MÚSICA
Compor em Alagoas se torna arte entre a precarização e a permanência
No Dia do Compositor, Wado fala sobre criação fora do eixo Sudeste, precarização do trabalho artístico e os impactos da era digital
As canções nem sempre nascem em estúdios climatizados ou diante de equipamentos sofisticados. Muitas vezes, elas surgem no silêncio da madrugada, em meio ao barulho do ônibus, na calmaria da praia ou na nota digitada às pressas no celular. Toda canção carrega um lugar de origem, não apenas geográfico, mas afetivo. Para compositores alagoanos, o ato de criar dialoga diretamente com o cotidiano, com as experiências pessoais e com uma história coletiva que atravessa o tempo, mesmo quando a lógica das plataformas digitais tenta padronizar sons e silenciar singularidades.
Fazer música fora do eixo Sudeste é, antes de tudo, um ato de resistência. Em Alagoas, compositores constroem suas obras entre a precarização do trabalho artístico, a dificuldade de circulação e a disputa desigual com os grandes centros da indústria cultural. Ainda assim, é desse território, marcado por vivências próprias e repertórios singulares, que nascem canções profundamente conectadas à vida real.
Em um tempo em que a música circula em velocidade acelerada e a inteligência artificial já ameaça ocupar espaços antes exclusivos da criação humana, compor exige mais do que técnica. Exige presença, memória e pertencimento. Para além do eixo Rio - São Paulo, artistas alagoanos seguem criando a partir de suas vivências, enfrentando os desafios da era digital, as incertezas sobre direitos autorais e a constante reinvenção do que significa viver de música hoje.
No Dia do Compositor, celebrado nesta quinta-feira (15), o Caderno B conversou com Wado, nome artístico de Oswaldo Schlikmann, cantor e compositor nascido em Florianópolis, mas radicado em Maceió desde os oito anos. Entre as muitas camadas da música popular brasileira, Wado construiu uma obra que dialoga diretamente com o território onde vive. O compositor é um exemplo de como criar fora do eixo Sudeste não significa estar à margem, mas produzir a partir de outro centro feito de escuta e atravessamentos culturais que transformam vivência em canção.
Ao longo da carreira, o artista, cujas obras possuem fortes influências do samba, rock e da MPB, construiu parcerias importantes, como a com o escritor Mia Couto. Ele conta que essas trocas têm muito a acrescentar no processo criativo de um compositor.
“Eu acho que o compositor é uma esponja, não é? A gente lê o nosso tempo, a gente lê as coisas que tocam nossos olhos, nossos ouvidos, nossos sentidos. E quando o compositor está se alimentando de uma boa literatura, a gente consegue ir para um lugar muito especial. Muita gente que eu consumo na leitura acaba reverberando na canção, né? É importante que as coisas não nasçam do nada”, diz.
Além das trocas, Wado fala que suas composições podem nascer de diversas formas, seja no violão, conversas com amigos ou em inspirações da televisão.
“Tenho parceira com um monte de gente, mas os que eu tenho mais frequência recentemente são o Zeca Baleiro, Vitor Peixoto e Tiago Silva, que é o cavaquinista do Sorriso Maroto. Eu sempre tenho uns cadernos para anotar as coisas, às vezes eu escuto uma frase na TV e esse ouvido distraído nunca é a frase exata, e aí você vai juntando o que conectou com aquilo, parece que aqui esse assunto vira uma antena, e aí você vê que às vezes você capta frases dispersas que têm alguma conexão, e eu sempre volto nesses cadernos porque eu já tenho mais de 180 músicas”, conta.
Em tempos da efervescência da Inteligência Artificial, o processo criativo humano se prova mais necessário. O artista fala que enxerga a IA como um mimetismo artificial, já que a tecnologia apenas imita o ser humano e, por isso, a criação musical não corre risco de esvaziamento.
“Para usar IA para escrever, você tem que entregar muita coisa para que o texto saia da mediocridade. Às vezes, você tem que usar a ferramenta, mas com muita interferência humana para que isso fique minimamente bom hoje. Você precisa entregar um conteúdo autêntico para que aquilo não fique pasteurizado demais. Tem que fazer um prompt muito bom ainda e eu acho que sempre terá”, reflete.
Nossa conversa também viajou entre a condição do compositor na era dos streamings e os direitos autorais. Wado conta que o conceito de álbum, enquanto peça conceitual que contém paisagem e recado, foi criado pelos Beatles com o Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band, oitavo disco da banda, lançado em 1967.
“A gente volta agora para um momento anterior a isso, no raciocínio estrito da plataforma. Os álbuns continuam existindo, mais do que nunca. Eu não tenho muito tesão de fazer coisas fora de álbuns, porque eu gosto desse amálgama de canções vendendo uma paisagem, uma ideia ou uma conexão entre as músicas que estão ali incluídas. E o Spotify e os streamings no geral levam a gente para o single, para estar sempre alimentando com o single. E eu já me desconectei disso”, relata.
O compositor conta ainda que é difícil para esses artistas viverem de composição unicamente pelos streamings. “O direito autoral de rádio, de TV, são formas de se pagar muito mais honestas do que o streaming. Ele paga muito mal e pra você conseguir eriçar do mediano pra o que tá acima é um raciocínio difícil, né?”.
Além disso, Wado falou também sobre a precarização do trabalho no meio da música. “A gente vem na precarização de tudo já há muito tempo, enquanto você vê como o cinema nos ensina, que é um setor da arte muito mais engajado, muito mais sindicalizado, muito mais coletivo, né? O segmento da música precisa aprender muito com o cinema no sentido de se fortalecer coletivamente”, afirma.
Sobre fazer música no Nordeste, Wado conta que o trabalho autoral tem se transformado em um “animal em extinção”. Segundo ele, Maceió é uma cidade árida para quem compõe.
“Eu acho que as dificuldades de compor e circular são todas, né? Esse ano agora eu tô fazendo 25 anos de carreira e quase duas décadas eu vivi exclusivamente de música e agora tô entrando num momento onde tá inviável, assim, apesar de tá fazendo um show essa semana no Sesc Pompeia, mas os trabalhos ficam cada vez mais raros. Eu acho que as pessoas entraram nesse processo do excesso de informação, do scroll infinito, da tela rolando, tem um processo de morte da música autoral nas pequenas cidades, como Maceió”, relata.
No fim das contas, compor continua sendo um gesto íntimo, quase teimoso. Mesmo diante das incertezas, da falta de estrutura e de um mercado cada vez mais hostil à música autoral, os compositores alagoanos seguem criando porque é isso que dá sentido ao caminho. As canções nascem para dar forma ao que se vive, ao que se sente e ao que insiste em permanecer.