ARTE CIRCENSE
Debaixo da lona
Entre gerações, riscos e aplausos, conheça um pouco da vida que os artistas constroem no circo
Quem passa pela avenida onde o circo está instalado em Maceió já percebe de longe a lona nas cores azul e branco que se destaca em meio à paisagem. Debaixo dela, artistas de diferentes gerações se preparam diariamente para entregar ao público o melhor de si durante as apresentações. A cada cidade visitada, o ritual se repete: montar a estrutura, ajustar aparelhos, testar luzes, ensaiar números e, ao cair da noite, abrir as cortinas para mais um espetáculo. Entre riscos, disciplina e emoção, a vida no circo segue sendo passada de geração em geração.
A Gazeta de Alagoas foi conversar com artistas que dedicam suas vidas à arte circense e que estão passando uma temporada em Maceió. Em comum, eles têm o amor pela vida no circo e tudo o que ela traz: muitas abdicações, força de vontade e superação.
É nesse universo que vive o acrobata Mauro Rogério Santiago, conhecido no picadeiro como Jeep Santiago. Aos 58 anos, ele carrega no corpo e na memória a história de uma família inteira dedicada à arte circense. “Nasci no circo, sou a quarta geração da minha família. Desde criança meu sonho sempre foi atuar”, conta. Inspirado por acrobatas europeus, Mauro se especializou nas acrobacias em báscula, tradição herdada de família. “Os valores passados de pai para filho são disciplina, amor pelo que se faz e dedicação. Tudo é transmitido no dia a dia”, afirma.
A rotina exige organização e preparo constante. Os dias são divididos entre ensaios, manutenção dos aparelhos e tarefas da vida comum. Antes de cada apresentação, o ritual é quase sagrado: aquecimento do corpo, concentração da mente e foco absoluto. “Sempre nos preparamos física e mentalmente para o que vamos realizar”, explica.
Mas a vida itinerante traz desafios que o público nem sempre imagina. “É muito trabalhoso e caro levar um circo de um lugar para outro. São estradas, riscos, taxas, dificuldade para encontrar terrenos adequados”, relata Mauro. Ainda assim, ele reconhece os lados positivos. “Conhecemos muitos lugares, mas também é cansativo e gera ansiedade. Já pensei em desistir, mas o amor pelo que faço me deu forças para continuar. A satisfação de entrar no picadeiro dá sentido a tudo”, afirma.
Esse sentimento é compartilhado por Adrielle Alves, de 35 anos, coreógrafa, trapezista e mágica do Internacional Circo Kroner, que está instalado em Maceió. Representante da quinta geração de uma família circense, ela brinca que o chamado veio antes mesmo do nascimento. “Acho que desde quando estava na barriga da minha mãe, enquanto ela pulava no trapézio”, diz. Há dois anos e meio integrando a trupe, Adrielle tem no pai sua maior referência. “Ele tem 59 anos e ainda voa no trapézio comigo. É meu maior orgulho”, fala.
Para ela, o circo é também uma grande escola de convivência e o trapézio é o principal legado técnico passado em sua família. “Vivemos juntos 24 horas por dia. Isso nos ensina sobre respeito, compaixão e empatia. Todos fazem várias coisas, mas o trapézio vem sempre em primeiro lugar”, fala.
Conciliar maternidade e rotina intensa é outro desafio. Mãe de uma criança de três anos, Adrielle divide seus dias entre os cuidados com a filha, as tarefas domésticas, as longas horas de ensaio e apresentações noturnas. “Quando o espetáculo acaba, o trabalho ainda continua. Só depois é que vou para casa jantar e descansar”, fala.
Já Nathalia Malta, de 38 anos, bambolista e bailarina, tem uma história diferente, mas igualmente marcada pelo encantamento pela arte circense. Ela não nasceu ‘debaixo da lona’, mas se apaixonou pelo circo e de lá não mais saiu. “Um dia fui assistir a um espetáculo e lá fiquei. Me apaixonei desde o momento em que sentei na cadeira”, conta. Nathalia conheceu o universo circense aos 20 anos e, desde então, já são 18 anos vivenciando tudo o que a vida de um artista de circo pode proporcionar.
Suas referências vêm de casa e do palco. “No modo de viver e conviver, meu marido Jeep Santiago é minha maior inspiração. Na arte, admiro muito as bambolistas russas”. Para ela, os valores transmitidos no circo são claros: “perseverança, dedicação, concentração, respeito e amor”.
Sua rotina se assemelha à de muitas mulheres. “Casa, filho, escola, trabalho e mais trabalho. Tento me cuidar um pouco quando dá, pois o preparo físico é fundamental para a apresentação. Fazemos academia e treinamos constantemente para aprimorar as técnicas”, destaca.
Entre os desafios da vida itinerante, ela fala sobre a saudade da família. “É difícil não passar datas especiais com quem amamos, além dos riscos das estradas. Tudo tem prós e contras e no circo também é assim”, afirma.
Manter o circo ativo é outra batalha diária. “Muita gente não sabe, mas o circo paga taxas, aluguéis e muitos outros custos. É um esforço enorme manter tudo funcionando”, diz.
Para Nathalia, no entanto, abandonar essa vida não é uma opção. “O circo foi uma injeção de vida para mim. Eu sofria de depressão quando conheci essa arte. Já pensei em desistir, mas o circo está dentro de mim. Todo dia é uma emoção diferente, um público diferente. É um prazer enorme me apresentar”, afirma.
Entre histórias de quem nasceu sob a lona e de quem foi conquistado por ela, o circo continua difundindo sua arte, que é passada de geração em geração, e encantando o público de todas as idades. Para as crianças, um lugar para rir, se impressionar e se divertir. Para os adultos, um local que remete à infância e que promove um resgate afetivo.
SERVIÇO:
Circo Internacional Kroner
Onde: Avenida Josefa de Melo, ao lado do Aracadão
Quando: de segunda a quinta-feira, às 19h30, e às sextas, sábados e domingos, de 17h e 19h30
Ingressos: www.circokroner.com.br; bilheteria física do circo, de 9h às 21h; stand do Viva Alagoas, no Maceió Shopping