, que tinham de escrever novela atrás de novela. Era preciso buscar novos nomes, e Maneco foi escalado.
Começou na Globo com uma novela das 18h, "Maria Maria" (1978), adaptação do romance "Maria Dusá", de Lindolfo Rocha. Entrou para o horário nobre, o da novela das oito, como colaborador de Gilberto Braga em "Água Viva" (1980). Depois fez "Baila Comigo" (1981), a primeira que escreveu sozinho para as 20h, um sucesso, com a história dos gêmeos João Victor e Quinzinho (Tony Ramos), separados na infância.
Na sua novela seguinte, "Sol de Verão" (1982), sofreu o trauma pela morte de Jardel Filho, que fazia o papel do protagonista. Foi quando passou uma temporada de sete anos fora da Globo e fez novelas para a Colômbia e para o mercado latino nos EUA. Imprimiu o estilo realista da teledramaturgia brasileira às produções latinas, conhecidas por tramas mirabolantes e pelo excesso de maquiagem nos atores.
Também fez trabalhos para a Manchete e para a Band até retornar para a Globo em 1991, com a novela das seis "Felicidade". Nessa trama, a personagem principal, interpretada por Maitê Proença, se chamava Helena, uma retomada ao nome da heroína de "Baila Comigo", papel de Lilian Lemmertz. A partir de então, todas as suas protagonistas se chamariam Helena, entre elas as vividas por Regina Duarte em "História de Amor" (1995), "Por Amor" (1997) e "Páginas da Vida" (2006), Vera Fischer em "Laços de Família" (2000), Christiane Torloni em "Mulheres Apaixonadas" (2003) e Taís Araújo em "Viver a Vida"(2009).
A escolha do nome havia sido aleatória, Maneco dizia. Todas eram mulheres fortes, que sofriam capítulo a capítulo. Não eram perfeitas, longe disso, e até mentiam, mas sempre por amor.
As histórias trazida por Maneco mostram dramas da classe média e alta, do universo do autor. Seu estilo é o da crônica urbana, um mosaico de personagens em que as histórias se cruzam nos elevadores dos prédios do Leblon, no calçadão, na banca de jornal ou na padaria do bairro, todos lugares que Maneco frequentava. É da rotina desses personagens que extrai as histórias, os diálogos em torno das fartas mesas de café da manhã, dos jantares finos, na academia, na praia. "Minhas novelas retratam o cotidiano da classe média, seus dramas, desejos, suas vidinhas comuns e banais", disse em entrevista.
Consagrou-se pela sensibilidade com que criava personagens femininos. Escrevia com facilidade diálogos em que as mulheres falavam de sexo, casamento, filhos, carreira, envelhecimento. Era chamado de especialista na alma feminina.
"As mulheres têm mais força, são mais heroicas e têm mais caráter que os homens", afirmou, ao comentar a preferência por personagens femininas. Foi escolhido pelo diretor Jayme Monjardim, que o chamava de "autor do coração das mulheres", para roteirizar a minissérie "Maysa" (2009), sobre a famosa cantora de MPB, sua mãe.
Outra minissérie de Maneco, sucesso de repercussão e de audiência, foi "Presença de Anita" (2001), baseada em um romance de Mário Donato. Na TV, o triângulo amoroso entre uma garota (Mel Lisboa), um menino da sua idade (Leonardo Miggiorin) e um homem bem mais velho (José Mayer) foi regado a cenas ousadas de sexo e nudez.
A sensibilidade poética e musical o levaram a atuar diretamente na escolha da trilha sonora de suas novelas, regadas pelo melhor da bossa nova, o que também se tornou sua marca. Era ao som de Vinicius e Tom Jobim que as Helenas, assim como Manoel Carlos, viviam entre a cobertura do Leblon e o calçadão, alternando dias sombrios e outros ensolarados, em busca de um final feliz.
