IDENTIDADE
Cabelos, cultura e história
Tranças acendem afirmação cultural e ajudam meninas da periferia de Maceió


Antes de se tornarem tendência que ocupa as redes sociais, as tranças já eram linguagem e ocupavam as ruas. São, antes de tudo, uma expressão cultural e identitária. Em sociedades africanas, os desenhos feitos nos cabelos comunicavam pertencimento, posição social e memória coletiva. Esse saber ancestral atravessou o Atlântico com a diáspora africana e sobreviveu à violência do apagamento cultural imposto pela escravidão.
Séculos depois, essa história continua a ser contada, agora também nas músicas. No rap feminino, as tranças aparecem como coroa, raiz e afirmação. As letras ressignificam o que antes foi alvo de estigmatização e devolvem dignidade aos fios crespos, transformando o corpo negro em território de poder. A música ecoa o que muitas mulheres já sabiam: o cabelo é político, e a cabeça erguida também é discurso.
Nas periferias de Maceió, essa memória histórica encontra o presente. O que foi passado de geração em geração no espaço doméstico hoje se transforma em trabalho, renda e autonomia. Meninas de bairros periféricos têm feito das tranças uma ferramenta de reconstrução da autoestima de outras mulheres, ao mesmo tempo em que constroem caminhos possíveis de sobrevivência e ascensão econômica.
Para Evelyn Lima, de 18 anos, ser trancista significa renascimento. A jovem mora e trabalha na parte alta da capital alagoana e conta que trançar cabelos é um ato de resistência. “E também é afirmação cultural quando digo para minhas clientes ‘não abaixem a cabeça’. Muitas têm medo de usar tranças por causa do trabalho, das empresas. E eu sempre digo ‘isso é seu, é o seu cabelo, a sua cultura, a sua história. Vá de trança para o trabalho, sim’”, compartilha.
Evelyn relata que o interesse pelos penteados surgiu ainda criança, quando via a mãe se arrumando. Aos 13 anos, aprendeu a trançar os próprios fios. Segundo ela, as tranças eram uma forma mais prática para lidar com o cabelo no dia a dia.
Quando saía, as perguntas eram constantes e, depois, veio a vontade de trabalhar na área. “As pessoas perguntavam quem tinha feito minhas tranças. Quando eu dizia que era eu mesma, vinham logo as perguntas: ‘quanto você cobra?’, ‘faz em mim?’”, compartilha.
“Eu sempre trabalhei desde muito nova, por escolha, e sempre tive muita responsabilidade. Quando vi a procura crescendo junto com o fortalecimento da cultura negra entendi que aquilo poderia, sim, se transformar em uma fonte de renda e em um trabalho meu”, afirma.
A trancista fala que, com isso, sua vida mudou completamente. “Financeiramente, houve uma melhora importante, porque hoje tenho controle sobre minha renda. Minha saúde emocional também melhorou, porque eu converso, cuido e acolho pessoas todos os dias. Existe um sentimento de carinho muito grande no meu trabalho, e isso é algo que não sei nem explicar direito, é incrível”, lembra.
Além disso, ela fala que é comum presenciar histórias de meninas e mulheres que passam a se enxergar de outra forma depois de colocar tranças.
“É nítido o quanto elas se sentem mais seguras, mais fortes, mais empoderadas. A postura muda, o olhar muda. Eu sinto isso nelas e em mim também. Quando coloco minhas próprias tranças, me sinto outra pessoa. É uma transformação que vai além da estética”, conta.
São muitos os tipos de tranças, cada um carregando uma história. As tranças nagô, por exemplo, vem da cultura do povo Iorubá; as box braids, vistas mais frequentemente, são descendentes da África e do Oriente Médio; e as afro bantu são heranças da África Subsaariana.
Hoje, os pedidos que chegam ao salão de Evelyn são variados: nagô, box, goddess, twists. A lista é extensa. De acordo com a jovem, empreender na periferia é entregar um trabalho para pessoas que se enxergam nele.
“É difícil e, muitas vezes, pesado. Já passei por situações complicadas, inclusive de risco. Ao mesmo tempo, eu não quero sair da periferia para atender só um público que pode pagar caro. Comecei com pouquíssimos recursos, pente, gel, manteiga de karité, e fui construindo tudo aos poucos, guardando dinheiro, parcelando, insistindo. Foi assim que evoluí”, relembra.
A trancista compartilhou seus planos com o Caderno B, dizendo sonhar com um salão estruturado, onde possa contratar outras profissionais. “Quero ampliar o alcance do meu trabalho e continuar levando minha cultura para cada vez mais gente”, sonha.
A jovem ainda aproveitou o espaço para incentivar outras meninas da periferia maceioense. “Comecem. Simplesmente comecem. Se você sente que tem talento, se gosta, se ama fazer trança, faça. Treine, tente, erre, continue. Só começando você descobre se isso é, de fato, para você”, finalizou.
